Conselho Excepcional de Família
Na minha família, quando alguém atinge os 18 anos, é autorizado a participar dos Conselhos Excepcionais de Família. Desde os 14 eu já acompanhava os Conselhos Anuais de Família, mas era tudo muito chato, as pessoas diziam que se amavam, se perdoavam, se davam presente etc, etc, etc. Aquele, o primeiro Conselho Excepcional em mais de dez anos, me fez ficar ansioso, eu queria ver qual o pepino que descascaríamos ali no salão oval da Família Fonseca.
Tinha a Carlinha, minha prima. Ela poderia escrever um livro sobre os nossos Conselhos de Família, já que sempre ficava responsável pela ATA. A coitada era secretária de um deputado em Avaré e sempre ficava com a missão.
- Muito bem, — começou minha Tia Elza, a mais velha dos irmãos — agora vamos recitar o Hino da Família.
(O Hino que, por causa da vergonha que até hoje me corrói as lembranças, eu não transcreverei aqui.)
- Essa reunião, anota aí Carlinha, tem um objetivo especial. Quase todos vocês devem saber do problema que temos enfrentado desde o começo do ano.
Abra-se um rápido parênteses aqui. O “quase” a que minha tia se referiu só não era “todos” porque meus pais e, obviamente, minha irmã e eu sempre éramos os últimos a saber das notícias familiares. Não porque morássemos na fazenda, mas porque nosso parentes não queriam nos preocupar, como se fôssemos doentes do coração que poderia parar de bater diante de qualquer revelação bombástica. Éramos os últimos da fila da fofoca. Foi assim quando o Cleiton largou a esposa e decidiu mudar de sexo, quando o Jonny processou a mulher porque ela escreveu no jornal que seu membro era pequeno e foi assim quando a Tia Geni matou o cachorro a vassouradas e sua filha colocou o gato para secar no microondas. Éramos os últimos a saber sempre.
Voltando à extraordinária reunião.
- O vovô não participa desta reunião porque, anota aí Carlinha, ele é o assunto a ser discutido. Como quase todos sabem, ele vem... — pausa para conter a emoção — ele vem tendo problemas de comportamento. Na semana passada, mesmo, pegamos o vovô bebendo sabonete líquido pela terceira vez. Anota aí Carlinha.
Meus pais eram os únicos chocados, pois eram os únicos que não sabiam de antemão desse problema. E eu não estava chocado porque achava toda aquela situação interessante demais para reparar em detalhes. O clima tenso e às vezes dramático fazia daquele encontro tão mais excitante que as reuniões de troca de presente e elogios que eu me peguei rezando a Deus para que outros membros da família começassem a beber sabonete líquido.
- A solução, anota isso também Carlinha, é inserirmos o vovô numa casa de repouso.
Minha mãe se levantou. E permitam-me abrir outro rápido e importante parêntese. Minha mãe quase nunca “se levantava”, ou seja, sempre levava a vida numa boa, na dela, como uma leoa que esconde a cria e a raiva debaixo dos braços. Mas, quando ela percebia que sua “levantada” era necessária, eu não gostava de estar perto. Nem mesmo meu pai gostava.
- Como assim “inserirmos numa casa de repouso”?! Você quis dizer “internar num asilo”, não me venha com eufemismos que a situação não permite rebuscar nada. E anota isso aí Carlinha. — Minha mãe percorreu o dedo indicador pela sala toda — Eu não sei porque vocês convocaram essa reunião se a decisão já tinha sido tomada. Decisão, essa, que eu rejeito totalmente, pois o papai vai pra fazenda com a gente. E ái, ái-ái de quem se atrever a pensar em outra solução que envolva afastá-lo da família. Vai ter que se ver com Clarice. Anota isso Carlinha, pára de me olhar assim menina.
Minha mãe é baixinha, mas sabe chamar a atenção. Foi assim que tentaram internar o vovô e ele ficou seis meses com a gente. Até que ele prometeu beber leite puro quando sentisse vontade de pegar outro vidro de sabonete líquido. Hoje ele está lá, firme e forte em Avaré e ele mesmo convocou o Conselho Excepcional de Família para semana que vem. Não sei direito, mas parece que a Tia Elza demonstrou desvios comportamentais. Algo que envolve sabão em pó, não sei direito a história. Que venham esses divertidos conselhos.