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Publicado: Quinta-feira, 5 de junho de 2014

A bola rolou primeiro em Itu

A bola rolou primeiro em Itu
Alunos e padre jesuíta se reúnem com uma bola de futebol em 1897 no Colégio São Luis de Itu

Por Rodrigo Gasparini

É inegável a importância de Rui Barbosa para a história do Brasil e para a consolidação do país como uma nação propriamente dita. O homem responsável por, entre outros feitos, organizar a República e ajudar a escrever a primeira Constituição, faleceu em 1923 e até hoje é homenageado país afora com nomes de ruas, praças, avenidas e comércios. Dá nome, até, a uma cidade no interior da Bahia.

Mas é outro município que deve algo ao antigo político: Itu. Curiosamente, a terra onde nasceu Prudente de Moraes, homem contemporâneo a Rui e de igual importância para a história nacional.

Foi Rui Barbosa quem, mesmo sem querer, deu o pontapé inicial para que Itu se tornasse o primeiro lugar do Brasil a praticar o futebol de maneira organizada. Para que, além de Berço da República, a cidade possa se orgulhar de ser a terra onde começou a ser jogado o esporte mais amado dos brasileiros.

Para entendermos essa história, precisamos viajar no tempo. Vamos voltar a 1882, ano em que o então deputado Rui Barbosa apresenta, a pedido de D. Pedro II, um documento denominado Pareceres sobre a Reforma do Ensino. A ideia era melhorar algo que até hoje causa dor de cabeça no brasileiros – a educação. Para se ter uma ideia do drama da época, uma pesquisa feita cinco anos antes mostrava que apenas 15% da população brasileira sabia ler e escrever.

Entre as ideias apresentadas por Rui Barbosa, estava a prática de atividades físicas regulares nas escolas como meio de melhorar a educação tradicional e moldar o caráter das crianças e jovens. Rui apresentou a sugestão, mas não disse exatamente quais tipos de exercícios seriam aceitáveis.

Foi com o objetivo de buscar essa resposta que um grupo de padres jesuítas deixou Itu e embarcou rumo à Europa. Responsáveis pelo colégio São Luís – um dos mais tradicionais e respeitados da época, onde estudavam os filhos da elite paulista –, eles levaram a sério a sugestão de Rui Barbosa e foram conhecer o que o Velho Continente reservava.

No livro “Visão do jogo – primórdios do futebol no Brasil”, José Moraes dos Santos Neto conta que os jesuítas desembarcaram primeiro na França, onde tiveram o contato inicial com o futebol. Depois, foram à Inglaterra e à Alemanha e conheceram exemplos de colégios que utilizavam o jogo como complemento educacional.

Os padres desembarcaram de volta a Itu com duas bolas na mão e muitas ideias na cabeça. Liderados por José Mantero, que viria a ser reitor do colégio, eles passaram a promover atividades físicas envolvendo as bolas, que logo tiveram bexigas de boi substituindo as câmaras de ar que as revestiam internamente.

Os sacerdotes resolveram adotar uma estratégia para incluir o futebol na grade curricular. No início, eles próprios e os alunos apenas chutavam as bolas nas paredes dos pátios do colégio. “Em seguida, os padres introduziram duas pequenas marcas em paredes opostas do pátio e dividiram a turma em dois times, camisas verdes de um lado e camisas vermelhas de outro”, conta Santos Neto.

Mas, apesar de se aproximar do esporte que conhecemos (o objetivo era levar a bola até a meta adversária), este ainda não era o futebol propriamente dito. Foi em 1894, quando o padre Luís Yabar assumiu como reitor, que a prática do futebol passou a ser, digamos assim, institucionalizada no colégio São Luís – que funcionava no espaço que hoje abriga o Quartel de Itu. Foram formados quatro times de 11 jogadores e construídas as traves e as demarcações do campo.

A maioria das partidas ocorria numa chácara, chamada de Vila Maria, que pertencia ao colégio. Embora não houvesse um caráter competitivo nas disputas, os padres costumavam premiar o aluno/jogador que mais se destacasse. Em 1895, por exemplo, o ganhador foi Arthur Ravache, que mais tarde seria um dos fundadores do Germânia – atual Pinheiros.

Toda essa história – que está muito bem retratada e documentada no livro de Santos Neto – deixa claro que o futebol era praticado em solo ituano antes de Charles Miller retornar da Inglaterra (onde fora estudar), em 1894, carregando bolas, camisas, uma bomba de ar e um par de chuteiras.

Miller é tido como o pai do futebol no Brasil e não raras vezes é classificado como sendo o homem que introduziu a modalidade nas terras tupiniquins. Mas o que ele fez, na realidade, foi popularizar a prática do esporte. Enquanto os jesuítas não se preocupavam em fazer com que o esporte ganhasse caráter competitivo, utilizando-o somente como atividade educacional, ele difundiu o futebol dentro dos clubes e organizou jogos e campeonatos.

Há muitos méritos no que fez Charles Miller, sem dúvida. Mas é inegável, também, que antes dele aparecer, o futebol já era praticado regulamente pelos alunos do colégio São Luís, em Itu. Outras escolas jesuítas pelo Brasil, ainda que de maneira esporádica, também colocaram o jogo em suas grades curriculares. E a bola corria solta, ainda, em praias brasileiras, que foram palcos de amistosos entre marinheiros estrangeiros.

Uma das cidades mais importantes para a história do Brasil, Itu deu ao país um presidente da República. Ajudou a dar, também, a própria República. Foi protagonista de importantes acontecimentos, nas mais diversas esferas. E foi testemunha dos momentos em que ainda engatinhava aquela que viria a ser a grande paixão nacional.

Leia mais:  "Itu, berço da República. E do futebol" - escrita e publicada no itu.com.br em julho de 2009.

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