A Desligada de Querengué
No começo de 2004 chegou em Querengué uma estudante que está na lista das pessoas mais excêntricas da história da cidade (Itu deveria ter uma lista assim, mas isso já é outra conversa). Todos que a conheceram acabaram por compará-la à peixinha Dory, aquela que ficava cantando “continue a nadar, continue a nadar, na-dar, na-dar...” enquanto procurava Nemo). A Desligada de Querengué, como hoje é conhecida na boca dos moradores, sofria de amnésia instantânea e isso a levou a viver as mais embaraçosas situações.
Para você ter uma idéia, certo dia ela estava na sala de aula (cursava jornalismo pela segunda vez, esquecera que já era formada), copiava a matéria numa folha sulfite (esquecera o caderno em casa). Sem muitas explicações, ela colocou a caneta na carteira e virou-se para a classe e perguntou:
- Alguém tem uma caneta para emprestar?
Ela usava uma camiseta com a frase estampada: “Quem não viver se esquecendo, esquece de viver”. Confusa a frase, eu sei, mas ela tinha ouvido uma parecida, mas esqueceu como era.
Conta a lenda na cidade que um dia em especial, o “mal de Dory” ficou mais visível na vida da Juliana, a Desligada de Querengué.
Contam que ela acordou às nove porque esquecera de programar o celular; saiu de casa sem a carteira, usando apenas um pé de meia e com a camiseta no avesso; ficou parada na esquina se perguntando onde é que tinha de ir.
- Pro trabalho, claro!
Então Juliana entrou em seu carro e correu pelas estradas de Querengué (essa história é do tempo em que o asfalto ainda não havia chegado na cidade). O policial acenou para ela.
- Seu guarda, acho que esqueci a carteira na cômoda!
Parou numa lanchonete:
- Você marca para mim? Esqueci minha carteira!
Foi barrada no jornal:
- Me deixe entrar, eu trabalho nesse jornal! É que esqueci meu crachá em casa.
Ela ouviu três colegas de redação dizerem a mesma coisa:
- Você viu que sua camiseta está...
- Eu já sei, no avesso. Obrigado.
Na hora do almoço seu pai ligou:
- Você pegou o seu sobrinho na escola?
- Ai, esqueci.
- Pois é, a professora dele está aqui. É a terceira vez nessa semana, você sabe disso.
Quando chegou na faculdade, lembraram-na que era dia de prova, que ela ficara responsável por imprimir um trabalho do grupo e o reitor queria conversar com ela.
- Estou lançando uma revista sobre saúde e um professor me indicou você para produzir uma reportagem sobre amnésia... topa?
Ela arrancou seu bloquinho do bolso e disse:
- Claro, só deixa eu marcar senão eu esqueço.
Juliana, isso não precisa nem dizer a gente já sabe.
Hoje ela não mora em Querengué. Um dia, voltando para casa, errou o caminho, pegou raiva de Querengué e se mudou para outra cidade, mais perto da capital. Por isso aqui vai um alerta: cuidado, a Desligada pode estar mais perto do que você imagina.