Domingo solitário
Nada é mais solitário e ao mesmo tempo solidário que meu domingo. Solidário pelo meu pai. Quando acordo lá pelas onze só estendo o braço e pego o grosso volume de cadernos do jornal de domingo e fico ali, deitado sozinho e quieto lendo as notícias de ontem e o resumo da semana. Ninguém mais está na casa, além de mim e o complexo de notícias. Ali seguimos por quase uma hora conversando sobre política, cultura e economia no mais completo silêncio.
Geralmente algum dos cachorros vem me tirar a concentração. Confesso que é uma briga boa entre o jornal e algum deles, embora eu saiba que tanto um quanto o outro estão interessados no que eu posso oferecer (para o jornal sou um consumidor em potencial de seus anunciantes e para o cachorro eu posso dar algum coisa de comer, caso levante e vá tomar o café do meio-dia). Enfim, levanto e vou para a cozinha. Meu amigo jornal me acompanha calado, meio derrotado pela minha fome e o cachorro vai saltitando na minha frente rumo à cozinha. Quase posso ouvi-lo cantando à lá “A Noviça Rebelde”:
- Vou comer-ê! Vou comer-ê!
Quando entro na cozinha, penso que deve ser enjoativo comer a mesma ração todo dia. Daí lembro de minha casa, onde moro sozinho, e tenho certeza que é, sim, bastante enjoativo.
O café está ali, mas não tem ninguém por perto. A fazenda no domingo parece dormir o dia todo, alguns carneiros pastam ali perto. Como um pão feito em casa com manteiga feita em casa olhando para eles. Logo mais, no almoço, teremos carne de porco que meu pai matou no sábado e as acerolas já estão ali na pia, provavelmente colhidas pela minha mãe para que delicioso suco seja feito. O bolo de fubá não esfriou porque minha mãe deixou dentro do forninho. A cozinha fica fora da casa, mas consigo ouvir o som da Talita ligado lá no quarto dela, que foi namorar. Meus pais devem estar na Missa e me sinto mal por ser o inútil. É claro que durante a semana eu também trabalho, mas ficar ali sem fazer nada me deixa um pouco depressivo. Mas é só por alguns minutos depois que tomo o café, pois o mestre Veríssimo logo me diverte com mais uma de suas crônicas.
Estou na sala lendo Daniel Piza quando a tropa chega e a casa retoma a vida. Meu pai troca de roupa, minha mãe vai preparando o almoço e minha irmã e o namorado estão ouvindo música. A televisão já está ligada, o som também, janelas e portas ficam abertas, escancaradas para falar a verdade. Meus pais comentam a Missa, depois alguém conta uma piada e as panelas passam por nossos ombros deixando aquele cheiro de carne de porco em nosso inconsciente para sempre. Não tenho fome, mas como mesmo assim. Não posso deixar aquela oportunidade passar de almoçar junto dos meus.
De noite, com o jornal quase todo lido e um livro debaixo do braço, me despeço e volto pra casa, onde a carne de porco dá lugar ao lanche e meus familiares dão lugar a livros, filmes e revistas. Então trabalho e estudo como nunca, para não ficar pensando no meu domingo solidário e solitário.