Criança, eu?!
Sábado à noite, quase domingo. Sem crédito algum no celular. Necessitado diarreiamente de fazer uma ligação. Entro num bar, luto contra a tentação de permanecer ali por mais que cinco minutos. “Tem cartão telefônico?”. Quando olho o cartão que a mulher me vendeu, sinto raiva do abuso do capitalismo sobre nossa infância: o cartão está num envelopezinho que diz: “abra e encontre um cartão telefônico com um de seus personagens favoritos”. É um envelope colorido com imagens do Bob Esponja, dos Anjinhos e outros personagens Nickelodeon. Achei uma sacanagem, mas abri, precisava telefonar.
- Que bom! Achei o sr. Lula Molusco! Mais um para minha coleção!
Meu primo João Pedro (cinco anos) e eu (21). Sábado à noite, um pouco antes de eu sair.
- Felipe, onde você vai?
- Vou sair.
- Mas pra onde?
- Vou sair, João, apenas sair.
- Posso ir junto?
- Hoje não dá.
- Por que não?
- Porque aonde eu vou criança não pode entrar?
- Mas se você pode eu posso também...
Sábado à tarde. Bem antes de eu sair. O João Pedro me chama para brincar.
- Felipe, vamos brincar de lutinha?
Fiquei olhando aquele pequeno ser, criativo, cheio de pique e disposto a lutar – ainda que de brincadeira – com alguém três vezes maior que ele e quatro vezes mais velho. Aceito.
- Vamos! Mas desta vez eu serei o Wolverine!
- Ah, não, Felipe! Você pode ser o Ciclope, o Noturno ou até o Fera, mas eu sou o Wolverine!
- Tudo bem, João, então eu vou ser o Magneto.
- Não, não pode, porque o Magneto ganha do Wolverine.
- Desse jeito eu não brinco.
E assim voltei a ler o livro do Gabriel García Márquez.
Sábado de manhã. Minha mãe e eu.
- Você fica com o João Pedro agora à tarde?
- Mãe, eu preciso terminar esse livro...
- Precisa nada, você tá lendo porque quer...
- Tá bom, eu cuido dele!
- E não rateia, senão eu te ponho de castigo!
Fiquei me imaginando, aos 21 anos, de castigo. Tive de rir. E minha mãe ficou brava por eu rir dela.
Sexta-feira à noite. Meu pai e eu.
- O João Pedro vai ficar uns dias com a gente. Chega amanhã cedo.
- Que legal. Mas o senhor avisa ele que eu sou o primeiro no videogame!
- Felipe, você tem de entender, olha sua idade e olha a idade dele.
- Quando eu tinha a idade dele e o pai dele tinha a que tenho hoje, ninguém impedia esse tipo de injustiça...