Gravidez: quando a responsabilidade bate à porta

Publicado: Quinta-feira, 7 de agosto de 2008 por Camila Bertolazzi

Em Itu, 22,9% dos bebês são de mães com menos de 20 anos.

Camila Bertolazzi / www.itu.com.br
Para a Dra. Marta, a gravidez na adolescência está ligada à falta de estrutura familiar
Por Camila Bertolazzi


"Nunca pensei que isso fosse acontecer comigo, embora soubesse do risco que corria ao não me prevenir todas as vezes que mantinha relação". Este tipo de frase é corriqueira entre adolescentes, ao se surpreenderem com a descoberta de uma gravidez. E revela uma característica irresponsável da mentalidade jovem: achar que as coisas só ocorrem com os outros. O resultado desse comportamento de risco é que, dentre todas as mulheres que se tornam mães, aproximadamente 20% têm menos de 20 anos de idade.
 
Na maioria dos casos, a gravidez acontece antes da hora desejada e por isso não vem acompanhada por um planejamento. “A jovem precisa entender que ela pode engravidar, pois o corpo já lhe permite isso, mas será que ela já tem condições e está preparada para encarar todas as mudanças que o ato lhe trará?”, questiona a pediatra Marta Guerreiro Silva.
 
Justamente por não ter condições, é comum que as adolescentes grávidas sejam acompanhas pelas suas mães, que muitas vezes acabam assumindo o papel de avó e de mãe do bebê. “Algumas [adolescentes] se apóiam no exemplo materno e amadurecem; outras acabam ‘largando’ seus filhos e voltam a ter a mesma vida que tinham antes”, explica a pediatra Maria Aparecida Drumond Safi. Ela ainda conta que “a futura vovó quer falar, fazer as perguntas, mas eu sempre procuro chamar a responsabilidade para a adolescente, para fazer com que ela sinta que é a mãe”.
 
Segundo a Dra. Cidinha, como é carinhosamente chamada, o aleitamento materno é o principal responsável por fortalecer o elo entre mãe e filho. “Durante as consultas médicas nós mostramos o crescimento e o desenvolvimento do bebê e sempre parabenizamos a ação da mãe que está protegendo o recém-nascido”, afirma. As jovens também são orientadas a voltar ao ginecologista e a usar métodos anticoncepcionais. “Nós mostramos para elas os problemas e as dificuldades em ter outro filho, pois muitas meninas engravidam novamente logo depois, algumas de pais diferentes”, salienta a médica. Dados do Hospital das Clínicas de São Paulo confirmam essa informação ao afirmarem que 25% das adolescentes que tiveram filhos engravidam outra vez em menos de dois anos.
 
A desempregada Luciana de Fátima Nicolau engravidou pela primeira vez aos 15 anos. Hoje, aos 34, ela tem outros quatros filhos. Michele, a primogênita, seguiu seus passos e, aos 17 anos, já é mãe de três crianças. A outra filha, Luana, também engravidou cedo, ela tem apenas 13 anos e já amamenta. “Não me arrependo, pois fiquei sem pai, sem mãe, sem marido, mas eu sempre terei meus filhos", afirma a matriarca.
 
A história da empregada doméstica Vitória Cristina de Oliveira é bem parecida. A primeira filha, Fabiane, nasceu quando ela tinha 13 anos. Cinco anos depois nasceu a segunda, Cristiane. A mais velha também engravidou duas vezes no período da adolescência, aos 16 e aos 19 anos, e só depois se casou com o pai das crianças. “Por causa da gravidez eu deixei de estudar, de fazer novas amizades e de me divertir, tudo isso porque eu tive que amadurecer antes da hora”, lamenta Vitória. “Só agora eu estou começando a conquistar os caminhos que eu deixei para trás”. Hoje, aos 36 anos, ela voltou a estudar, está cursando a 6ª série.
 
O ideal é que as adolescentes grávidas sejam acompanhadas em ambulatórios especiais com nutricionistas, psicólogas, enfermeiras, pediatras e ginecologistas. “Quando a jovem engravida não tem o que fazer, mas é importante trabalhar com ela para que isso não volte a acontecer alguns anos depois”, afirma a Dra. Marta, responsável pelo Projeto Nana Nenê.
 
Uma perspectiva diferente
Para a Dra. Marta, o índice de aproximadamente 20% está ligado à falta de estrutura familiar e ao contexto que a jovem está inserida. “Muitas vezes a adolescente quer engravidar, pois enxerga nisso o único plano de vida palpável, mas esquece que o pós-gravidez demanda responsabilidade e amadurecimento que muitas delas ainda não têm”. É o caso da ituana Flávia Cristina Barbosa Ramos, de 15 anos, que depois de um ano tentando, engravidou. “Meu marido e eu queríamos um filho”. Os dois moram juntos há quase dois anos em um cortiço da cidade e, de acordo com a jovem mamãe, eles pretendem ter outros filhos. “Meu marido quer montar um time de futebol”, conta sorrindo e satisfeita com a escolha que fez.
 
A irmã de Flávia, Fernanda, não teve a mesma sorte. Logo depois que engravidou foi abandonada pelo pai do bebê e atualmente mora em um quartinho na casa onde trabalha como empregada doméstica. As duas fazem parte de um grupo de adolescentes que se tornou mãe antes dos 20 anos, que em Itu, corresponde a 22,9% dos partos realizados nos primeiros seis meses deste ano.
 
Apesar de alto, o índice da cidade está dentro da taxa estabelecida pelo Estado de São Paulo e, segundo a Dra. Marta, dificilmente cairá nos próximos anos, pois não depende apenas da ação da saúde, mas também do próprio comportamento do adolescente e da sociedade em geral. “Nós só vamos conseguir diminuir esse índice quando as condições sócio-econômicas, culturais e educacionais mudarem também, e quando o país oferecer melhores condições e oportunidades para os jovens”, explica. “A mídia é outro vilão, pois exagera na erotização dos corpos. Muitas vezes os próprios pais também estimulam a precocidade sexual ao vestirem uma criança com roupas provocantes, sapatos de salto alto e maquiagem”, completa a pediatra.
 
As complicações da gravidez precoce
De acordo com o Minist&eacu

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