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Publicado: Segunda-feira, 29 de maio de 2006

A Volta do Cronista Daltônico

O colombiano Gabriel García Márquez diz que todo escritor sempre escreve o mesmo livro. No caso dele, certamente esse livro é o da solidão. Eu, que não tenho livro algum publicado (para a felicidade do mundo), estou com medo de escrever sempre a mesma crônica. Nesse final de semana, por exemplo, sem muita inspiração para escrever qualquer coisa prestável, vasculhei minha vida e a dos outros (salve Orkut!) em busca de algo comentável. E nada. Nenhuma cronicazinha, nem comentariozinho relevante. Já me conformei, de todos os colunistas deste site, apenas eu escrevo sobre bobagens do cotidiano.

Mas, em todas as tentativas de inspiração, me vinha apenas um tema à cabeça: os acontecimentos recentes do Felipe Fonseca Daltônico da Silva Sauro. Assim como a solidão está para Garcia Márquez, o Daltonismo está para mim. Embora eu tenha muitas outras vertentes, defeitos, características, é o Daltonismo — que a partir de agora só escrevo com “Dezão” e nunca mais com “dezinho” — minha fonte primária de inspiração. Talvez minha criatividade também seja daltônica e até me Anjo da Guarda confunda cores irmãs.

Eu defino Daltonismo dessa forma: é uma doença na cabeça que nos faz enxergar as cores irmãs como cores irmãs-gêmeas. Eu já falei isso, mas preciso repetir: deveríamos fundar um Partido dos Daltônicos Unidos. Pensando melhor, talvez devêssemos criar a Igreja dos Daltônicos Perdidos já que um partido nem sempre tem retorno financeiro (essa idéia é para mim e leitores daltônicos, os leitores normais ficam de fora). O dízimo, nessa hipotética e improvável religião, seria variável: 10% da renda para quem confunde azul escuro com roxo; 20% para quem se atrapalha com amarelo e verde e 50% para quem igualar rosa com marrom (que seriam os fiéis mais importantes). Quem pagar fielmente, conseguirá viver eternamente no Céu dos Daltônicos, meus filhos, onde a realidade é preto-e-branco e falar de cores é pecado mortal.

Dias atrás, enquanto eu trabalhava compenetradamente (como eu faço sempre, é bom lembrar, para caso Mariele ou Rodrigo leiam esse texto), alguém me adicionou no MSN. Era um rapaz da Paraíba que tinha me achado não sei como, e o diálogo que se seguiu foi mais ou menos assim:

- Cara, tu é daltônico, não?

- Sou.

- Meu, me ajuda, eu descobri na semana passada que sou também.

- Ora, não se preocupe, ser daltônico é mais engraçado do que trágico. Tenho certeza que você vai sobreviver.

- Só se tiver graça para você, porque eu fui reprovado no exame da aeronáutica por causa dessa PALAVRA CENSURADA (o paraibano disse um palavrão não-muito-legal-de-se-publicar).

Tentei acalmar o sujeito, mas era impossível convencê-lo de que ser daltônico é normal (pelo menos para mim é). Mas o cara estava desiludido. Segundo ele, tirou ótimas notas na prova, só não realizou o sonho de ser piloto porque seu cérebro confundiu as cores.

Foi a primeira vez que fiquei triste com o Daltonismo. Coitado do tiozinho. Mas isso logo passou, pois nessa semana recebi um e-mail dele contando sobre a consulta com outro médico que garantiu a normalidade dele. Pensei: menos um fiel seguidor para minha pseudo-religião e mais um piloto para a nação.

Sobre a minha igreja, o hino oficial seria, certamente, a música “Esquadros”, da Adriana Calcanhotto, especialmente a primeira frase: “Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome”. Cantem desde já, daltônicos do Brasil, uni-vos que em breve estaremos no poder!

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