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Publicado: Terça-feira, 26 de julho de 2005

Insensíveis, eu digo

Estávamos indo para casa, de van, quando encontramos, na Estrada Parque (que liga Itu a Cabreúva), uma família naquela estrada deserta. O carro deles tinha quebrado. Alguém, dentro da van disse: “vamos embora, vamos embora!”. Outro, justificou: “bem feito!”. Imaginei alguém colocando a cabeça para fora e gritando algo desse tipo para a família.

Essa sensibilidade insensível, essa desumanização do homem me fez lembrar do...

Enterro do Cláudio de Querengué

Há alguns anos, quando o famoso professor Antônio Querengué morreu (aquele que emprestou seu nome à cidade), deixou, como herança, seu cachorro Cláudio, Cláudio Querengué. Não vamos nem tocar no assunto de colocar nome de gente em cachorro, é claro é que algo desnecessário, feio e constrangedor. Mas foi o nome que o professor colocara no seu cachorro, em homenagem a seu avô.
- Como assim o Cláudio morreu?
Isso mesmo! A notícia da morte do Cláudio correu rapidamente pela cidade. A Querengué FM, a TV Querengué, a Folha de Querengué, o www.querengue.com.br, a Revista Querengué de Hoje... enfim, todas as mídias deram a morte do cão como manchete.
- Morre Cláudio Querengué, o cachorro mais conhecido da cidade!
- Na tarde de ontem, o cachorro teve um infarto enquanto comia seu arroz com carne moída.
- Segundo o médico veterinário, o infarto foi por excesso de carne moída.
- A Associação Amigos dos Cães Magros vai fazer uma passeata, hoje, para conscientizar os donos de cães sobre o perigo de deixá-los engordar em excesso.
E assim foi. Cláudio Querengué era tão importante quanto a cadela Baleia, que Graciliano Ramos mostrou em “Vidas Secas”. Sem exagero, era perigoso alguém falar em Lassie, Bingo e Snoop e os querengüenses perguntarem:
- Quem?!
Mas não com Cláudio Querengué. Esse era um símbolo municipal, um patrimônio cultural da cidade, um personagem que, certamente, seria ensinado às futuras gerações.

Na entrada do velório municipal Professor Antônio Querengué uma dupla de mendigos pedia uma ajuda. Esmola, comida, roupa, banho, atenção... alguma coisa!
- Vai trabalhar vagabundo!
- Você acha que vou sustentar preguiçoso?
- Sai pra lá seu fedido, não quero pegar piolho!
E assim os querengüenses entravam no velório onde choravam pelo cachorro. O padre da cidade foi o único que não compareceu à cerimônia, por considerar tudo aquilo um exagero ou, nas palavras dele, um sacrilégio.
- O quê?! — ele se indignou quando a prefeita quis que ele fosse ao velório rezar pela suposta alma do cachorro. — Nunca!
Na caminhada até o cemitério as pessoas iam tristes pela morte do cachorro mas sentiam raiva pela favela que se formara perto do cemitério.
Dizem que a insensibilidade foi tanta que alguém até chutou um mendigo durante a tal procissão e depois se justificou ao ser questionado por um jornalista:
- Achei que fosse um índio!
Nesse clima enterraram o cachorro Cláudio. Houve aquelas cenas de enterro: desmaio, choro desmedido, indignação com o destino. Pela relevância do personagem, havia cartazes, camiseta à lá Che Guevara (dessas, que a maioria das pessoas usa sem saber quem foi o revolucionário). Um camelô já vendia chaveiros com a cara do Cláudio. Só faltou chaveiro do tipo: “estive no enterro do Cláudio Querengué e me lembrei de você”. Depois, as pessoas foram para casa, cada vez mais preocupadas com “meu” de cada um: meu trabalho, meu carro, meu sofrimento, meus problemas...Esse egoísmo vai continuar até que apareça outro Cláudio para que as pessoas se sintam caridosas ao se preocuparem com um cachorro, um gato, um camelo e usarem desse amor como desculpa para desumanizarem o mundo.

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