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Publicado: Segunda-feira, 19 de julho de 2004

As aulas não vão começar!

A todos os alunos da vida...
Às crianças com as quais convivo ou já convivi, em especial!

Oi criançada querida...
Vocês estão bem?

Eu queria saber hoje se estão com saudades da escola. E de que é que estão com saudade. Me contem...

Se não houver saudade, não há problema. Vocês não estão com “defeito”.

Mas se houver alguma, me contem...

Neste tempo em que a gente fica em casa, é absolutamente fabuloso tudo o que podemos fazer: as manhãs (ou as tardes, ou as noites!) são tão livres...

Não há horários. As pessoas que mais amamos parecem estar tão mais perto da gente... O nosso quarto fica maior... O dia parece ser tão colorido!!!

Brincadeira para todo lado, tardes com os colegas. Não há agenda. O que é que há? Filmes. A rua. Bicicleta. Passeios. Almofadas, lanches, batata-frita. Quarto organizado do nosso jeito... A gente feliz!

Saudade da escola?

Eu, na verdade, tenho saudades de muitas coisas. Coisa de profa. que tem coração a viver criando, “poetizando”, inventando e até mesmo sofrendo com vocês.

Tenho saudade dos risos. Das invenções. De vê-los brincando e lendo no chão. Querendo usar palavras-novas. Conversando quando não deveriam. Perguntando-me se é com “s” ou “ç”. Querendo me agradar. Testando limites. Constatando que toda ação resulta em uma reação... Chegando afoitos com novidades! Construindo uma lição... Tentando caminhar: trabalhando! Crescendo: em tamanho, em conhecimento. Enquanto pessoas. Eu participando de tudo isso...

Tenho saudade do barulho da sala. Da vida nela. E tenho saudade das carinhas de vocês. Tenho sim. Tenho mesmo: “não entendi”, “que legal”, “ihhhh....”, “que sono...”, ”oba!!!”...

Mas: é verdade que as aulas vão “começar”?

Não é bem assim... Quem disse que é só na escola que tem aula? Quem foi que disse que fora dela não acontecem aulas maravilhosas?

Vocês viram os ipês rosas como floriram neste Inverno? Brincaram muito? Conversaram, gritaram? Descansaram? Sorriram e choraram? Conheceram amigos e lugares novos?

Fiquem sabendo: tenho a impressão de que, na verdade, muitas vezes, o que acontece é que a escola TENTA colocar dentro dela todas as maravilhas que há no mundo. Pensem: quando estudamos Ciências, Geografia, História, na verdade a gente está tentando pôr dentro da sala o mundo lá de fora...

Mundo que vocês viveram nestas férias: afinal, tiveram os ecossistemas a seu redor, o céu acima de vocês, o Inverno de Julho do hemisfério Sul e a vida urbana (ou rural) como paisagem... Vocês SENTIRAM, VIVERAM tudo isso... Viram, conversaram com muita gente, imagino! As palavras e os números estavam por todos os lados...

Então, não pensem que as aulas só vão recomeçar agora não. Elas nunca pararam — muito menos nas férias!!!

A diferença é que em grande parte das escolas (ainda), temos que dar uma “provada” que sabemos sobre essas coisas usando registros... Isso tem a ver com a história das coisas inventadas pelos homens... Embora isso não faça ninguém ser “mais” homem.

É uma coisa que tem seu lado bom e seu lado muito mau também! O pior disso é aquilo que já conversamos: não é porque eu escrevo sobre “ecossistema” que eu sei dele. Lembram-se? Há tantos tipos de saberes... Mas o mundo nem sempre valoriza todos! E enquanto for assim, a maioria das escolas parece que funcionará assim: provando, medindo — porque a escola está no mundo...

Mas, certa vez, tive uma revelação: vi que muita coisa poderia ser tirada da escola que não a faria “deixar de ser escola”: poderiam tirar os livros, as carteiras, os corredores, as paredes, as provas... Igual àquilo que estudamos sobre os nativos: poderíamos “tirar” deles muitas coisas, que eles continuariam sendo nativos! Não é a tinta na cara que faz nativo ser nativo, não é?

Porque “ser” está no coração.

Sabem qual é o coração da escola? Aquilo que a faz “ser”?

São vocês, somos nós. É este espaço e tempo de encontro. Onde a gente aprende sim um montão de coisa. Conversa, lê, descobre, registra, analisa, se descobre... Pára para conviver, aprender, fazer — e “ser”. Espaço do despertar as “mil e uma” curiosidades... Das amizades que a gente nunca esquece. Das nossas criações e da nossa autoria. Das vitórias, dos elogios de quem a gente admira...

Sinto saudades da escola porque nela encontro-me com vocês. E isso é muito bom. Sempre. Saio de lá explodindo idéias e sentimentos. E isso me faz mais gente: ISSO sim!

Então, digo a vocês: não, as aulas não vão começar. Elas nunca pararam.

Para terminar, UMA DA NATHÁLIA...

- Dia 05 DE JULHO -

Toca o telefone aqui em casa. Minha mãe atende.

"Ju, uma aluna sua."

"Sim?"

"Tia... Você não sabe o que aconteceu! Eu precisava te contar!" (Era a Nathália).

“Minha avó acabou de chegar da Grécia... Ela trouxe um monte de coisa PRÁ GENTE! Eu tô aqui com os mascotes das Olimpíadas. Não é ‘FÊVO’ e ‘ATENÁ’ que se fala não: é:_________ e_________ "- (já me esqueci, mas ela sabe direitinho!)

E continua:

"Tia, quando eu ganhei os presentes e abri... EU ME LEMBREI NA HORA DA ESCOLA! EU QUIS QUE AS FÉRIAS TERMINASSEM HOJE JÁ PRÁ TER RODA E A GENTE CONVERSAR DE TUDO O QUE A MINHA AVÓ CONTOU!!!"

Nathália: você me fez passar por um momento FANTÁSTICO!!!

Senti “A SUA“ saudade.

A saudade da escola é possível, não é?

Um abração pessoal,
Até dia 26!
Com “essa” saudade...

“Tia” Juliana!

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