Publicado: Sábado, 30 de dezembro de 2006
Calendário com fotos de Alice Brill está à venda
O calendário é comemorativo aos 86 anos da artista.
Lilian Sartório
O tema decorre do sucesso de algumas obras nunca antes expostas para o público, resultantes das seções de modelo vivo, das quais participa desde os anos 1930. São principalmente desenhos e aquarelas, mas também batiks sobre papel e trabalhos com caneta, que ela nunca deixou de produzir desde que, ainda muito jovem, teve sua primeira oportunidade de frequentar as noites de modelo vivo do hoje consagrado Grupo Santa Helena (ela era considerada a mascote do Grupo), com artistas como Aldo Bonadei, Francisco Rebollo Gonsales e Fulvio Pennachi.
Além do Grupo Santa Helana, na década seguinte, ela dividiu as despesas com outros artistas mais tarde consagrados, como Odetto Guersoni, Eva Liebliech (mais tarde Eva Lieblich Fernandes), Hilde Weber, entre outros, para ter modelos à disposição algumas horas por semana, num belo atelier alugado por Mario Zanini, no centro paulistano. Mais recentemente, nos anos 1980-90, passou a frequentar as sessões organizadas por Isabel Wanda di Rizzo (a quem o calendário também presta homenagem), em sua casa em Higienópolis, junto com Anatol Wladislaw, Ligia de Franceschi, Jaques Douchez, e tantos outros pintores, iniciantes ou mais experientes.
A iniciativa é novamente da filha de Alice, Silvia Czapski, que já produziu um calendário com obras pintadas em diferentes locais do Brasil e do mundo, em 2005. Mas, desta vez, a seleção das obras foi do artista plástico, critico de arte e professor Percival Tirapeli. Produzido em papel reciclado, com capa acrílica no formato de CD, ele conta novamente com a criação gráfica de Dian Storch. “Quando escolhi este tema, nem lembrei da personagem da novela Páginas da Vida, artista plástica que também faz nus artísticos. De fato, trata-se de uma prática que muitos bons artistas não abandonam.” Para cada calendário vendido, R$ 1 será destinado à AIPA.
Projeto de catalogação da obra e ineditismo
Em quase sete décadas de trabalho em artes plásticas, Alice Brill realizou milhares de obras, em diferentes técnicas, espalhadas pelo Brasil e o mundo, com colecionadores, em museus e com admiradores da artista. Algumas, de cada fase, ela conserva em seu ateliê. A localizaçao das obras, e organização de um catálogo acessível ao público é um sonho dela e um objetivo da família, que já conseguiu a aprovação de um projeto cultural neste sentido, com aprovação da Lei Rouanet. “Agora, o sonho é encontrar uma ou mais empresas que apoiem a proposta, de custo relativamente baixo, e com a vantagem de permitir a deducação total do Imposto de Renda, relata Silvia. Além de localizar, fotografar e classificar a obra, o projeto prevê a produçao de um site, com ampla divulgaçao e ações educacionais.
Saiba mais sobre Alice Brill
Filha do artista plástico alemão Erich Brill, morto prematuramente em campo de concentração na 2.ª Guerra Mundial, e da jornalista Marte Brill, autora do livro “Schmelzigel”, sobre a saga que a trouxe ao Brasil - tardiamente publicado na Alemanha em 2002 - Alice Brill migrou para nosso país em 1934 com sua mãe, aos 13 anos, para escapar do nazismo.
Decidida a abraçar o ofício paterno, já em 1937 passou a freqüentar o Grupo Santa Helena. Em seguida, com bolsa de estudos, cursou desenho, pintura, escultura, fotografia, história da arte, literatura, filosofia e gravura nos EUA. Entre seus mestres no Brasil, estão Paulo Rossi Ozir e Aldo Bonadei, do Santa Helena, Yolanda Mohaly, Poty e Hansen Bahia. Da longa carreira em artes plásticas, constam mais de cem exposições individuais e coletivas (como a I Bienal de São Paulo, em 1949), no Brasil e Exterior. E mais de 10 importantes prêmios.
Ao lado disso, por pouco mais de dez anos (anos 1950 e início dos anos 1960), Alice atuou como fotógrafa, executando portfólios de artistas, reportagens, fotos de crianças. Hoje, o Instituto Moreira Salles seu acervo de 14 mil negativos está com o Instituto Moreira Salles, que já produziu duas importantes exposições com este material. Ao voltar a trabalhar exclusivamente com artes plásticas, ao lado do desenho, gravura, pintura, a artista desenvolveu uma nova forma de fazer batik, arte milenar javanesa para pintar tecidos com o uso de cera, que ganhou inclusive novos suportes, como o papel de arroz.
Alice Brill também foi fundadora do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), do Clube dos Artistas e Amigos da Arte de São Paulo, da Associação Brasileira de Pesquisadores em Arte. Formada em Filosofia Pura pela PUC/SP em 1975, fez mestrado e doutorado em Estética na USP. Publicou três livros: “Mário Zanini e seu Tempo” baseado no mestrado (Ed. Perspectiva, 1984), “Da Arte e da Linguagem” (Ed. Perspectiva, 1988), e “Flexor” (1990), além do capítulo sobre Artes Plásticas em “O Expressionismo” (org. Jacó Guinsburg, Ed. Perspectiva, 2002). A tese de doutorado “Viagens Imaginárias - transformação de uma técnica milenar em linguagem contemporânea”, sobre o batik, permanece inédita.
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