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Publicado: Terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Falta algo na festa da Dona Jubileusa

Não é todo dia que alguém faz 80 anos. Em Querengué Dona Jubileusa era a primeira na cidade a chegar a essa idade. Mas havia um problema, havia uma espécie de “mau costume”, ou, o que os moradores chamavam de A Maldição dos Aniversários Terminados Em Zero. É o seguinte: em toda festa de aniversário de 10, 20, 30 anos alguém esquecia algo. Às vezes era um detalhe, às vezes era algo importante, mas sempre faltava algo nesses aniversários de idade terminada em zero.

A Dona Jubileusa, mesmo, já tinha passado pelas mais curiosas situações. Quando fez 10 anos, esqueceram as bexigas da festa; aos 20 anos, eles esqueceram de alugar o salão; aos 30 esqueceram de comprar o bolo; aos 40 esqueceram de fazer brigadeiros diet (Dona Jubileusa é diabética); aos 50 esqueceram de levar o presente; aos 60 esqueceram de comprar o presente e aos 70 esqueceram do próprio aniversário.

Para quebrar essa chamada “maldição”, eles (amigos, parentes, ex-alunos da Dona Jubileusa) teriam que fazer uma mega festa para comemorar uma idade inédita na cidade (no caso, os 80 anos dela) sem esquecer de nenhum detalhe. Caso isso não acontecesse, as pessoas continuariam a esquecer coisas importantes nas festas de aniversário de idades terminadas em zero.
Os filhos da Dona Jubileusa se movimentaram. O que ela gostaria de comer na festa?
- Se é para escolher, quero comer lasanha!
Estranho, mas tudo bem. Lasanha.

Os netos da Dona Jubileusa também se movimentaram. O que ela gostaria que os convidados comessem?
- Se eu vou comer lasanha, o que vocês acham que eles devem comer? É óbvio, não?!
Era sempre assim, seca, mas amorosa. Lasanha de novo.

Os bisnetos da Dona Jubileusa também se movimentaram. Tinha algo que não poderia faltar?
- Se faltar bexiga nessa, eu não entro no salão.

Bexiga, salão, bolo, som, convites, brigadeiros diet, lasanha e faixa comemorativa (“Adeus maldição, Dona Jubileusa quebrou sua ação”): tudo estava certo naquela festa histórica de oitenta anos, em que ninguém esqueceria nada, nenhum detalhe e a cidade ainda se veria livre daquele mal amnésico que deixara tantos traumas nos querengüenses.

Chegou o grande dia. Todos estavam lá. O padre, o juiz, o médico, o padeiro e o advogado vieram para a festa e até um rabino parente da aniversariante estava lá. A imprensa da capital também marcou presença. Foi uma festa linda, muita música (forró, como exigira Dona Jubileusa), muita lasanha e pouco espaço para o bolo e brigadeiros diet.
- Engraçado, me parece que estamos esquecendo algo – a sensação era comum a todos ali no salão.
- Bobagem, é força do hábito.
Só quando foram buscar Dona Jubileusa para cortar o bolo é que perceberam e alguém gritou lá do fundo do salão:
- Esquecemos de acordar a vovó!
Correram para a casa dela, na esperança de trazê-la a tempo, quem sabe a maldição nem tivesse reparado na ausência da aniversariante. Mas, quando entraram no quarto, o relógio já marcava meia-noite e um. Dona Jubileusa acordou assustada:
- Acho que perdi a hora... Vou tomar um banho e já vamos pra festa!Até hoje a cidade aguarda ansiosa a festa dos noventa anos da Dona Jubileusa.

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