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Publicado: Sexta-feira, 1 de julho de 2005

Amores desconhecidos

Um dos momentos que mais me marcou na faculdade foi o dia em que uma grande amiga minha disse: "eu sou apaixonada por você". Depois disso tentei (e acredito ter conseguido) tratá-la como antes, sem essas criancices de não querer conversar mais. Apenas tive de avisar que o sentimento dela não era correspondido, mas de resto...

Isso me faz lembrar de um dia especial,

O dia em que me apaixonei na rodoviária

Desci, como todo santo dia, na rodoviária e pus-me a andar em direção ao trabalho.

Saindo da rodoviária é que eu a vi. Nossa! E como vi! Fiz força para não ficar ali, como estátua viva sem alma. Passei por ela e dei uma longa inspirada para sentir seu perfume o máximo que conseguisse.

Ela, estava no meio de duas amigas, sorrindo em minha direção, mas não para mim, infelizmente.

Fingi que amarrava o tênis atrás dela, só para sentir um pouco mais o seu perfume.

E depois tive de ir embora. Ia olhando para trás até que o poste me fez olhar para frente. Fui trabalhar com uma baita dor de cabeça.

Passava ali todos os dias, sempre olhando em volta à procura dela. Podia (e posso até hoje) descrever com detalhes a sua boca Angelina Jolie, suas pernas Pamela Anderson, seus olhos Vera Fischer e seus cabelos Juliana Paes. Mas não sabia seu nome (também, nessas horas, quem se preocupa com nomes).

Se pudesse vê-la outra vez, tentaria falar com ela. Mas, como tímido que sou, sei que a cena não seria diferente que meu primo Herbert viveu:

Herbert se aproximou de Ana, sua grande paixão no colegial e disse:

- Oi!

- Oi!

Ele, percebendo o desconforto dela, tentou arranjar um assunto interessante:

- Será que chove hoje?

Mas, ontem, foi o dia mais maravilhoso de minha vida. Eu não precisei procurar Vênus, Vênus me encontrou. No ônibus.

- Oi!

Levantei os olhos do livro. Era ela. Vênus (com roupa, obviamente, pois estávamos dentro do ônibus ainda).

- Oi! – devo ter gaguejado, sei que gaguejei.

- Tem alguém aqui onde está a sua mochila?

Eu, mais que rápido, tirei aquele estorvo de mochila ali. Tenho raiva de minha mochila, que mochila estúpida!

Ficamos em silêncio. Um minuto. Ela – que mulher corajosa! – puxou assunto:

- Que livro é esse?

Eu mostrei a capa e disse:

- A Mulher do Vizinho, do Fernando Sabino.

- Sério que você lê o Sabino?!

Eu não podia acreditar! Ela também gosta do Fernando Sabino! Quer dizer, de suas maravilhosas crônicas. Só faltava ela falar que também lia...

- Mas também gosto do Veríssimo.

Não. Mentira! Além de ser meu número, combina comigo!

Conversamos a viagem toda, ela tinha ido a Cabreúva para procurar emprego e fiquei de entregar alguns currículos por ela.

- Mas não vai dar trabalho, Felipe?

- Espero que dê. Um trabalho em Cabreúva para você.

Ela sorria com minhas piadas sem-graça. Uau! Falamos sobre jornalismo, televisão, cinema...

- Só assisti o "Sobre Meninos e Lobos", mas gostei do trabalho dele – ela falou isso depois que contei minha fixação por Clint Eastwood.

Ficamos ali horas. Não, mentira: ficamos dias, semanas, meses. Só não conversamos sobre a alta do dólar porque não deu tempo, a viagem infelizmente acabou.

Como Deus pôde fazer isso comigo? Fez Itu tão perto de Cabreúva! Em que ponto de minha vida errei para me castigar tanto assim?

Mas tudo bem, Deus já foi tão bom comigo trazendo a Craudinéia até mim, que não posso reclamar.

- Ah, Deus, só mais uma reclamação: por que o Senhor deixou os pais dela colocarem "Craudinéia" num ser tão belo assim?

Pelo nome, sinto que não vai dar certo...

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