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Publicado: Segunda-feira, 11 de julho de 2005

Andando de ônibus

Acredito no seguinte: só nós conhecemos verdadeiramente quando andamos de ônibus. Isso os livros de auto-ajuda se esquecem de avisar: cada ônibus lotado é a melhor oportunidade para se conhecer, controlar suas emoções e ser, como esses livros dizem, "um campeão no campo das emoções".

Tenho até uma teoria: cada ônibus, em horário de pico, é uma réplica quase perfeita do povo brasileiro. Sociólogos, filósofos, professores, jornalistas e publicitários deveriam andar mais de ônibus que, além de permitir economia nos gastos com gasolina e pedágio, traz ótimas lições de vida para cada passageiro mais atento.

Se você se acha paciente, por exemplo, mas nunca andou de ônibus, me desculpe, você não é paciente. Provavelmente nunca tenha experimentado a tentação do desespero que aparece quando precisa pegar um ônibus para chegar a um ponto, onde pegará outro. E, de repente, o ônibus sai da rota habitual porque o motorista é novo ou porque estão reformando a estrada. É nesse momento que você sabe se é uma pessoa equilibrada ou não. Se chorar, perdoe-me, você ainda não atingiu o que os "escritores da emoção" chamam de "maturidade emocional".

Se você acha que é generoso, mas nunca ofereceu seu assento quentinho, num dia frio, me desculpe, você tem muito a aprender sobre caridade, fraternidade e generosidade. Você vê um idoso em pé perto do seu assento e começa a imaginar as varizes na perna, as dores que vai sentir à noite e, impulsionado pelos ensinamentos cristãos de sua mãe, pergunta: "quer sentar-se?". Ele aceita e você passa a ser mais um em pé, segurando no cano frio, mas feliz.

Se você vive dizendo que ama crianças, mas nunca andou de ônibus, há grandes chances de estar mentindo. Quando você está cansado, voltando para casa de ônibus, pensando na sua cama quentinha, se encolhendo dentro do ônibus e, mesmo que limitadamente, sentindo prazer com essa situação, sempre aparece uma criança que começa a chorar bem alto. E o pior é que ela não chora apenas, ela berra, argumenta com a mãe, chama ela de "boba". Algumas, mais experientes e insistentes, se jogam no chão, vão sentar em outro banco, até ameaçam descer do ônibus. Crianças são seres maravilhosos, mas, você só vai saber se isso de coração, se pegar um ônibus cheio de gente.

Você vive dizendo que religião se discute numa boa, é possível dialogar com decência no Brasil? Então, ande de ônibus e se permita a seguinte provação: duas mulheres, que por azar ou sorte, se sentaram atrás de você e ficam falando alto alguns versículos decorados da Bíblia que, segundo elas, mostram que sua crença é "do demônio". Elas, sem terem essa intenção, ofendem sua querida mãe e sua querida avó. É por isso que você só saberá se respeita verdadeiramente o diálogo inter-religioso se continuar amando essas mulheres depois desse dia.

Enfim, é por essas e outras situações que ando de ônibus, eu quero me conhecer melhor. E tem mais: quando ando de ônibus fico informado, me divirto, conheço melhor o ser humano. As pessoas são mais verdadeiras dentro do ônibu. Talvez porque estejam vivendo, ali dentro, uma situação parecida com a de sua família, mas sem os familiares para acusar, julgar ou prender. Então, assim, as pessoas se soltam, falam mesmo o que pensam, criticam o governo, defendem seus times, opinam sobre os fatos.

Viajar ônibus pode parecer cansativo, monótomo e sem graça, mas é uma grande experiência. Obviamente, exige atenção, paciência e vontade em aprender. Aprender mais sobre si mesmo e sobre o próximo que, mais cedo ou mais tarde, vai fazer algo no ônibus que vai te ensinar muito sobre o comportamento humano.

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