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Publicado: Terça-feira, 24 de maio de 2005

Amigos excêntricos

Eu não tenho vasta experiência de vida, nem se quer conheci multidões de pessoas, mas tenho a felicidade de cultivar amizades um tanto excêntricas. Amigos que fumam, amigos que cantam, outros que bebem, pulam de sky coaster. Amigos que já casaram, estão separados, viraram freiras, são seminaristas, amigos padres e ateus, empresários e jornalistas. Enfim, graças a Deus, personalidades que sempre me inspiram crônicas.
É por isso que hoje vamos falar...

Sobre como Hayashi quis ser prefeita

Em Querengué, interior do Estado, existia apenas uma família de japoneses. Eles não tinham vindo do Bairro da Luz, na capital paulista, tinham vindo direto de Tóquio. Bartisa Hayashi era a filha única da família japonesa, mas, assim como seus pais, ela era conhecida apenas pelo sobrenome.
Era uma menina obediente, muito prendada, ajudava em casa. Tinha terminado de cursar a faculdade de História, falava inglês, espanhol e, óbvio, japonês. E tinha um dom especial: sabia desenhar como ninguém. As pessoas procuravam Hayashi para ver as caricaturas que fazia dos querengüenses mais ilustres. Ela desenhava a todos: desde o padre, ao açougueiro. Desenhava a dona Eulália "Fofoca", o Jacó do Porcos, Aluísio "Carteiro', Iranete "Costureira", ninguém escapava de seus traços irônicos.
O único desgosto dos pais de Bartisa, ou Hayashi, era a veia revolucionária que ela tinha. Ela não podia ver um grupinho reunido que já ia entrando no meio dele, com lenha para queimar na fogueira. Assim como ninguém desenhava como Hayashi, ninguém era tão revolucionário como ela.
Quando saiu de casa, Hayashi alugou um quartinho bem longe da casa dos pais, para que eles não morressem de desgosto com suas reivindicações. "Ica-ica-ica, salvem a jaguatirica", gritou ela no megafone quando um dono de circo prendeu uma onça de Querengué. "Ina-ina-ina, esse turco é gente fina", gritara em favor do único turco querengüense, acusado de ser mão-de-vaca.
Fora ela quem encabeçara a campanha contra a demolição do orfanato "Meninos e Meninas Sem Pai Nem Mãe". Nesse caso, foi até as rádios, escreveu para os jornais, publicou em alguns sites e até falou para a TV local. Por fim, a pressão foi tamanha que o orfanato não fechou, e nem continuou com esse nome horrível. Hayashi também comandou uma manifestação popular pelo novo do orfanato: "Filhos e Filhas do Descaso Social". Outra vez a pressão da japonesa deu resultado.
Enfim, Hayashi era fascinada por manifestações populares. Seu quarto era repleto de cartazes, faixas, cartolinas, folhetos e bonés. "Tudo pela mudança", dizia um adesivo colado na janela do quarto. Ao lado desse, outro dizia: "Só haverá direito humano quando vermos os humanos direitos". E outro: "Contra tudo o que é contra o povo". Se Hayashi tivesse vivido em outras épocas, teria sido um samurai fantástico, uma espécie de Mulan da Disney.
- Você deveria ser vereadora! - diziam os amigos.
- Vereadora, não! Prefeita! - outros incentivavam.
Assim, em poucos meses, os querengüenses estavam gritando:
- Hayashi para prefeita! Hayashi para prefeita!
O curioso foi que Hayashi desenhou os cartazes de sua campanha e também de seus adversários. Com o dinheiro que os colegas gastavam na campanha rumo à prefeitura, ela financiou a sua. E como precisava desse dinheiro, fez os melhores cartazes que Querengué já tinha visto nos postes, quase tão bons quantos os seus.
Seus marqueteiros usaram desse fato para convencer a população a votar em Bartisa Hayashi:
- Só uma pessoa ética assim, que ajuda a seus adversários, poderá administrar com dignidade a nossa amada Querengué! Vote Bartisa Hayashi para prefeita!
Ela venceu as eleições com mais de 70% dos votos, uma marca incrível, atingida por poucos na história da política mundial.
Uma vez eleita, Hayashi tinha que enfrentar as manifestações populares. Amigos seus, não eleitos para a Câmara Municipal, continuavam exigindo do poder público uma solução para os problemas da sociedade. Ela nunca imaginara que o poder atraía mais inimigos que a guerra. Nem mesmo imaginara que, no Brasil, estar no poder é estar numa guerra. Até os colegas do partido começaram a perseguir a coitada, só porque ela ficava cada vez mais em evidência na cidade e até mesmo no Estado.
- Ela não é boa para a imagem do partido, desse jeito não conseguiremos voltar a ser conservadores.
- Ela é revolucionária demais! Pensa demais! Ajuda demais!
Por fim ela foi "convidada a se retirar da legenda". Como desânimo atrai desânimo, a prefeita renunciou ao poder antes mesmo de completar um ano de administração pública.
- É impossível governar com tanta mediocridade! Quis do melhor para o povo, mas nem todos querem que o melhor aconteça. Saio da prefeitura para voltar para a escória. - disse, parafraseando Getúlio Vargas, ex-ditador e presidente do Brasil - espero que o Brasil mude para um dia eu conseguir voltar.
Na verdade, Hayashi percebeu que sendo apenas povo poderia fazer tanto quando sendo povo no poder. Ou até mais. Voltou à sua vida de protesto, agora com uma diferença. Tinha menos companheiros na missão revolucionária.
Hoje, Hayashi vive entre os comuns de Querengué. Vende os peixes que seu pai pesca no lago Professor Antonio Querengué. Mas, junto do peixe embrulhado no jornal da cidade, Hayashi sempre entrega seus folhetos: "Querengué precisa de outra creche!", "Diga não às drogas", "Se dirigir, não beba"... A elite sempre gasta seus dólares na Peixaria Hayashi, pois quer que esses japoneses tenham lucro e nunca fechem. Porque, se fecharem, Hayashi pode tentar a vida política outra vez.
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