Opinião

Publicado: Terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ação política e prática espiritual no contexto atual

Por Olga Sodré.

Crédito: Gisele Scaravelli Ação política e prática espiritual no contexto atual
"A atual letargia e a insensibilidade dominante a respeito do sofrimento humano ao nosso redor aumentam a crescente dicotomia entre a vida espiritual e a vida social."

Apesar de ter participado da luta política, no Brasil e na França, não tinha ainda assistido até os meus quase oitenta anos de idade nada parecido com o que observo atualmente em nosso país e no mundo todo. Embora tenhamos avançado rapidamente, no plano tecnológico e científico, pode-se verificar um empobrecimento da dimensão humanista e da busca por uma convivência mais fraterna, pacífica e igualitária. O sofrimento da população brasileira mais pobre e desprotegida clama aos nossos ouvidos e corações! Está ocorrendo um alastramento da violência, da desigualdade social, do ódio, da corrupção, da mentira ou das falsas notícias, dos conflitos entre países e até entre familiares, com uma consequente perda do respeito pela vida e do amor ao próximo.

O acirramento dessa situação começa, entretanto, a gerar uma reação contrária e positiva de alerta, tanto no plano das instituições como das pessoas, em particular entre os mais jovens que despertam politicamente e protestam aos milhares em defesa da vida em nosso planeta. Mesmo estando doente e idosa, quero dar as mãos a essas pessoas e manifestar a minha solidariedade com esse movimento ainda embrionário que sonha e luta por um mundo melhor. Saúdo com alegria os primeiros vestígios dessa nova primavera que desponta.

Tinha encerrado minhas atividades científicas e acadêmicas para me dedicar mais à espiritualidade e à publicação de romances de cunho espiritual nos quais procuro retratar a dimensão social, humana e espiritual. Contudo, face às ameaças de demolição da ciência, da educação, da saúde, do meio ambiente e da vida de tantos jovens e crianças em nosso país, não posso ficar calada e indiferente. Como forma inicial de colaborar com os que se opõem à atual situação de extrema injustiça social e de destruição do que já tínhamos construído socialmente, lançarei em breve dois livros que contam a história da geração intelectual que me precedeu e do projeto que tinham de um outro tipo de desenvolvimento para nosso país: “Desenvolvimento Brasileiro e Luta pela Cultura Nacional” e “Odisseia de um General do Povo e de sua Geração Intelectual”.

Agora, terminado esse trabalho, quero dar um passo adiante e refletir sobre o que tenho observado em nosso cenário político e social à luz da experiência espiritual. No que a espiritualidade poderia contribuir para mudar a tragédia social que se desenrola diariamente diante dos nossos olhos? Muitos acham que Deus não existe e que a prática espiritual não tem relação com a vida social e política. É natural que as pessoas materialistas pensem dessa forma, pois seu olhar está voltado para a percepção do mundo externo e material. Assim sendo, elas desconhecem o acesso que seus sentidos internos podem dar ao mundo espiritual e não tem uma visão espiritual sobre o mundo em que vivemos.

O silêncio e a indiferença de muitas pessoas religiosas diante dos problemas sociais e o fato delas viverem sua religião apenas externamente também muito contribuem para a conclusão de que Deus não existe e de que a prática espiritual não tem relação com a vida social e política. Mesmo frequentando igrejas e se dizendo cristãs, essas pessoas parecem cegas e mudas diante da injustiça social e do sofrimento do povo, o que pode levar a crer que de nada adianta a espiritualidade para transformar nossa vida social. A atual letargia e a insensibilidade dominante a respeito do sofrimento humano ao nosso redor aumentam a crescente dicotomia entre a vida espiritual e a vida social. Como Deus e o mundo espiritual não podem ser vistos e captados pelos nossos sentidos externos, argumenta-se que se trata de uma fantasia ou de uma ilusão que serviria apenas como ópio para o povo.

Frequentemente se imagina, portanto, que as pessoas que mergulham na vida espiritual, em particular os monges, vivem alheios com o que se passa no mundo e que o diálogo com Deus não inclui os acontecimentos sociais e políticos. Todavia, nos tempos antigos, os profetas mantinham um diálogo com Deus e, ao mesmo tempo, se comunicavam com o povo e clamavam por mais justiça social. O mesmo aconteceu com monges, como por exemplo com S. Antão, o pai do monaquismo cristão. Embora vivendo recolhido no deserto para se dedicar à vida contemplativa, ele prontamente saiu de sua reclusão e retornou à sua cidade para lutar ao lado do bispo S. Atanásio contra as ameaças sociais de sua época.

Seguindo a trilha desses mestres espirituais dedicados ao diálogo com Deus e ao serviço do povo, consegui romper com a dicotomia entre o espiritual e o social, ter acesso ao mundo espiritual e chegar a uma visão integrada do universo e da relação interior que une as pessoas. Percebi, então que a visão da separação entre os seres é uma construção da consciência voltada para fora. Existem diferentes formas de espiritualidade, e muitas delas podem nos levar à uma experiência profunda e direta de Deus pela simples prática do amor fraterno. Essas diferentes formas correspondem a dons diversos, de modo que não cabe valorizar mais um tipo de espiritualidade do que o outro. A vivência do diálogo com Deus e do amor fraterno, é, todavia, fundamental em todas elas para que a espiritualidade não seja vazia e superficial.

O desabrochar da minha espiritualidade se deu no campo da psicologia e me levou a uma nova perspectiva da vida social e política, porém esse não é o único caminho de acesso a Deus e ao mundo espiritual. No meu caso, o aprofundamento da espiritualidade enriqueceu minha prática da psicologia e me possibilitou ter maior compreensão da relação entre a dimensão psicológica, social e espiritual do ser humano. Embora levando sempre em consideração a dimensão social de cada pessoa, meu enfoque em psicologia deixou de se restringir unicamente à observação externa dos fatos ou às narrações apresentadas por cada pessoa. Passei a estar também atenta à linguagem corporal, aos indícios de uma linguagem ainda não expressa verbalmente, à dinâmica dos sentimentos e impulsos humanos e à dimensão espiritual da psique.

O conjunto desses diferentes aspectos me indicaram um caminho a seguir para desvendar novos rumos e descortinar novas possibilidades humanas, que teriam permanecido ocultas à simples descrição objetiva dos fatos e da expressão das palavras em determinado momento. Meu método de análise, integra, por conseguinte, a dimensão psicológica, espiritual e social, com base num diálogo permanente com Deus e numa observação constante da dinâmica da vida que é simultaneamente social e espiritual. A questão primordial que me coloco cada dia é a de saber o que a Palavra de Deus tem a me dizer a respeito do que está acontecendo e sobre os passos que tenho a dar para estar sintonizada com essa Palavra em minha ação no mundo. E cada um de nós pode fazer o mesmo de modo a se libertar de sua estreita visão individual e da cegueira de seus sentimentos e impulsos obscuros a fim de ter uma perspectiva mais ampla e luminosa sobre a dinâmica do mundo e sobre o desenrolar dos acontecimentos. Basta para isso abrir o seu coração para Deus e para os demais seres humanos com os quais compartilhamos esse mundo.


Olga Sodré é filha do miliar, historiador e escritor Nelson Werneck Sodré. Doutora em Filosofia e em Psicologia Clínica, com pós-doutorado pelo Instituto Católico de Paris e pelo Instituto de Medicina Social – Uerj. Trabalhou como psicóloga clínica e social em diversas instituições brasileiras e estrangeiras de ensino e pesquisa, tendo integrado por muitos anos o GT Psicologia e Religião da Anpepp. Publicou textos em diferentes revistas de psicologia, filosofia e teologia. Criadora do “Centro de Estudos Brasileiros – Nelson Werneck Sodré”. Hoje tem se dedicado a uma vida fora dos meios acadêmicos, focada na espiritualidade e na escrita de seus romances.

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