Opinião

Publicado: Quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A polêmica dos gêneros e o desempenho no esporte

Por Cristiano Parente.

A polêmica dos gêneros e o desempenho no esporte
"A simples categorização em masculino e feminino é falha"

Ao final de 2017, a Superliga feminina de vôlei passou por uma situação inédita. Foi quando Tiffany entrou em quadra com o Bauru em partida contra a equipe do São Caetano, marcando, pela primeira vez, a presença de uma jogadora transgênero na competição. A situação trouxe à tona muitos debates e, acima de tudo, a necessidade de se aprofundar o assunto que ainda é timidamente tratado no meio.

A questão maior que envolve o tema não é a inclusão, absolutamente obrigatória e assegurada para toda e qualquer pessoa que deseje seguir a profissão de atleta, mas de que forma essa inclusão deva acontecer.

A polêmica levantada com a jogadora Tiffany nos mostra que, em modalidades esportivas disputadas por mulheres, a questão surge de maneira bastante séria e importante.

Quando pensamos no esporte que, em sua essência, é eminentemente competitivo, é possível entender e imaginar uma série de fatores que estariam ligados à geração de condições de igualdade competitiva, visando à justiça do jogo. E é, justamente, neste ponto, que se concentra a discussão.

Nesse sentido, é de fundamental importância elencar alguns fatores. O primeiro deles é o que determina qual o limite de vantagem genética que determinado ser humano pode ter em relação a outro para que estejam na mesma categoria ou competição?

Essa questão é extremamente ampla. O ex-nadador norte-americano Michael Phelps, por exemplo, poderia ser considerado teoricamente em vantagem genética no esporte que o consagrou por ser mais alto, ter mãos maiores e tornozelos mais flexíveis.

Ainda sobre diferenças genéticas, vale lembrar que, nas competições paralímpicas, pessoas com acometimentos absolutamente diferentes são colocadas em condições de disputa através de tabelas classificatórias de limitações, com um alto grau de subjetividade. E sobre esse ponto, traz-se mais uma provocação: o uso de próteses, repositores ou inibidores hormonais, acessórios, etc, também não significa vantagens individuais?

Soma-se ao cenário de subjetividade itens como alimentação diferenciada, condições de treino, dedicação exclusiva ao esporte, entre outras peculiaridades que viram diferenciadores e fazem do esporte um balaio onde as melhores condições financeiras claramente levam vantagens – embora isso não se discuta.

Tudo isso nos faz observar que, aparentemente, não há igualdade de competitividade em nenhum momento dentro do esporte, independentemente de gênero. Há tantas variáveis envolvidas no ser humano que a categorização da competição esportiva em masculino e feminino não basta para o alcance da justiça plena no esporte.

De que forma, então, conseguiríamos alcançá-la? Talvez, com a categorização por desempenho? Mas, nesse sentido, entraria na análise, por exemplo, a questão do uso de medicamentos e hormônios ou inibidores hormonais por pessoas em fases anteriores à sua entrada como atleta? Isso não geraria diferenciais de performance? Mais além, com imensuráveis características genéticas do ser humano, há como se chegar a uma plena justiça e equilíbrio competitivo?

Enquanto não se chega a uma resposta definitiva à questão, alguns princípios não devem ser questionados:

- a inclusão total das pessoas ao esporte e o respeito têm que ser obrigatórios, e vão muito além das questões de gênero;

- a simples categorização em masculino e feminino é falha;

- existe uma necessidade urgente de se abrir os olhos e ampliar a visão sobre vantagens e desvantagens genéticas no esporte;

- possivelmente, a categorização por desempenho recorrente medido, independentemente de todo o resto, seja uma das alternativas mais justas e que precisa ter a viabilidade logística estudada e planejada para acontecer, principalmente, nas modalidades individuais, onde o papel das capacidades físicas tenha interferência na possibilidade de resultados. Já nas modalidades coletivas, outras medidas, ainda não claras, também precisam ser consideradas para que haja a inclusão obrigatória de todos no esporte de maneira justa.


Cristiano Parente é professor e coach de educação física, eleito em 2014 o melhor personal trainer do mundo em concurso internacional promovido pela Life Fitness. É CEO da Koatch Academia e do World Top Trainers Certification, primeira certificação mundial para a atividade de educador físico.

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