ECA completa 20 anos com nota azul na teoria e vermelha na prática

Publicado: Quarta-feira, 25 de agosto de 2010 por Leandro Sarubo

Lei deve sofrer alteração para proibir os castigos físicos.

Divulgação
Foto
Na década de 90 uma das estratégias para divulgação do Estatuto era uma revista em quadrinhos com a Turma da Mônica apresentando os principais pontos dop Código. A proposta foi retomada em 2007.

por Leandro Sarubo

Sancionada no dia 13 de julho de 1990, a lei 8.069, que concebeu o Estatuto da Criança e do Adolescente, completou seu vigésimo aniversário sem ter muito que comemorar.

O documento continua abrangente, classificado como um dos mais avançados do mundo, mas dentro do campo teórico somente. É consenso entre os especialistas que, além de uma ou outra adaptação, como, por exemplo, a respeito da inclusão digital como direito das crianças e adolescentes, o grande problema da lei, como tantas outras vigentes no Brasil, está no campo prático: boa parte das normas ainda não é aplicada. Ou passa perto de ser.

O ECA foi criado durante a década de 80, no início da redemocratização brasileira. As crianças e adolescentes, antes deste novo marco, tinham o amparo do Código de Menores, de 1979, e da Política Nacional de Bem Estar do Menor, lançada em 1964.

As intenções da sociedade na época estavam centradas no lançamento de uma lei que defendesse os direitos humanos dos menores e livrasse o Brasil das regras anteriores, todas criadas durante a ditadura militar.

O ponto primordial do ECA é imprimir na realidade social dos menores os direitos à saúde, à educação, ao lazer, à cultura, ao convívio familiar e comunitário. O entendimento seria que estes fatores garantiriam maior igualdade na sociedade.

Para tanto, na criação do projeto houve a formulação de três órgãos que viessem a fiscalizar o andamento da ideia: Os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente (Comunidade), os Conselhos Tutelares (Estado) e os Fundos de Infância e Adolescência (Família). Com a soma de tudo isto, os menores deixam de ser reconhecidas como sujeitos de necessidades para serem vistos como sujeitos de direitos.

A psicóloga Viviane Melo de Mendonça, Doutora em Educação e coordenadora do curso de Pedagogia da UFSCar atribuiu a dificuldade da aplicabilidade do ECA ao desconhecimento da sociedade, o que ela afirma estar gradativamente mudando. “Ele apenas pode ser aplicado, e se tornar viável, quando de fato a Sociedade civil, o Estado e a Família, de modo articulado e igualmente mobilizados, garantam os direitos das crianças e dos adolescentes.”

2010 tem ajudado a familiarizar o Estatuto junto às pessoas graças ao lançamento de duas discussões que envolvem diretamente os menores de idade. O primeiro envolve um modelo de educação adotado por muitos pais no país: a punição através da “palmadinha”.

Lula assinou no dia 14 de julho uma sugestão que encaminha ao Congreso Nacional um projeto de lei que voltou a colocar o Estado como intruso em questões individuais. Caso aprovada, a canetada somará ao artigo “17 A” o direito dos menores serem educados sem castigos físicos ou posturas degradantes, isto é, atitudes que ridicularizem as crianças. Os pais infratores teriam punições educativas.

O outro ponto lançado foi a mobilização, sobretudo a partir da ANVISA, contra a publicidade de determinados produtos que focam o público infantil. No dia 29 de julho, a agência publicou uma resolução regulamentando a propaganda de alimentos que, na visão dela, não atendem aos padrões da boa saúde. O Conar, conselho publicitário que cuida da regulação da área, se defende afirmando que a Constituição não pode ser alterada pela Agência, que conta com apoio de diversas ONGs.

Diferentemente do que se imagina, o ECA trata desta discussão, apesar de não ter recebido algumas atualizações que seriam importantes para contextualizar o documento. Conforme lembra a Profa. Viviane Mendonça, a posição do Estatuto fica evidente nos artigos 17 e 18, em que se configura o "direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente,abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais” e o “dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor". No entanto, falta a interpretação destes artigos como ferramentas para a realização de um debate sobre o assunto.

“Com base no próprio ECA, a sociedade civil, o Estado e a Família devem realizar controle da publicidade infantil e realizar um debate amplo desta questão. É a partir deste debate que mudanças da Lei podem acontecer, e se for o caso, trazer nestas mudanças as especificidades da publicidade infantil. É evidente a urgência deste debate, tendo em vista que a publicidade infantil tem, em muitos casos, contribuído para a obesidade infantil, a erotização precoce, danos psicológicos para auto-estima baseado no ter ou não ter determinado produto e, conseqüentemente, estresse familiar e até mesmo, a violência”, afirma a especialista.

Atualmente, a Câmara discute um projeto de lei que interferirá diretamente em parte desta discussão, promovendo a proibição de publicidade nas escolas de Educação Básica. Mas não passa disto.

Leia Também: Leis do ECA são cumpridas só pela metade no Brasil

Tags: lei, criança, adolescente, estatuto da criança e do adolescente, eca, 20 anos do eca

  • Comentários

Copyright 2026 Itu.com.br. Todos os direitos reservados.