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Publicado: Terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Jornalista Viciado, graças a Deus

Quem leu Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel Garcia Márquez deve se lembrar do vício que o Coronel Aureliano Buendía tinha de ficar fabricando delicados peixinhos de ouro e, quando produzia 25 deles, derretia-os e começava tudo outra vez. Foi o modo que ele encontrou para vencer a solidão e a morte e que só foi compreendido pela irmã Amaranta quando ela se encontrou com a Morte — em forma de mulher — e essa lhe explicou que Amaranta devia costurar a roupa de seu próprio funeral. Quando Amaranta acabasse a costura, a Morte a levaria embora desse mundo solitário. Foi a peça mais caprichada que costurou, demorou mais de quatro tentando adiar seu funeral.

Infelizmente (ou felizmente), nós jornalistas somos todos assim: adiamos nosso funeral todos os dias com nosso vício de escrever artigos, reportagens, notícias e crônicas. Eu, por exemplo. Ao começar a trabalhar com jornalismo, achei um pouco repetitivo, eu suava para fazer uma notícia, tomava cuidado com as palavras (e ainda assim errava muito, Deborah Dubner que o diga) e, quando publicava aquele amontoado de palavras, me sentia aliviado, aquilo produzia em mim uma catarse sem precedentes. Mas, alguns minutos depois, já tinha outro texto que precisava ser publicado logo no site e depois outro e mais outro. Meu primeiro emprego na área jornalística foi justamente aqui, nesse portal, onde comecei a perceber o quanto eu precisava esquecer a notícia já publicada e começar a trabalhar em uma nova. Hoje, trabalhando com assessoria de imprensa, é a mesma coisa com os relises: construo o texto, ele é corrigido, envio e logo depois vem outro, e mais outro e mais outro. Como Aureliano e seus peixinhos de ouro sou eu com os relises e crônicas.

Digo que estamos adiando a nossa morte porque precisamos desesperadamente escrever relises (ou releases, como queira), notícias, reportagens, crônicas, artigos e o que mais for necessário. Nós, jornalistas por vocação e por formação, somos totalmente dependentes dessa realidade comunicadora que nasce quando selecionamos um assunto (chamamos essa etapa de pauta), coletamos as informações (a pesquisa) e distribuímos para quem quiser ler, ouvir e ver (a veiculação da notícia propriamente dita). É na rotina jornalística (com muita pressão, pouco tempo e muita coisa para aprender) que vivemos algo que não dá para explicar, apenas aceitamos porque precisamos viver isso. É como se apenas nos sentíssemos úteis, vivos e humanos se vivêssemos nesse processo de troca de informação.

O criador da Amaranta e do Coronel Aureliano Buendía sabe muito bem disso. Gabriel Garcia Márquez também é jornalista e, inclusive, disse uma frase que resume toda essa dependência nossa de cada dia: Uma pessoa só deve ser jornalista se não houver outra solução. Embora na faculdade a frase “jornalismo é um meio de trabalho como qualquer outro” seja quase uma oração na boca de alguns acadêmicos, eu ainda penso que ser um comunicador é ter um modo de vida no qual é necessário saber um pouco de tudo, falar tudo aos poucos e, de certa forma, planejar um mundo melhor. Sinceramente, apesar dos pesares da nossa profissão e do fato de alguns colegas serem tão explorados, ser jornalista não é apenas ter uma profissão, é uma paixão viciante. E não existe tratamento, graças a Deus.

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