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Publicado: Quinta-feira, 4 de agosto de 2005

Casais e separais

Sentados num banco da praça Professor Antônio Querengué, os namorados se declaravam para a vida, para a natureza, para o mundo ouvir e, claro, um para o outro.
- Sabe o que mais admiro em você? – ela falou.
- O quê?
- É como você é tudo com o que sonhei nos últimos meses. Rezei para Santo Antônio, entrei na internet, publiquei nos jornais e agora você está aqui!
Eles se beijaram outra vez.
- E você, sabe o que mais admiro em você? – foi a vez dele.
- O quê?
- São seus gostos. Nunca conheci alguém que gostasse de “Maresia”, da Adriana Calcanhoto, que assistisse filmes de Pedro Almodóvar, que lesse Franz Kafka, que conversasse sobre a Guerra do Vietnã, enfim, alguém assim, como você.
Ela arregalou os olhos.
- Quem é Adriana Calcanhoto, Pedro Almodóvar, Franz Kafka e Guerra do Vietnã?
Ele soltou a mão dela.
- Você não é a GaTiNHa_Disponível_MSN?
- Não. Eu sou a Pagodeira_*28*!
Eles levantaram e foram embora, nunca mais!

E tinha aquele outro casal, ali perto da praça, num barzinho:
- Flaviana?
- Oi!
- Não se lembra de mim?
Ela olhou bem firme, procurando detalhes familiares. Sorriu sem graça:
- Desculpe, eu não me lembro!
- Sou o Geninho!
Diante da expressão confusa dela, ele continuou:
- Minha mãe me levava à sua casa quando tínhamos dez anos, eu passava o dia todo com você, lembra?
- Geninho? Desculpe, nunca conheci nenhum Geninho!
- Lembra que eu te chamava de pintora-de-rodapé, pouca-sombra, suicida-de-meio-fio e cowboy de formiga?
- Desculpe, não me lembro de nada disso!
Era ela! Ele tinha certeza, se bem que ela se tornara uma mulher muito bonita, os cabelos negros, os olhos negros, a pele negra e a roupa negra faziam dela a mulher mais linda de Querengué, ele tinha certeza. Como ela ficara linda!
- Você tem certeza, Flaviana?
- De quê?
- De que não se lembra de mim!
- Sim, me desculpe, você deve ter me confundido com outra Flaviana!
- Tudo bem. Então, tá. Que pena! Vou indo nessa. Tchau!
- Tchau!
Ela ficou olhando o rapaz se afastar e sair do barzinho.
- Nossa! Como o Geninho engordou!

E não muito longe dali, um casal extremamente tímido tentava conversar:
- Queria te pedir uma coisa. – ele falou, com as mãos entre os joelhos.
Ela sorriu de orelha à orelha.
- Pode pedir, meu bem!
- Mas é que eu tenho vergonha.
“Ai meu Deus, ele vai me pedir em casamento!”, ela pensou.
- Querido, estamos juntos há tanto tempo, pode pedir, vai, pede logo!
- Mas é que tenho medo de você dizer “não”.
- Se for o que estou pensando, não tem como eu dizer “não”, somos tão íntimos, meu bem!
- É verdade, estamos juntos há um tempão, né?
- Pois é, fala logo!
- Ai, se você não quiser, tudo bem, eu não vou ficar chateado. Para mim é importante, mas tem que ser o seu momento também, tá? Acredito que os dois devem ficar bem com a idéia.
- Tudo certo. Pode falar!
- E você promete que não vamos brigar se você não quiser? Porque de minha parte, tudo bem.
- Pode falar!
- Se não der agora...
- Fala!
- Ai, não grita! Tá bom, lá vai: – ele respirou fundo e disse sem parar para respirar: – você me deixa ir viajar com o Heitor, o Maurício e o Eduardo?
Ela ficou paralisada, olhando para o quase-noivo e futuro ex.
- Quê?- É, eles vão para a praia na semana que vem, e como eles não têm namorada, quero dizer, noiva, eles não têm de pedir para ninguém. Mas como eu te respeito e te admiro muito, e preciso de você para ser feliz, vim aqui te pedir. Teria algum problema para você?

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