Eu me lembro, éramos todos irmãos
No início, a vida era mais fraterna. Até as nossas brincadeiras eram mais fraternais, não traziam o objetivo de ganhar, matar ou derrotar alguém, apenas propunha que as crianças se divertissem juntos. A graça estava no processo e não no resultado.
Lembro com certa nostalgia da seringueira que descobrimos numa das fazendas em morei. Eu e alguns primos invadimos aquela árvore e fizemos de cada galho um apartamento. Como infância é sinônimo de imaginação, íamos nas férias morar naquela seringueira, deixando para trás todos os caros e complexos brinquedos modernosos que tínhamos ou queríamos ter. Não precisávamos ficar horas em frente à TV, afinal, aquela seringueira servia de bases para nossos melhores tombos e, da mesma forma, para nossas mais altas escaladas.
- Eu sou o síndico – reclamou o Billy.
- Síndico?! O que faz um síndico?
- Ora, eu não sei, mas todo prédio tem que ter um. E eu falei primeiro.
Concordamos, ninguém queria ser o que não se sabia para que servia. O Billy era o síndico do prédio, embora na seringueira não fosse diferente de nenhum de nós.
- Cinco folhas.
Era um absurdo. Cada morador da seringueira teria de dar cinco folhas para o recém auto-promulgado síndico. Mas aceitamos, afinal, naquela época, nosso dinheiro dava, literalmente, em árvore. Cada uma das folhonas da seringueira valia cem reais e as folhas secas eram moedas para imaginados trocos.
- Pode ficar com o troco – dizíamos, com um luxo que não podemos ter mais. Que pena.
- Mais cinco folhas.
- Ora, não faz nem cinco minutos que te pagamos. Agora só no mês que vem!
- Eu sou o síndico da brincadeira. Cada cinco minutos aqui valem um mês da vida real.
Após o terceiro pagamento (mais de cinco mil reais em quinze minutos!), o Billy nos mostrou outra de suas novidades.
- Essas são as novas moradoras do prédio!
Quando elas chegaram, tudo mudou. As feministas eram lideradas pela minha irmã – minha própria irmã! – e também queriam um galho, digo, um apartamento para cada uma. Elas eram muito modernosas, com suas profissões diferentosas: Testadora de pára-quedas, Dona do Brasil e Presidente da ONU.
- O que é ONU?
- Minha professora falou que é como a casa da gente, mas sem nossos pais e com um monte de gente que você não conhece. Cada um fala num idioma.
- Eu quero falar em brasileiro mesmo.
Assim, no nosso prédio morava a imaginária Presidente da ONU.
- Todo mundo tem de mudar de nome e cada menina vai morar com um menino, se o menino pedir a menina em casamento antes.
Depois foi revelado o segredo. Elas tinham convencido o Billy a deixá-las brincar de casinha na seringueira, tudo graças a uma oferta de três brigadeirões para ele, que época era bem redondo.
- E quem quiser ser solteiro vai ter a aprovação da síndica!
O Billy se zangou.
- Como assim “sindíca”? Eu sou menino!
- Tudo bem, mas agora eu é que sou a síndica!
Eu tentei apaziguar, mas a paz já fazia parte do passado. Discussões, divórcios, processos jurídicos: tudo isso começa na infância. A coisa só voltou ao normal quando nós, meninos casados, disquitados e o síndico, fizemos xixi em todos os galhos alcançáveis e elas, meninas abandonadas, sem-teto e a ex-síndica, voltaram a brincar de casinha e bonecas.
Quando veio a chuva e o cheiro forte passou, voltamos para a seringueira. Percebemos que a brincadeira voltara ao normal, sem brigas e com bastante imaginação, quando o Billy estendeu a mão rechonchuda e disse:
- Cinco folhas para voltar a morar nesse prédio.