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Publicado: Domingo, 29 de outubro de 2006

Eu, careca

E então eu raspei a cabeça. Na verdade não raspei, passei a máquina um. Foi meu primeiro corte de não-cabelo. Eu gostei, apesar do baque em saber que meu couro cabeludo ainda é de gordo (creia-me, eu já fui mais largo). A maioria das pessoas que viram detestou. Fiquei feliz em ouvir suas críticas e ligar tanto quanto ligo para o aumento da criação de peixes na Indonésia.

Mas meus amigos confirmaram a capacidade que tenho de atrair pessoas criativas (o que, para mim, é eficaz, pois não raramente posso roubar as idéias deles). Algumas frases são memoráveis:

1) Fê, senta aí que vou te contar uma coisa: cortaram seu cabelo errado!
2) Quantos foram necessário para te segurar?
3) Conta pra mim quem fez isso com seu cabelo que vou dar um surra nele!
4) Fê, você está doente?
5) O que foi que você fez com seu cabelo?
6) Então você passou no concurso da Febem?
7) Eu sabia que você tinha sido preso!
8) A quimioterapia está avançada, hein?
9) E os skinheads, como vão?
10) Você se olhou no espelho? Tem algo diferente com você, não sei dizer exatamente o que é...

Eu ia escrever alguma coisa na cabeça com máquina zero, tipo “Heloísa Helena para presidente” ou “O que é um peido para quem está cagado?”, mas o cabeleireiro (Seu Raphael, um corintiano de quase 80 anos e que corta cabelo há 60) não sabia como fazer. Aliás, ele também tentou me convencer a não cortar. “Tem certeza que quer fazer isso, menino?”. Tenho. “Mas vai ficar beeeem baixinho, hein?”.

Com licença, tenho que comentar Seu Raphael. Ituano de nascimento e por escolha própria, ele nunca morou em outra cidade ou teve poucas profissões que não fosse cortar o cabelo alheio. É daqueles senhores que dizem “vossos pais moram aqui em Itu?” ou “você é bem servido de pêlo na nunca?”. Figuraça.

Ele divide o salão com um amigo, extremamente sãopaulino, coitado. Como eles conseguem?! O Seu Raphael explica: “O São Paulo quase nunca ganha, então não preciso me preocupar com isso”.

Um de seus lemas é que “aqui palmeirense paga em dobro”. Fui o único dia da minha vida que escondi o fato de ser verdão. “Não ligo muito para esse negócio de futebol, não”. O que até é verdade, mas, no fundo, eu não queria pagar em dobro.

Penso que todo mundo deveria raspar a cabeça pelo menos uma vez na vida. Homem, mulher e derivados. Não é como tatuagem que você nunca tira ou como piercing que dói para colocar. Cabelo cresce todo dia e logo estarei cabeludo outra vez. Daí posso visitar um dos poucos corintianos que gosto e dizer: “passa a máquina um, por favor”.

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