Lais, a roda e o "fui eu!"
A escola é este espaço de encontro de tanta gente, diferente. Nela, apesar da “boca ser minha”, a conseqüência “é da turma”. Em outras palavras: ninguém é livre sozinho...
O dia era de animação total: montaríamos, em sala, o Museu de Documentos de nossos Antepassados: “todos têm suas sementes; temos sementes de muitas origens...” “Há de se saber da gente, buscando, no passado, nossas raízes, em gente de um tempo muito diferente...” “Como organizar tudo isso? Qual a importância dos museus? Como eles funcionam?”
Assim caminhando, os estudos confluíram para a atividade do dia, em que as crianças trariam à escola documentos, para "Nosso Museu" - depois, ele estaria aberto à exposição pública.
No primeiro tempo do dia, nos ocupamos da arrumação da sala; batendo o sinal para a Educação Física, algumas crianças que, no dia, não fariam a aula, pediram-me se não poderiam ficar em sala terminando a organização da exposição. Solidariedade, empolgação, mobilização, o "não contentar-se de contente", iniciativa: sim, poderiam.
Mas foi aí que... (já diria a Ruth Rocha que sempre há um "Mas foi aí que" em histórias "emocionantes")... que, após o intervalo, ao ir de encontro à fila, o clima havia transformado-se.
Tensão: uma aluna chorava, pois um de seus documentos havia sido “rasgado” por ela mesma, ao tentar tirar o durex que "alguém" havia posto para prender, na carteira, a foto antiga que trouxera – atitude que ela havia pedido para não ser executada por quem ficara na sala durante a Educação Física...
Aconteceu: ao tentar tirar a foto da carteira, o documento tinha acabado por rasgar-se, um pouco...
Nervoso, medo, dúvida, problema: e agora? Olhares: para ela, para mim, entre nós...
Documento antigo “rasgado”, o ato de mexer no pertence alheio, a não escuta a um pedido. Mágoa e nebulosidade. Tempestade. Que fazer?
O passado é essa coisa já passada que deixa marcas que nem sempre podem ser apagadas.
Roda.
“Eu acho que eu errei”, iniciei. “Quando estudamos a organização dos museus e lemos que os documentos devem ser conservados, eu acabei não mencionando a vocês a questão do não usar, neles, durex ou cola... Quem teve esta atitude, agiu com uma boa intenção, eu acho: a de ajudar, para não voar ou perder nada. E não sabia. Eu errei também; vocês, além disto, são crianças e estão aprendendo a mexer com documentos. Acidentes acontecem sim, embora isto seja super chato e seja preciso muito cuidado. Não mexer no que é dos outros, mesmo que sejam amigos da gente, e escutar o que os outros dizem poderia ter evitado isso... Se quem fez, escutou o pedido da nossa amiga e mesmo assim usou o durex, é preciso assumir; pode ter sido algo feito por confusão, sem querer... Mas se não houve respeito ao pedido, é preciso assumir. Eu repito: não vejo maldade... Houve uma boa intenção; eu mesma poderia ter rasgado a foto, o problema maior, por enquanto, não é a foto ter sido rasgada, mas o que isso está causando entre a gente: acusações, omissões, raivas, precipitações, intimidações, pré-julgamentos, intolerância, medos...", disse, com as palavras mais próximas que eu arranjava para chegar, em meu sentimento, aos pequenos.
Reflexão.
Acontece que, de fato, havia, na turma, a tendência a responsabilizar uma colega de classe que ajudara a arrumar a exposição; isso deixara-a muito insegura, frágil, e a tensão aumentava diante da dúvida “ela não estaria assim, por que, afinal de contas, teria feito e não estaria querendo assumir?”
Todos acabaram se colocando, avaliando que sim, eu havia errado, mesmo, realmente, mas que todos sabiam que não se pode mexer no que é dos outros e colocando que haviam sim escutado o pedido de nossa colega. Disseram que a autoria, embora não maldosa, deveria ser assumida mesmo, e que lamentavam e entendiam o nervoso da dona da foto.
Pois bem: a dona da foto pediu para falar.
Desculpou-se pela forma nervosa com a qual tinha agido quando viu a foto rasgada em suas mãos, disse que acabou falando o que não devia e que perdoaria quem tivesse sido, mesmo que aquela foto fosse muito importante à sua família. Família que havia lhe pedido para que tomasse muito cuidado nesta exposição...
Disse que não havia visto quem tinha colocado o durex e que assumia ter responsabilizado alguém da sala sem ter visto. Disse de uma forma terna, sentida, plena, intensa... e eu não conseguiria, como sempre, descrever.
Sua fala quebrou o escuro feitiço do medo e, com ela, outros também disseram que acabaram acusando, sem terem visto...
Brinquei: o passado é para ser cuidado, não para causar guerra entre a gente! Se não, de que vale preservar o passado e destruir a amizade do presente?
Giovanna - sim, ela, que há pouco era por mim assistida de modo "pulante" em sua alegria, organizando a sala, estava agora chorando, de modo muito sentido. Deixei que ela falasse por último. A responsabilidade sobre o ocorrido apontava em sua direção:
”Gente, não fui eu não. Eu juro. Por que vocês acham que fui eu? Só por que eu estava aqui? Não fui eu não. Eu juro. Eu mexi só ali, eu assumo que pus durex ali atrás, nas fichinhas para identificar os documentos, mas não nos documentos, e não mexi aqui..." - dizia, dirigindo-se para o lado em que a foto estava.
Perguntamos por que, então, ela ficara com tanto medo e não tinha ido na fila, ficando na classe: se ela não tinha nada a esconder...
“Ninguém ia acreditar em mim, né... Todo mundo tava me acusando”.
A Gi, essa pequenina que vem aprendendo a assumir e a responsabilizar-se pelo seu crescimento de forma tão tocante, estava referindo-se ao mundo que fica enorme na frente da gente quando quem é querido aponta o dedo em nossa direção e desconfia, sem ter confiança ou escuta no que a gente faz, no que a gente diz. Até porque o mundo, de repente, acaba se apoiando em coisas que a gente fez lá no passado e que já passaram...
Retomei; disse que eu mesma poderia ter rasgado a foto e que a idéia havia sido de bom coração, eu achava, e que não importava quem havia feito, mas que a gente deveria assumir, não responsabilizar aos outros e, enfim, escutar, não deixar que mal entendidos pequenos se perpetuassem por causa do medo.
“Respeitar a tudo e a todos”.
“Assumir o que se faz contra os combinados na frente de todos”.
- Nossos combinados -
Laís, estava ao meu lado. Levantou a pequena, naquele instante, imensamente seu braço, de uma forma que eu nunca irei me esquecer. Olhei para ela e ela estava com os olhos vermelhos.
Laís, amiga qu