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Publicado: Sexta-feira, 13 de abril de 2007

A Luz de Cristo Que Se Propaga

A liturgia do Sábado Santo é das mais belas e significativas de todo o ano. É a grande vigília que os cristãos celebram desde os primeiros tempos da sua história, como ‘mãe de todas as vigílias’. Inicia-se em espessa escuridão, logo se abençoa o fogo novo do qual se retira uma centelha para acender o círio pascal, cuja chama flamejante começa irradiar brilho sobre os rostos das pessoas.
 
Daquela nova luz, se acendem as velas que cada um dos fiéis traz à mão e logo todo o templo está iluminado pelas chamas tênues e douradas. O precônio pascal, cantado à luz do círio, desperta nos coração dos que crêem a exultação da alegria, transformando a esperança em expectativa e a expectativa em revelação.
 
Num crescendo encantador, vai a liturgia progredindo à leitura da Palavra de Deus anunciada com vários textos bíblicos, narrando a criação, a libertação do Egito, as maravilhas da presença de Deus na história do povo hebreu e, ao iniciar as narrativas do Novo Testamento, se canta o antiqüíssimo hino Glória in excelsis Deo.
 
Então, todas as luzes se acendem, inundando o ambiente e o povo de exuberante luminosidade. Os sinos soam em festa. Ressurexit sicut dicit! Aleluia! O Senhor venceu a escuridão da morte! Está vivo! Não morre mais! Lumen Christi! Deo Gratias! A sagrada liturgia prossegue, canta-se o evangelho narrativo da ressurreição de Cristo, realizam-se batismos, todo o povo renova, fervoroso, as promessas de seu próprio batismo e segue-se a celebração soleníssima da Eucaristia em cores e cantos de festa.
 
Os fiéis, renovados pelos exercícios quaresmais, aproximam-se do altar florido e iluminado para receberem a Páscoa na cândida palma de sua mão. Cristo é nossa Páscoa! O Pão consagrado traz-lhes a força vencedora, o Corpo e Sangue do próprio Senhor Ressuscitado, invisível aos olhos, plenamente visível à fé, que lhe resulta em verdadeira passagem para uma vida nova sempre crescente em direção à pessach definitiva.
 
A luz da Páscoa é força de renovação. Maria Madalena que vivera sob as trevas do pecado e havia sido regenerada pela misericórdia do Mestre, agora vê, na aurora, a claridade de Cristo que volta à vida e dialoga com Ele: “Robbuni!” Então, recebe a graça fortificadora do envio missionário: “não me retenhas, vá antes aos meus discípulos para lhes dizer que vou subir para o meu Pai e vosso Pai” (cf. Jo 20,14-18).
 
A fragilidade dos Apóstolos, visível ao momento da crucifixão, quando fogem, abandonando o Mestre e não seguindo à Maria, sua Mãe fidelíssima, nem ao mais jovem discípulo João Evangelista e nem às santas mulheres, dá lugar a uma coragem quase incompreensível à mente humana. O mesmo Pedro que fraquejara diante de uma empregada do templo, negando ser amigo do Senhor, é capaz de ir desarmado e sem temor diante dos magistrados e governadores para proclamar o Querigma: “aquele que vós matastes numa cruz, Deus o ressuscitou dos mortos” (At 3,23ss).
 
Este mesmo Pedro, frágil, mas fortificado pela luz da ressurreição, é o escolhido pelo Mestre ressuscitado para um diálogo especialíssimo: “Simão, filho de João, amas-me?”- “Vós sabeis tudo, ó Senhor! Sabeis bem que eu vos amo!” - “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-17). Aquele discípulo experimentado na fragilidade vencida pela força regeneradora da ressurreição já havia acolhido anteriormente a predileção do seu bondoso Salvador: “Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam!” E ainda: “Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus; tudo o que ligares na terra será ligado no céu, tudo o que desligares na terra será desligado no céu” (Mt 16,18-19).
 
Sobre a pedra visível, manifestar-se-ia a solidez da pedra invisível, a pedra angular que jamais se afastaria de sua Igreja, o Cristo Senhor. Do visível para o invisível, os seguidores do Senhor são iluminados pela luz do ressuscitado e vão pelos caminhos controversos da história iluminando as consciências e fortificando os corações, cumprindo o seu dever de ampliar as fileiras da Igreja, anunciando que aquele que morreu na cruz ressuscitou, está vivo e não morre mais. Eis a missão da Igreja, eis a missão dos Apóstolos, discípulos e amigos do Mestre de Nazaré, Deus e homem verdadeiro, luz dos povos e salvação da humanidade.
 
Eis o que vem realizar o Sucessor de Pedro, Bento XVI, no Brasil dentro de poucos dias. Eis o que será o motivo principal da 5ª Conferência de Aparecida, na qual os bispos latinoamericanos e caribenhos se debruçarão sobre o empolgante tema: “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nossos povos, n’Ele, tenham vida. Jesus, caminho, verdade e vida”.
 
É a luz da Páscoa da Ressurreição que se vai propagando na história dos homens e das mulheres nos quatro cantos do mundo.
 
Basta creres e sairás da escuridão!
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