Dom Quixote e Don Corleone
Apesar de terem sido feitos separados por séculos, o famoso cavaleiro espanhol Dom Quixote (escrito por Miguel de Cervantes e publicado em 1605) e o famoso mafioso italiano Don Vito Corleone (criado por Mario Puzo e levado ao cinema por Fancis Ford Coppola em 72) têm algo em comum: Felipe Fonseca. E não apenas eu, mas todos nós brasileiros temos em nossa personalidade alguns aspectos desses dois lunáticos que têm as loucuras mais sadias da face da Terra. Um deles é capaz de matar o mundo pela famiglia e o outro deixa suas raízes e sai pelo mundo numa busca quixotesca por valores (de Quixote é que vem esse termo).
Comecemos por Don Corleone. Quem leu o livro ou assistiu “O Poderoso Chefão I” (numa interpretação não menos que perfeita de Marlon Brando) sabe que esse personagem é capaz de tudo para proteger seu clã, sua tribo, seus filhotes, sua família. Com os poderosos da Itália ele pode ser cruel, matando alguns, torturando outros e chantageando a todos, mas com sua família, ele é O Bom, O Perfeito, O Exemplo de pureza, amor e fidelidade. Na sei você, mas com minha família sou um pouco Don Corleone, capaz de sofrer e renunciar a coisas que amo para vê-la feliz. Acredito que a maioria dos brasileiros seja assim também, talvez pela forte influência que temos da Igreja Católica que nos ensina desde pequenos que a família é sagrada e, como disse o Papa João Paulo II, é o santuário da vida. Acho que funciona mais ou menos assim: mexa comigo, mas lave bem a boca antes de falar da minha família.
E depois vem Dom Quixote. Nem precisa ler o grandioso (e grande) livro para conhecer a história: um fidalgo lê muitos livros de cavalaria decide sair numa louca missão para salvar donzela em apuros e resgatar valores perdidos pela humanidade como honestidade, retidão e fidelidade. Para isso ele convoca um fiel escudeiro (palavra que já virou clichê) a quem promete terras que os dois logo conquistariam: Sancho Pança. No meu caso, meu fiel escudeiro talvez sejam meus estudos e meu trabalho em Itu. Não tenho certeza disso, é apenas uma idéia. Mas, independente disso, me comportei como Quixote ao sair de casa e vir morar em Itu.
E assim sigo minha vida: dividido pelo meu lado Corleone e pelo meu lado Quixote. Ora lutando contra novas idéias, ora disputando uma vaga entre seus adeptos. Tenho aprendido que generalizações, geralmente, são preconceituosas (ou seja, traçam um conceito prévio sobre algo que, quase sempre, é falso). Não consigo, assim, garantir para você que todas as teorias antigas se tornaram velhas demais e nem posso afirmar que todas as idéias novas são para o nosso bem. O jeito é analisar cada caso, cada opção e discernir o que é melhor para nós, ainda que nem sempre seja o mais agradável.
Apesar de eu ter sido muito bem acolhido em Itu (na faculdade, no trabalho, pelos vizinhos que conheci até agora), eu saí de casa sabendo que era um pedaço de mim que ficava para trás. Mas fui eu quem escolhi. Eu pulei da ponte. Claro, não sem estar com o pára-quedas bem apertado. Costumo brincar que, ao adotar Itu como meu novo lar (agora, além Estância Turística, Cidade dos Exageros e Berço da República, Itu é o Lar Fonseqüênse) eu virei um cidadão ituense. Assim, quem nasce aqui e ama a cidade é um Don Corleone protegendo sua famiglia e é mais conhecido como ituano. Quem vem de fora e aprende a amar a cidade – provavelmente como Quixote fez – se torna um cidadão ituense.
Com alegria e até com certo exagero republicano, agora eu sou ituense. Um ituano de coração.