Opinião

Publicado: Quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Raphael Medeiros elogia os heróis anônimos de Itu

Crédito: Arquivo Pessoal Raphael Medeiros elogia os heróis anônimos de Itu
Raphael Medeiros é ilustrador e designer
Uma pequena sala de cinema, de poltronas azuis. De repente as luzes se findam, a sala se faz enorme e o sonho começa.
 
Na última semana de outubro, o Cine Clube de Itu Osvaldo de Oliveira abriu suas portas e apagou suas luzes mais uma vez para celebrar o Dia Internacional da Animação. Dezenas de fabulosos curtas metragens foram exibidos, contemplando a animação tanto nacional quanto internacional, tanto do gênero infantil quanto do adulto. A pequena sala de poltronas azuis, agora maior do que nunca, estava apinhada de gente.
 
Sentei-me em uma daquelas poltronas, como já havia feito tantas vezes, para apreciar a sessão. Foi então que comecei a entender melhor aqueles estranhos indivíduos que ficam ali, antes do cinema começar. Percebi que havia um livreto em minhas mãos (além de um folder e um cartão) que me foram entregues por um desses seres no hall de entrada e havia também mais um deles dentro da sala de cinema, que falou um pouco do que nós iríamos assistir antes da sessão começar.
 
À luz do dia, esses estranhos indivíduos parecem pessoas comuns, em seus trabalhos, nas bancas de jornal, na fila do mercado. Mas ao cair da noite, uma metamorfose acontece. À espreita, preparam tudo, pouco a pouco, para que nós espectadores possamos apreciar o sonho naquela pequena grande sala de poltronas azuis.
 
Como verdadeiros heróis, fazem de tudo para o espetáculo começar e não ficam ali para apreciarem o resultado de seus trabalhos, não! Fico espantado ao ver que a satisfação destes seres se dá quando as luzes do cinema se apagam, os olhos dos visitantes se iluminam e um sorriso escapa de suas bocas. Estes seres mal percebem isso e já voam para a sala de projeção para verificarem se o som está em ordem, ou trocarem a projeção a ser exibida, ou ainda correm para o hall de entrada, para recepcionarem mais um visitante. Parece-me que são tímidos, não falam ou escrevem em lugar algum, mas conseguem passar os seus ideais na totalidades de seus atos.
 
São anônimos, cumprem a missão de levar cultura e conhecimento para todos nós, de operar aquela máquina de sonhos que é o cinema. Uma vez feito isso, retiram seus uniformes, suas capas e retornam para seus trabalhos ou para suas casas e nunca sabemos ao certo quem são ou onde possam estar.
 
Como grande admirador que sou desses heróis (sim, eles já salvaram o universo e minhas noites de sábado mais de uma vez), não vou revelar suas identidades secretas, mas você poderá vislumbrá-los indo ao Cine Clube de Itu Osvaldo de Oliveira, que fica na avenida Prudente de Morais, 210, na Vila Nova (ao lado do Pão de Açúcar) sempre que houver uma sessão. Tenho certeza que, entre um vôo e outro da sala de cinema à sala de projeção, eles o recepcionarão, serão muito educados e contarão tudo sobre o Cine Clube e, só depois de certificarem que você está bem, irão até o próximo problema a ser resolvido (o som que falhou, a projeção que não começou etc.) resolvendo no último segundo, antes da bomba explodir, salvando o planeta, mantendo a pequena grande sala de poltronas azuis em ordem e o sonho vivo.
 
Raphael Mathias Medeiros, 21 anos, é ilustrador e designer, estagiário da Flecha Brasil Agência de Propaganda e Marketing e Vice-Presidente da Biblioteca Comunitária Prof. Waldir de Souza Lima.
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