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Pereira: o ex-jogador do Ituano que virou ídolo no Japão

Publicado: Terça-feira, 13 de maio de 2014 por André Roedel


Conheça a carreira deste craque do futebol japonês!

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Pereira levanta o troféu de campeão da J-League de 1993, ano em que o futebol japonês se profissionalizou

Por André Roedel

Luiz Carlos Pereira. Um nome comum, mas que tem uma grande história no futebol – principalmente no Japão, onde foi um dos mais importantes jogadores da década de 1990. Ex-zagueiro de Ituano, São Bento, Bahia e Guarani, Pereira – como era mais conhecido – ainda hoje é lembrado pelo torcedor japonês por seus grandes feitos na J-League, a liga nacional da Terra do Sol Nascente.

O sucesso de Pereira no país oriental foi tanto que ele chegou a receber, em 1994, o prêmio de Most Valuable Player (MVP), dado ao jogador mais valioso da temporada (veja o vídeo no fim da matéria). Em um bate-papo especial com o Itu.com.br, o ex-zagueiro que fez fama em solo japonês conta tudo sobre a sua carreira. Confira:

O começo

Nascido em 6 de março de 1960 na cidade de Timburi (SP), Pereira começou a carreira no modesto time de Santo Antonio da Platina, no Paraná. “Lá fiquei por dois anos até que o clube ficou sem condições de pagar. Então eles me liberaram o passe, dizendo que poderia seguir em frente”, relembra o ex-jogador, que possuía um estilo clássico de jogo.

“Eu sempre fui uma pessoa calma. Então meu estilo de jogo era sempre de tocar, de se movimentar muito. Eu me preparava muito. Eu tinha que estar bem dentro de campo porque senão não ia aguentar correr”, explica Pereira, que recebeu o convite de um treinador de Sorocaba para jogar no Ituano em 1981.

Como na época o clube estava sendo reestruturado após anos de amadorismo, o começo do então jogador no Galo de Itu não foi muito fácil. “A gente treinava à noite porque a maioria do pessoal trabalhava nas firmas. Eu e mais dois jogadores, o Paulo e o Puca, ficávamos no Estádio ‘Souza Lima’, atrás da arquibancada”, conta.

Mas as coisas foram se ajeitando no rubro-negro. Em 1983, quando já estava na Segunda Divisão do Campeonato Paulista, o Galo passou a contar com maior apoio dos torcedores e empresários da cidade. “A partir de 1983 que a gente passou a ter um time forte”, comenta Pereira. Isso resultou na excelente campanha do ano seguinte, quando o Ituano por pouco não subiu para a Primeira Divisão.

Passagem pelo São Bento

Pereira seguiu no Ituano em 1985, mas logo foi emprestado para o São Bento de Sorocaba, onde ficou cerca de oito meses. “Na época o São Bento tinha um elenco forte, jogava a Primeira Divisão do Paulista e tinha jogadores vindos do São Paulo, como Dinei, Márcio Araújo, Dener e Marcelo”, lembra.

A passagem pelo clube sorocabano só não durou mais tempo porque o então presidente do Bentão alegou que o Ituano pedia muito dinheiro para vendê-lo em definitivo. Por isso, o ex-jogador acabou voltando ao Galo, onde jogou mais um período. Mas em 1985, Pereira acabou sendo indicado para jogar no Bahia, que precisava de um zagueiro.

Ídolo na Boa Terra

A trajetória de Pereira no tricolor baiano não podia ser melhor. Após se adaptar com a nova função na zaga – já que jogava no meio-campo no início da carreira –, ele conquistou o tricampeonato estadual e foi peça crucial na conquista do Campeonato Brasileiro de 1988, fazendo gols importantes de falta, como os da vitória sobre Corinthians e Palmeiras.

O bom desempenho no Brasileirão daquele ano rendeu a Pereira a Bola de Prata, prêmio concedido pela revista “Placar”. Só que o craque não pôde jogar as partidas decisivas do torneio, contra o Internacional de Porto Alegre, porque ficou sem contrato. Com isso, ele precisou pedir ajuda para encontrar um novo clube. Foi aí que o Guarani de Campinas ofereceu contrato a ele, que ficou cerca de três anos no clube.

Glória no Bugre

No Bugre, Pereira novamente foi destaque e se tornou um dos heróis do vice-campeonato da Série B do Brasileirão de 1991, que valeu o retorno à elite nacional para os campineiros. O carinho da torcida bugrina pelo ex-zagueiro era tanto que fez o então presidente do Guarani, Beto Zini, não autorizar a transferência de Pereira para o futebol japonês em seu primeiro convite, em 1992.

E sabe quem fez o convite para que ele fosse ao Japão? Pepe, um dos maiores jogadores da história do Santos (jogando ao lado de Pelé) e da Seleção Brasileira, que na época era técnico do Verdy Kawasaki. Mas o “Canhão da Vila” insistiu. “Seu Pepe ligou e conversou com o Beto Zini pedindo compreensão, até porque na época eu já estava com 32 anos e seria uma oportunidade de ganhar um dinheiro a mais”, conta Pereira.

Na negociação, o time japonês também pediu o empréstimo de jovens jogadores da base bugrina. “Isso foi na época em que o Amoroso ainda não tinha aparecido. Nessa negociação, ele foi junto. Lá ele foi bem, se destacou e quando voltou, explodiu no futebol nacional”, comenta Pereira, que em 1993 foi ganhar a vida no Japão.

Sucesso no Verdy

Pereira repetiu no Verdy o sucesso que teve no Bahia e no Guarani. Logo em seu ano de estreia tinha início a J-League (campeonato nacional semelhante ao nosso Brasileirão), marcando assim a profissionalização do futebol japonês. O esporte no país oriental foi impulsionado graças a Zico, ídolo do Flamengo e da Seleção Brasileira que encerrou a carreira no Kashima Antlers.

“Dunga, Jorginho, o Zico já estava lá, outros jogadores da Europa como Schillaci e Massaro, jogadores de ponta de seleções mundiais passaram por lá. Tive o prazer de jogar contra esses caras e junto com alguns também”, diz Pereira, que enfrentou o Galinho de Quintino na primeira final da J-League – e se saiu vitorioso.

Além dos títulos nacionais de 1993 e 1994, Pereira ainda conquistou com a camisa do Verdy Kawasaki (que viria a se tornar o Verdy Tokyo) a Copa do Imperador e a Copa da Liga Japonesa, conhecida como Nabisco Cup. “Esse time ganhava tudo”, se orgulha o ex-zagueiro.

Adaptação

A adaptação de Pereira ao Japão não foi tão difícil como ele imaginava, já que contou com o auxilio dos brasileiros. “Pra mim não teve muita dificuldade por conta da orientação do seu Pepe e dos jogadores brasileiros que já estavam lá”, relata o ex-jogador, que teve mais dificuldade no início com o fuso horário no início.

Diferente de outros brasileiros que vão ao Japão, Pereira não teve problemas com a culinária. “A culinária japonesa é boa. É à base de legumes e frutos do mar, então para nós (atletas) foi até bom, porque é uma comida saudável. Frutos do mar para eles lá são baratíssimos, porque eles são cercados de mar, então tem muita facilidade de você comer um camarão, uma lagosta”, comenta.

O idioma também foi um entrave, mas ele conseguiu aprendê-lo através de muito estudo. “A língua para você falar leva algum tempo. Você tem que dar uma lida, uma estudada para aprender um pouquinho mais rápido”, explica.

Fim de carreira

Após o sucesso no Verdy, Pereira foi jogar no norte do Japão, no recém-criado Consadole Sapporo. “Não tinha time lá, porque a região é muito fria. A Toshiba (empresa de eletrônicos) na época montava um time e contratou eu e o Alcindo (jogador que fez fama no Japão e no Flamengo), que fomos os primeiros brasileiros a jogar lá”, conta Pereira, que jogou na Segunda Divisão japonesa em sua primeira temporada, mas logo ajudou o time a ascender à J-League.

O Consadole Sapporo foi o último time da carreira de Pereira. “Tive problema no joelho e tive que operar, então decidi voltar ao Brasil e finalizar a carreira”, explica. Com quase 40 anos, dá pra se dizer que ele terminou a carreira no auge. “Conheci uma parte do mundo viajando com esses clubes de fora, e isso foi muito bom”, comenta Pereira, mostrando que toda a trajetória valeu a pena.

Carinho e respeito

Mesmo depois de 15 anos de sua aposentadoria, Pereira ainda é reconhecido e idolatrado pelos torcedores do Verdy. “Posso chegar hoje lá com quase 15 anos que parei e eles lembram, sou reconhecido na rua. É um respeito muito grande”, conta o ex-jogador, que pretende voltar ao Japão após a Copa do Mundo. “O respeito que tem o povo japonês pelos ídolos é pra sempre”, diz.

Vida fora dos gramados

Pereira deixou os gramados, mas não necessariamente o futebol. Aos 54 anos, o ex-zagueiro transfere o conhecimento adquirido em sua longa carreira para os garotos ituanos. “Hoje eu estou aqui em Itu, na Secretaria de Esportes, fazendo um trabalho praticamente social com as crianças nas escolinhas da prefeitura”, relata o craque, que está na função há quase três anos.

Mas antes de assumir o atual cargo, Pereira planejou sua despedida dos campos. “O jogador tem que se preparar (para o fim de carreira), porque eu já vi histórias de jogador que entra em depressão”, explica. “Eu me preparei. Quando eu vi que o negócio estava ficando ruim, pensei: ‘bom, então eu vou procurar alguma coisa dentro do futebol, que é a minha área’”, comenta o ex-jogador.

Após o encerramento da carreira, Pereira ainda teve outros cargos. Chegou a trabalhar como auxiliar do técnico José Carlos Serrão (que foi ponta-esquerda do São Paulo na década de 1970) na União Barbarense em 2005, além de atuar na equipe técnica da Inter de Limeira. Mas ele percebeu que deveria trabalhar nas categorias de base mesmo.

Japão na Copa

Pereira está muito feliz com o fato de a seleção japonesa ter escolhido Itu como base para a Copa do Mundo. Além disso, ele acredita que os jogadores japoneses podem surpreender. “Eles têm condições. Eu tenho certeza que eles vão surpreender nessa Copa, porque são jogadores que têm muita influência dos brasileiros e a maior parte dessa seleção está hoje na Europa”, explica.

Quanto a Copa do Mundo em geral, Pereira espera que tudo ocorra bem. “A gente espera que ocorra tudo da melhor maneira, porque a repercussão lá fora é grande”, comenta o ex-jogador, que foi idealizador do Torneio Internacional Brasil/Japão – que acontece anualmente na cidade e reúne jovens jogadores brasileiros e japoneses para um intercâmbio cultural e esportivo.

Amizades e bons exemplos

Títulos, medalhas, troféus, prêmios... Tudo isso certamente será lembrado por Pereira, mas o que ele vai mesmo guardar são as amizades conquistadas ao longo de quase vinte anos de carreira. “Mas as boas, as ruins a gente deixa de lado”, faz questão de frisar.

O craque de outros tempos também espera que sua trajetória sirva para inspirar outras pessoas. “Sempre em minha carreira eu procurei conversar e passar bons exemplos, porque alguma coisa de bom vai ficar”.

Confira o vídeo de quando Pereira foi eleito o jogador mais valioso do Japão:

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