Colunistas

Publicado: Sexta-feira, 17 de junho de 2005

A Pequena de Querengué e o Molhado

Aquela chuva bem que demonstrava que tinha vindo para mudar a vida de alguns querengüenses! Quando, no outro dia, alguém da família Bernardes abriu a porta da sala, um cesto na calçada tentava proteger aquela linda criança indefesa.

- Que desnaturada! – disseram todos sobre a mãe da coitadinha, que precisava urgente de cuidados médicos.

Ao lado daquela casa, a chuva também trouxera novidades: a família Bem-Te-Vi achou um gatinho molhado, encolhido em frente à casa.

- Que bonitinho!

Ambas casas recolheram os sem-teto. O gatinho, muito criativamente, foi chamado de Molhado e a menina, embora tivesse sido batizada com um lindo nome, ficou conhecida como A Pequena de Querengué.

Com o tempo, ambos cresceram e, infelizmente, se tornaram inimigos mortais. Tudo começou por culpa do carteiro que, certo dia, achou o gatinho na rua e colocou o bichano no quintal da família Bernardes.

- Ai, que bonitinho – a Pequena de Querengué já tinha quatro anos quando conheceu o felino.

Pois não se passaram dois minutos sem que os dois saíssem machucados: o gato mais molhado que o nome – quase morrera afogado num balde – e a Pequena mais arranhada que CD de pagode – especialmente nos bracinhos.

- Bobo!

- Miau!

Palavrões como esses não foram nada. Molhado pulou o muro e voltou para seu quintal de onde, todas as tardes, ficava olhando para o quintal dos Bernardes, como se estivesse numa guerra.

A situação piorou quando A Pequena começou a jogar suas bonecas na cabeça do gatinho. Virou uma tragédia quando alguém da família Bem-Te-Vi devolveu as bonecas sem cabeça ou sem o vestido.

Quando A Pequena estava com doze anos, tacou fogo no gatinho que, depois de ter o pêlo recuperado, grudou na orelha da menina.

Tudo teve um fim quando A Pequena fez quinze anos. Molhado invadiu a festa de aniversário e pulou no bolo na mocinha. Depois desse fato, a família Bernardes decidiu se mudar para outro bairro.Até hoje, sempre que chove, Molhado fica miando no quintal pedindo que sua maior inimiga – que era, também, a pessoa que mais admirava no mundo – volte a ser sua vizinha.

Comentários