Publicado: Segunda-feira, 13 de janeiro de 2003
A gente tem fome: e tem fome de que???
"... UM PROFESSOR SÁBIO FALA COM A CRIANÇA DA MESMA MANEIRA COM QUE FALA COM AS VISITAS DA PRÓPRIA CASA. Se sua convidada, a Sra. Smith, esqueceu o guarda-chuva, ele não correrá atrás dela gritando: 'Cabeça-oca! Cada vez que você vêm à minha casa, você esquece algo. Se não é uma coisa é outra. Provavelmente você esqueceria a cabeça se ela não estivesse presa nos seus ombros. Quero viver para ver chegar o dia em que você se lembrará de ser responsável pelo que lhe pertence. Não sou seu escravo para andar atrás de você, recolhendo o que você esquece'. Seu comentário certamente seria: 'Sra. Smith, aqui está seu guarda-chuva'. Apesar disso, o mesmo professor sente-se compelido a criticar uma criança que esqueceu seus livros... seus óculos (...) NÃO É PAPEL DO ADULTO IMPOR ÀS CRIANÇAS SONHOS PEQUENOS E LIMITAÇÕES IMAGINÁRIAS."
(GINOTT, H. G. O Professor e a criança, 1973)
É... Vamos conversar um pouco então das velhas coisas: respeito, dignidade, humanidade, esperança... Nesse tempo brasileiro em que respiramos "a volta aos velhos sonhos" (assim li na imprensa...), sinto-me inspirada a refletir sobre as fomes que sonho extinguir nos mundos em que participo...
Enxergo a fome como denúncia da incompetência do que-ser da humanidade: ter fome... Incompetência toda nossa, afinal, "somos condenados à liberdade" (SARTRE) e, se assim, a nossa liberdade nos condena à responsabilidade diante da História... Passa em nossa cabeça, será, o abismo da vazia barriga pelo sentir a ausência d'um espaço carente de alimento? Não, não sei o que é isso.
Confesso, esse coração carente de notícias boas se rende a tal espírito esperançoso que considera o sonho de acabar com o que é trágico, inconcebível, medonho, vergonhoso, templo da desconsideração; todos nós, repito, nisso. Ainda que tudo possa ser criticado por todos os lados das imagens que recebemos... não consigo nem pensar em fazer isso antes de me comover com o pulo da esperança de uma gente que tem tantas fomes... Como se "nascessem" de novo, elas olham para as câmaras e sorriem (ainda!!!):
" - A gente existe... Estamos participando... Vamos receber ajuda... Também somos gente... As coisas vão mudar..."
Tantas fomes... Tantas...
Assisti a esperança. O povo está com uma baita esperança! E isso é gostoso de ser sentido, é mágico se ver a ousada alegria triunfando no que é vale de amargura; tudo isso deve ter a ver com a prioridade escolhida de se matar a fome de quem tem fome, oferecer o alimento que se tem, disponibilizar-se, ser solidário, praticar humanidade, ouvir e acatar, dialogar, tratar a todos como "vizinhos", agir no amor...
Tentando saber a causa do que assisto, só o consigo olhando para além do que enxergo... Há muita coisa que a gente só consegue alcançar mesmo transcendendo o olhar para o além da razão: daí a gente pode ensaiar entender alguma coisa. Com relação à esperança de tantas pessoas com fome biológica, acho que as coisas passam mais ou menos por aqui: driblando a fome nutritiva, estas sobreviventes a mim testemunham ocultamente um espetáculo baseado no enredo de que a alma humana não "morre de fome jamais" - há a esperança, há de não se perder a ternura jamais, mesmo que o alimento endureça ou que nem ele exista. Isto é um milagre, é algo inacreditável, que, todavia, aqui não é recuperado para exaltar o escândalo, mas sim denunciá-lo.
Estes tempos trazem-me a reflexão de que a chama de humanidade é alimentada quando as pessoas se sentem juntas, "no mesmo barco", podendo entrar nele, ainda que todos se afoguem... Irresponsabilidade? Amor... Vidas que se movem por um ideal e por ele se guiam! Que vão até as últimas conseqüências do "estar-junto-com", porque já sentiram as dores da fome...
Iniciei este texto com um trecho de meus livros de Psicologia de Magistério que, julguei, me permitiria desenhar a ponte que ligaria este Brasil que hoje prioriza o fim da fome às atividades docentes que quero tentar construir este ano - associo estes dois mundos crendo na comunhão selada pelo mesmo universo lingüístico que os sustenta: o que traz a responsabilidade toda para nossos quereres, vontades, PRIORIDADES, sonhos, valores. Se no que fazemos colocamos como prioridade as máximas de RESPEITO, DIGNIDADE, NECESSIDADE, FELICIDADE, MUDANÇA... falaremos sempre, apesar de espaços diferentes, de fomes parecidas: da de pessoas humanas famintas por consideração e participação neste (não tão pequeno assim) universo.
Sim, é verdade o que estamos, agora, pensando juntos: falar, escrever, é tão fácil... Fazer é coisa diferente... Porém, falar e escrever são verbos e, enquanto tais, na definição das crianças, "SÃO PALAVRAS QUE MOSTRAM COISAS QUE A GENTE FAZ..." Então, são atos também: falando, escrevendo, me comprometo, me "coloco com a promessa que faço", já não sou a mesma que era antes de escrever. No mais, fazer a fome acabar tem a ver com propósito sim, com a consideração dela, com atitude que não a omite mas que conversa com ela, que sente a dor do chão dela, que conhece seu olhar, que se irmana no sonho...
Restaria dizer, então, que educação é espaço de poder revolucionário. Estou enxergando isto nesta fase em que me encontro. Já passei por muitas imagens: escola como espaço de aprender a ler e escrever, escola como aparelho do estado para reproduzir o sistema, escola como espaço de transmissão e renovação cultural para a reformação do sistema... Mas, para mim, escola hoje é, antes de tudo, este tempo-espaço em que pessoas se encontram para tentarem ser mais felizes, conhecendo (-se), aprendendo a amar a arte, o saber e a si e ao mundo, enquanto seres...
É: a tarefa de uma professora, de um professor não é fácil... Ele lida com A FOME DE CRIANÇAS: com as mil e uma esperanças e curiosidades e desejos de cada uma, não podendo jamais desconsiderá-las OU saciá-las por completo também! Ele ensina a matar a fome (e isto gera felicidade!), mas ainda e além: ALIMENTA A FOME E ASSIM A FAZ CRESCER, CRESCER, CRESCER... E aqui está a Beleza! O professor: "alimentador de fome.".. E, quem alimenta, NÃO é quem dá o alimento, mas quem ensina a como conquistá-lo e quem consegue atingir, no ser faminto, um gosto tão fantástico pelo ato de conquista, que o faz ter cada vez mais fome, mais fome, mais fome... Nisto, a Mestre admirável que também quero ser, quando crescer...
Todos estes parágrafos tem uma reflexão que passa pelo crer no ser humano e pelo ter esse tal de OTIMISMO que a palavra política retomou finalmente em seu discurso; passa também pelo tratar o homem, a mulher, como VIZINHOS enxergando a condição de sua determinação como um estado histórico sim e sempre, mas jamais findando nisso o curso de todo um devir: há que se mudar não com nossos ódios, frustrações, medos, pessimismos, projeções, fatalismos e compensações, nem com nossas imposições dos menores sonhos e dos mais necessários "limites de imaginação":
"Ah... Diga-me teus sonhos e te direi o tamanho que és...
Diga-me as diferenças de sorriso com que tratas um faminto e um sem-fome e poderei me aproximar de seu coração...
Conte-me o tamanho dos sonhos que sonhas para teu país e ensaiarei uma análise de tua política de palavras...
Confessa os limites que põe para a imaginação dos que precisam de teu amparo espiritual e saberei tua religião...
 
(GINOTT, H. G. O Professor e a criança, 1973)
É... Vamos conversar um pouco então das velhas coisas: respeito, dignidade, humanidade, esperança... Nesse tempo brasileiro em que respiramos "a volta aos velhos sonhos" (assim li na imprensa...), sinto-me inspirada a refletir sobre as fomes que sonho extinguir nos mundos em que participo...
Enxergo a fome como denúncia da incompetência do que-ser da humanidade: ter fome... Incompetência toda nossa, afinal, "somos condenados à liberdade" (SARTRE) e, se assim, a nossa liberdade nos condena à responsabilidade diante da História... Passa em nossa cabeça, será, o abismo da vazia barriga pelo sentir a ausência d'um espaço carente de alimento? Não, não sei o que é isso.
Confesso, esse coração carente de notícias boas se rende a tal espírito esperançoso que considera o sonho de acabar com o que é trágico, inconcebível, medonho, vergonhoso, templo da desconsideração; todos nós, repito, nisso. Ainda que tudo possa ser criticado por todos os lados das imagens que recebemos... não consigo nem pensar em fazer isso antes de me comover com o pulo da esperança de uma gente que tem tantas fomes... Como se "nascessem" de novo, elas olham para as câmaras e sorriem (ainda!!!):
" - A gente existe... Estamos participando... Vamos receber ajuda... Também somos gente... As coisas vão mudar..."
Tantas fomes... Tantas...
Assisti a esperança. O povo está com uma baita esperança! E isso é gostoso de ser sentido, é mágico se ver a ousada alegria triunfando no que é vale de amargura; tudo isso deve ter a ver com a prioridade escolhida de se matar a fome de quem tem fome, oferecer o alimento que se tem, disponibilizar-se, ser solidário, praticar humanidade, ouvir e acatar, dialogar, tratar a todos como "vizinhos", agir no amor...
Tentando saber a causa do que assisto, só o consigo olhando para além do que enxergo... Há muita coisa que a gente só consegue alcançar mesmo transcendendo o olhar para o além da razão: daí a gente pode ensaiar entender alguma coisa. Com relação à esperança de tantas pessoas com fome biológica, acho que as coisas passam mais ou menos por aqui: driblando a fome nutritiva, estas sobreviventes a mim testemunham ocultamente um espetáculo baseado no enredo de que a alma humana não "morre de fome jamais" - há a esperança, há de não se perder a ternura jamais, mesmo que o alimento endureça ou que nem ele exista. Isto é um milagre, é algo inacreditável, que, todavia, aqui não é recuperado para exaltar o escândalo, mas sim denunciá-lo.
Estes tempos trazem-me a reflexão de que a chama de humanidade é alimentada quando as pessoas se sentem juntas, "no mesmo barco", podendo entrar nele, ainda que todos se afoguem... Irresponsabilidade? Amor... Vidas que se movem por um ideal e por ele se guiam! Que vão até as últimas conseqüências do "estar-junto-com", porque já sentiram as dores da fome...
Iniciei este texto com um trecho de meus livros de Psicologia de Magistério que, julguei, me permitiria desenhar a ponte que ligaria este Brasil que hoje prioriza o fim da fome às atividades docentes que quero tentar construir este ano - associo estes dois mundos crendo na comunhão selada pelo mesmo universo lingüístico que os sustenta: o que traz a responsabilidade toda para nossos quereres, vontades, PRIORIDADES, sonhos, valores. Se no que fazemos colocamos como prioridade as máximas de RESPEITO, DIGNIDADE, NECESSIDADE, FELICIDADE, MUDANÇA... falaremos sempre, apesar de espaços diferentes, de fomes parecidas: da de pessoas humanas famintas por consideração e participação neste (não tão pequeno assim) universo.
Sim, é verdade o que estamos, agora, pensando juntos: falar, escrever, é tão fácil... Fazer é coisa diferente... Porém, falar e escrever são verbos e, enquanto tais, na definição das crianças, "SÃO PALAVRAS QUE MOSTRAM COISAS QUE A GENTE FAZ..." Então, são atos também: falando, escrevendo, me comprometo, me "coloco com a promessa que faço", já não sou a mesma que era antes de escrever. No mais, fazer a fome acabar tem a ver com propósito sim, com a consideração dela, com atitude que não a omite mas que conversa com ela, que sente a dor do chão dela, que conhece seu olhar, que se irmana no sonho...
Restaria dizer, então, que educação é espaço de poder revolucionário. Estou enxergando isto nesta fase em que me encontro. Já passei por muitas imagens: escola como espaço de aprender a ler e escrever, escola como aparelho do estado para reproduzir o sistema, escola como espaço de transmissão e renovação cultural para a reformação do sistema... Mas, para mim, escola hoje é, antes de tudo, este tempo-espaço em que pessoas se encontram para tentarem ser mais felizes, conhecendo (-se), aprendendo a amar a arte, o saber e a si e ao mundo, enquanto seres...
É: a tarefa de uma professora, de um professor não é fácil... Ele lida com A FOME DE CRIANÇAS: com as mil e uma esperanças e curiosidades e desejos de cada uma, não podendo jamais desconsiderá-las OU saciá-las por completo também! Ele ensina a matar a fome (e isto gera felicidade!), mas ainda e além: ALIMENTA A FOME E ASSIM A FAZ CRESCER, CRESCER, CRESCER... E aqui está a Beleza! O professor: "alimentador de fome.".. E, quem alimenta, NÃO é quem dá o alimento, mas quem ensina a como conquistá-lo e quem consegue atingir, no ser faminto, um gosto tão fantástico pelo ato de conquista, que o faz ter cada vez mais fome, mais fome, mais fome... Nisto, a Mestre admirável que também quero ser, quando crescer...
Todos estes parágrafos tem uma reflexão que passa pelo crer no ser humano e pelo ter esse tal de OTIMISMO que a palavra política retomou finalmente em seu discurso; passa também pelo tratar o homem, a mulher, como VIZINHOS enxergando a condição de sua determinação como um estado histórico sim e sempre, mas jamais findando nisso o curso de todo um devir: há que se mudar não com nossos ódios, frustrações, medos, pessimismos, projeções, fatalismos e compensações, nem com nossas imposições dos menores sonhos e dos mais necessários "limites de imaginação":
"Ah... Diga-me teus sonhos e te direi o tamanho que és...
Diga-me as diferenças de sorriso com que tratas um faminto e um sem-fome e poderei me aproximar de seu coração...
Conte-me o tamanho dos sonhos que sonhas para teu país e ensaiarei uma análise de tua política de palavras...
Confessa os limites que põe para a imaginação dos que precisam de teu amparo espiritual e saberei tua religião...
 
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