Deborah Dubner: O que você quer que eu faça?

Publicado: Quarta-feira, 8 de setembro de 2010 por Deborah Dubner

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Cuidado: descaso a vista!

Arquivo Pessoal
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"Reformar ruas é fácil. O difícil é reformar atitudes!"

Itu não rima com obras, mas obras rimam com manobras. E o que eu mais tenho feito nessa cidade são retornos, rés, voltas e curvas. Nem vou entrar nessa questão das obras. Afinal, estamos em ano de eleição, e isso o brasileiro já aprendeu (ou se conformou) que é assim mesmo.

O meu ponto é outro. Quero falar sobre atendimento ao cidadão. Sobre como as pessoas que estão trabalhando nessas reformas em praticamente todas as ruas próximas às principais escolas estão “cuidando” dessa questão. Sobre o que é cidadania e dignidade.

Dias atrás, eu estava dirigindo na Rua Santa Rita, quando percebi no meio do caminho que não poderia ter entrado naquele trecho, pois estavam asfaltando. Por que eu entrei? Será que saí do meu carro, tirei o cone, e segui em frente? Não! A questão é que os cones estavam interditando apenas uma metade da rua, o que me fez concluir erroneamente que na metade aberta, eu poderia passar. Ao me dar conta no meio do caminho, abri a janela e fui perguntar o que fazer. Fui surpreendida com uma bronca de um dos trabalhadores, gritando comigo porque eu não podia ter entrado e que se “um guarda estiver aqui vai passar a caneta”. E eu, irritada, respondi: “Vai passar a caneta então pra vocês, que deixaram a rua meio aberta!” Ao sair, vi que o tal moço rapidamente colocou os cones fechando a rua, para que nenhum desavisado como eu cometesse o mesmo erro. Ok, foi uma má experiência, mas acontece de vez em quando, paciência.

O problema foi o dia seguinte. Mesma rua, outro horário, levando meu filho para a escola. Estávamos bem adiantados. Vi que o trecho estava interditado e, aprendendo com o dia anterior, dei a volta. Mas surpresa! O trecho que desce (após o desvio) também estava interditado. Confesso que não sou nada boa com caminhos, mas meu filho, que é bem melhor, também não viu um jeito de chegar à escola. Dei a volta novamente e retornei ao lugar interditado para perguntar ao guarda como fazer. Encostei o carro, abri a janela e disse: “Eu preciso chegar à escola e não estou conseguindo”. E o guarda, que eu imaginei que deveria estar ali pra atender o cidadão, me respondeu: “E o que a senhora quer que eu faça?” Paralisada com o inacreditável da pergunta, consegui retomar o fôlego e respondi: “Eu quero que você me oriente. Afinal, não é pra isso que você está aqui? Ao mesmo tempo em que falava isso, notei o caderninho de multa em suas mãos, e lembrei da “história da caneta” alertada pelo trabalhador no dia anterior. ah, entendi...

Pelo tom da minha voz, o guarda percebeu que eu estava realmente brava. Então, se dignou a me responder o que eu tinha a obrigação de saber. Contornar, virar, pegar a avenida nova que leva ao Itu Novo Centro (que eu deveria conhecer) e seguir até o fim para encontrar a escola pelo outro lado. O fato de não ter nenhuma placa orientando, da avenida ser nova e de só conseguir chegar até a esquina da rua da escola (porque é contra mão) não tem a menor importância. Eu deveria saber de tudo isso. Reformar ruas é fácil. O difícil é reformar atitudes!

Algumas horas depois, respiro, espero a adrenalina baixar, e reflito. Tenho o hábito de escrever quando fico brava. O que me resta?

Penso que a gente se acostuma com tudo nessa vida. Aceitamos que a cidade esteja toda em obras bem no início das aulas. Aceitamos que cada dia o caminho para chegar às escolas seja diferente. Aceitamos pegar os filhos na esquina, entrar na contramão porque não tem outro jeito e demorar 10 minutos a mais todos os dias. Vamos aceitando. E sem perceber, ensinamos nossos filhos a aceitar também, já que eles presenciam essas cenas do nosso cotidiano.

Mas tem coisas que não dá pra aceitar. Aí eu escrevo. Escrevo como um grito de urgência para salvar a cidadania que não deve morrer em cada um de nós. Penso onde está o senso de dever do guarda que troca a orientação por uma caneta vermelha no caderninho. Procuro o acolhimento no lugar da bronca. Desejo que nossa cidade, e todas as cidades, sejam povoadas por pessoas que buscam em suas atividades – sejam elas quais forem – uma forma de tornar o mundo mais humanizado. Afinal, somos parte de uma grande rede e o que fazemos aos outros se voltarão a nós, mais cedo ou mais tarde.

Nós, cidadãos do mundo, não somos importante apenas por causa do nosso voto ou porque temos certa influência nisso ou naquilo. Somos importantes porque respiramos o mesmo ar. Porque sentimos raiva, amor, alegria, tristeza e medo, igualmente. Porque merecemos ser tratados com dignidade, não importa o cargo, a raça, a idade ou o tamanho do bolso. Merecemos apenas, pelo simples fato de estarmos vivos. Se tratamos as pessoas com indiferença, desinteresse ou descaso, estamos plantando essas sementes destruidoras de dignidade. E eu não quero assistir isso calada!

Quando alguém novamente me perguntar: “O que você quer que eu faça?” eu vou simplesmente responder: eu quero que você faça sempre o seu melhor. E isso já valerá por toda uma vida.

Tags: atitude, opinião, comportamento, obras