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O SUMIÇO DO MUNDO - Capítulo 9

Publicado: Terça-feira, 1 de dezembro de 2015 por Jéssica Ferrari


A civilização reinventada

ACONTECEU NO CAPÍTULO 8:

Sem dispor de recursos naturais ou artificiais, sem fontes de energia, sem acesso à tecnologia nem aos instrumentos de comunicação que tinham determinado o alto nível de bem-estar que boa parte da humanidade alcançara até o começo do século 21, era muito difícil que aquele restinho de população, concentrado num restinho de terra, encontrasse ânimo para começar tudo de novo. Não obstante, alguns avanços essenciais foram obtidos, conforme relata um livro escolar, então publicado. Uma notável diminuição da mortalidade infantil, assim como o prolongamento da expectativa de vida, foram o resultado de uma alimentação mais sadia. O fantasma da Aids desapareceu e a maconha era menos consumida do que cigarros de palha, os únicos que existiam.

Uma usina elétrica desativada foi posta a funcionar e voltou a haver distribuição de energia na ilha, embora a falta de lâmpadas limitasse seu uso. O cultivo da cana-de-açúcar permitiu a fabricação do álcool mas isso não foi o bastante para recolocar os carros em movimento.

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A civilização reinventada

O livro Nossa Única Terra é também a única fonte de informação existente sobre a tenacidade daquele grupo de gente determinado a restaurar um pouco de civilização na nesga de chão que habitava. Para que o leitor tenha uma ideia do desafio que foi enfrentado, continuamos a reproduzir trechos desse precioso documento.

Educação

As aulas do ensino elementar e médio foram reiniciadas em 4 de fevereiro do Ano Um. Assim que instalada, a Secretaria de Educação passou a reformular todos os currículos, adequando-os à nova realidade. Assim, as antigas matérias Geografia do Brasil e História do Brasil, reduzidas ao essencial, foram incorporadas à matéria Mundo Pré-histórico e substituídas por Geografia da Terra e História da Terra, a primeira descrevendo o nosso espaço vital, a ocupação territorial, as atividades econômicas e nossos recursos naturais; e a segunda relatando os acontecimentos mais significativos a partir do primeiro ano da nova era.

A biblioteca pública tornou-se nossa mais preciosa fonte de recuperação do conhecimento acumulado no mundo extinto. Graças aos livros e enciclopédias, mestres e estudantes conhecem mecânica quântica, biologia molecular, matemática superior, nanoeletrônica, astrofísica e outras ciências de ponta. Mesmo sem possibilidade de aplicação imediata, a posse desse conhecimento constituía estímulo e convite para que os poucos herdeiros da humanidade pudessem trabalhar sobre o legado de sabedoria recebido, quando fosse possível superar esse período de retrocesso imposto pela falta de espaço vital e a ausência de instrumentos científicos.

As escolas voltaram a funcionar em plena segunda-feira de carnaval, festa que em 1 e nos anos subsequentes foi inteiramente esquecida, assim como os demais feriados que antes garantiam afluxo de turistas e injeção de dinheiro na economia da ilha. O ensino de inglês, alemão, francês, e espanhol foi retirado dos currículos, dada a inutilidade prática dessas línguas mortas – não havia com quem falá-las, não haveria mais publicações a ler nem país estrangeiro a visitar. Só os poucos especialistas em arqueologia tinham interesse em estudar tais línguas recém-falecidas. O próprio português deixou de ser chamado português, uma vez que passou a ser a linguagem única. Era simplesmente a língua.

A secretária da Educação julgava que naquele “reinício de civilização” ainda não estavam reunidas as condições suficientes para a instalação de cursos superiores – exceto o de medicina, porque era preciso que os médicos transmitissem logo seus conhecimentos às novas gerações. A ciência, a tecnologia e os artefatos da Antiguidade que terminara em 2007 eram a grande e única referência. As relíquias materiais do passado foram reunidas numa grande exposição permanente, denominada Museu da Antiguidade, instalada no Estádio Municipal do bairro da Água Branca. Lá, classificados didaticamente e identificados por plaquinhas informativas, encontravam-se os mais variados objetos que sobraram do mundo desaparecido. As principais atrações do show era um helicóptero Bell, alguns modelos de automóveis, caminhões, motocicletas, assim como uma frota de doze jet-skis. Também despertavam curiosidade, principalmente das crianças: um semáforo de trânsito, uma máquina de cortar grama, um patinete a motor, as máquinas fotográficas e filmadoras. Podiam ser examinadas também latas de cerveja de marcas diversas, pets de Coca-Cola, detergentes e desinfetantes; alguns tacos de golf, uma embalagem fechada de 24 rolos de papel higiênico, caixas de fraldas descartáveis e caixas de absorventes íntimos, tubos de creme dental, pacotes de cigarros Marlboro e Free e coleções das revistas Playboy, Caras e Reader`s Digest.

Uma etiqueta identificava como doação de Rodrigo Fragoso Telles um faqueiro de prata Christofle, quatro tapetes persas, duas raquetes de tênis Wilson Pro, uma batedeira e um liquidificador Arno. Havia guarda-roupas completos de roupas femininas e masculinas, sendo que os trajes de rigor chamavam mais a atenção. Havia também uma profusão de objetos e substâncias de uso pessoal, como sais e espumas de banho, cremes e loções, abotoaduras, barbeadores, desodorantes, meias de seda e caixinhas de joias com música. Numa vitrina especial encontravam-se frascos fechados de perfumes Lancôme, Dior, George Armani e Calvin Klein; várias latas de caviar russo e um litro de vodca Wiborowa; duas garrafas de champagne Krug, um pulôver masculino de cashmere azul, uma dúzia de garrafas de vários uísques escoceses e uma caixa de charutos Davidoff.

Visita ao Museu era um programa de dia inteiro para os escolares. Muitas pessoas, notadamente aquelas que haviam morado no continente desaparecido, recusavam-se a visitar o Museu. Diziam que o coração não aguentaria.

Uma parte da exposição era dedicada às artes plásticas. Nele figuravam quadros de artistas vários, obscuros se não anônimos, alguns abstratos e violentamente coloridos, outros figurativos, bucólicos, muitas naturezas-mortas e paisagens marinhas – obras que foram encontradas nas paredes das mansões desabitadas e nos quartos dos hotéis de turismo. Entre elas destacava-se pelo inusitado a ampliação fotográfica de uma instalação assinada por Damian Hirst, na qual uma vaca esquartejada em tamanho natural é exibida no interior de uma vitrina repleta de formol. Dos grandes mestres da pintura, apenas passaram para a posteridade Cézanne, Degas, Toulouse-Lautrec, Modigliani, Bellini, Van Gogh, Monet, Gauguin, Renoir e Almeida Júnior, cada um representado por uma única obra. Era a coleção das dez reproduções, no tamanho uniforme de 64 x 44 cm, de quadros existentes no MASP, um brinde que o jornal Folha de São Paulo oferecera a seus assinantes pouco antes do Fim do Mundo.

Com a volta da energia elétrica, o Museu instituiu a apresentação, em sessões regulares, de filmes e vídeos sobre o Mundo Antes do Fim. A maior parte fora recolhida nas casas abandonadas e mostrava monótonas cenas da vida doméstica, das viagens e festas dos antigos habitantes. Era porém grande o seu interesse para antropólogos, sociólogos e historiadores. Na busca desse material também foram encontrados numerosos vídeos pornográficos, os quais foram destruídos ou doados aos excêntricos colecionadores do gênero.

Arte e cultura

A existência de uma biblioteca pública foi uma benção de valor incalculável. Ela impediu que o Fim do Mundo fosse também o fim da literatura. Sem ela, teriam caído no esquecimento, como se nunca tivessem existido, obras primas de Gonçalves Dias, Vargas Vila, Madame Dely, Dale Carnegie, Castro Alves, Charles Atlas, Paulo Coelho, Aparício Torelli, Lair Ribeiro, Pearl S. Buck, Karl May, José Mauro de Vasconcelos, Júlio Diniz, Stephen King, Danielle Steel, Krishnamurti, Marion Zimmer Bradley, Irwing Wallace e Paul Drucker, A humanidade pode continuar se deleitando com as obras dos maiores mestres da literatura, felizmente preservadas.

Rica também é a nossa herança musical, graças ao grande número de discos existentes, que podem ser ouvidos desde que os aparelhos de som foram postos a funcionar. Assim, conseguimos salvar para toda a posteridade a maravilhosa música de Avril Lavigne, Britney Spears, Back Street Boys, Spice Girls, Latino, Kelly Key, Elton John, Ivete Sangalo, Vanessa Camargo, Fábio Júnior, Sandy e Júnior, Zezé de Camargo, Bruno e Maroni, Frank Sinatra, Roberto Carlos, Djavan, Carlinhos Brown, Pitty, Tim Maia, Nelson Ned e Serge Gainsbourg, assim como as memoráveis performances das bandas Kiss, Sepultura e Ray Coniff.

Nossos jovens cantores e instrumentistas, se empenham em imitar esses grandes artistas e, embora não possam gravar discos, apresentam-se em concorridos shows ao vivo, nas festas populares.

Meio ambiente

Desde os primeiros anos de governo, ficou instituída uma severa política de preservação de recursos naturais. Ao mesmo tempo em que era estimulada a produção de sementes e mudas para as hortas, os pomares e a agricultura, incentivou-se o replantio de árvores. Uma vez estabilizado, o consumo de açúcar e álcool determinou os limites de cultivo da cana, o que ajudou a desacelerar o desmatamento. Procurou-se, na medida do possível, evitar a extinção de espécies da fauna e da flora silvestre, embora a prioridade fosse sempre o da sobrevivência da nossa espécie.

Limitação demográfica

A disseminação da noção de que vivemos num mundo finito, diminuto, no qual todos nós precisamos caber, ajudou a conscientizar a população. O número de habitantes da terra não poderá ser maior do que a capacidade da terra de nos alimentar. Na época do Fim do Mundo, éramos cerca de 24 mil habitantes. No Ano 15, nossa população já crescera para 28.572, um número que evidenciou o acerto das ações da Saúde Pública, mas por outro lado alarmou o governo. A terra estava sendo exaurida e não havia como aumentar sua capacidade de produção de gêneros. Por recomendação do Conselho de Sábios, o governo fixou em 30.000 habitantes o número máximo da população da terra. Os casais foram orientados a adotar métodos de controle da natalidade.

O livro deixou de mencionar a inteligente lista de espera instituída para os casais que desejassem ter filhos. À medida que iam se registrando óbitos, os casais eram autorizados a conceber, pela ordem de inscrição. Foram instituídas multas para aqueles que tivessem filhos “fora da lista” (os gêmeos eram perdoados), mas estas eram penalidades bem mais amenas do que as impostas aos chineses no tempo de Mao Tse Tung. Compreendendo a gravidade da questão, a comunidade cooperou e o número de habitantes se estabilizou perto do teto fixado. As más línguas, que continuaram vivas depois do Fim do Mundo, diziam ser estranho o súbito aumento de acidentes fatais sofridos por idosos depois que a lista de espera foi instituída.

Ordem Pública e Justiça

Nossa força policial teve origem nas milícias voluntárias que atuaram na repressão aos mafiosos e asseguraram a posse do governo de Pedro Iroquês de Araújo. Trata-se de um contingente mínimo, uma vez que a criminalidade é extremamente rara – basta dizer que desde o período do banditismo não ocorre nenhum homicídio. Praticamente, a polícia só é necessária para o socorro de cidadãos em situações de emergência.

A posse e o porte de armas de fogo, que eram proibidos no Brasil extinto, são autorizados, sempre que os responsáveis registrem na polícia não só as armas como também a quantidade de munição. Todo tiro deve ser relatado, com indicação da data, hora e intenção do disparo, e a apresentação do respectivo cartucho vazio. Exerce-se assim uma prevenção efetiva da violência.

À Justiça compete elaboração das leis, o julgamento de crimes e de conflitos fundiários, trabalhistas e comerciais, assim como a aplicação de penas.

O texto é lacônico quanto ao judiciário. O fato é que o governo assumiu os papéis de legislador e de ministrador da justiça. Os magistrados Marco Aurélio Barbosa e Nicolau Pacheco, assistidos por Modesto de Souza Carvalho e Samuel McDonald, dois outros juristas brilhantes, incumbiram-se de redigir o novo código de leis apoiados na ética, nos costumes, no senso comum e nas regras de conduta não escritas, simplificando os ritos e retendo dos códigos civil e criminal brasileiros apenas as partes aplicáveis àquele núcleo remanescente da humanidade. Antes de tudo, foi elaborada a lei pela qual as propriedades e os bens abandonados após o Fim do Mundo passaram a pertencer ao Estado. A mesma lei dava poderes ao governo para atribuir a posse dessas propriedades e bens a cidadãos escolhidos de acordo com critérios bem definidos. Desse modo, o governo pôde oferecer moradia decente aos que não tinham, sem precisar se lançar à construção de casas populares. Numerosas mansões foram subdivididas em apartamentos para abrigar mais de uma família e a polícia teve trabalho para desalojar os invasores de algumas propriedades. Em pouco tempo, deixaram de existir no território as favelas e as habitações indignas, os casebres de pobre. Com a estabilização do número de habitantes e a ausência do turismo, desapareceu a necessidade de novas moradias e a construção civil ficou limitada a obras de reforma.

Lemos em Nossa Única Terra que a substituição de alguns daqueles produtos e utilidades que provinham do mundo extinto lograram ser substituídos com maior ou menor êxito:

TECIDOS. Foram encontradas antigas rocas e com elas conseguimos recuperar fios, graças ao paciente desfiamento de panos velhos. Foram achados também teares manuais, que haviam sido usados na tecelagem artesanal de tapeçarias, toalhas e panos decorativos. Nesses teares os fios recuperados transformam-se nos tecidos com os quais as costureiras confeccionam novas roupas. Na falta da planta do algodão, aproveitam-se outras fibras, como a do coco, com as quais se fazem roupas bastante adequadas para o clima. A fibra de coco também é usada na fabricação das redes e linhas de pesca.

CALÇADOS. Além das sandálias de palha, contamos com uma produção suficiente de calçados produzidos a partir de retalhos dos pneumáticos abandonados.

UTENSÍLIOS. A indústria da cerâmica, o artesanato da palha e as marcenarias produzem substitutos satisfatórios para os objetos de plástico, metal e louça que se desgastam e acabam.

PAPEL. O papel branco, virgem, acabou nos primeiros meses. A partir da coleta de papel usado, conseguimos produzir papel artesanal, porém o baixo volume dessa produção impôs o racionamento permanente do papel. Assim, os autores de textos legislativos, administrativos e literários devem dizer tudo no menor número de palavras e na menor letra possível. Os livros didáticos são publicados em tiragens de poucos exemplares, de uso coletivo. A antiga técnica da taquigrafia foi recuperada em velhos manuais e instituída nos cartórios e repartições para que as atas, escrituras, declarações e demais assentamentos possam ser feitos com o uso mínimo de papel.

METALURGIA. O conhecimento teórico da metalurgia adquirido nos livros e a experiência prática de siderurgia aportada pelo engenheiro Alexandre Gavrilovosky possibilitaram a criação de uma usina de ferro fundido, alimentada pelo aproveitamento das sucatas de veículos, carcaças de embarcações e de aparelhos domésticos. Surgiram também os ferreiros e suas forjas e com eles a capacidade de produzirmos ferramentas, engrenagens, eixos e estruturas metálicas. Essa produção perdurará enquanto existir sucata, mas espera-se que a pesquisa por jazidas de minério de ferro, níquel, cobre e alumínio venha a dar resultados positivos.

O otimismo da última sentença não se justifica. Na improvável eventualidade de que o minério viesse a ser encontrado, não existiria tecnologia para a construção de um alto-forno. E se houvesse, como gerar a necessária temperatura constante de 2.000 graus? O homem primitivo foi capaz de fazer ligas de bronze e ferro e, para achar os minérios, dispunha de 149.000.000 km2 de território. O homo insulabelens também poderia chegar a produzir esses metais, mas eram bem remotas as suas chances de encontrar os minérios dentro de apenas 348 km2.

É preciso considerar, contudo, que a necessidade de artefatos metálicos passou a ser diminuta, só de reposição. Assim como a necessidade de tudo. Estávamos numa sociedade de crescimento zero, progresso zero e o consumo reduzido ao estritamente necessário. Jamais era preciso aumentar a produção de nada. Essa realidade, aliada à ausência de opções, significava até um avanço em qualidade de vida, uma vez que acabaram o desperdício e a poluição. Desapareceram por exemplo as embalagens descartáveis, os pets, as latas de cerveja e as sacolas plásticas que antes entupiam o mundo. O lixo doméstico se reduzira a uma fração e era orgânico, podia ser convertido no adubo que, juntamente com o resíduo da limpeza de pescados e a bosta dos animais recolhida, era o que havia para fertilizar as plantações. E era o bastante.

O que restava da humanidade existia com muita saúde e pouco resíduo, prescindindo de tudo o que não era vital. Mas existia sem Carlos Drummond de Andrade nem Shakespeare, sem Bach nem Haydn; sem Lucchino Visconti, Stravinsky, Prokofiev, T.S. Eliot ou Saint Saens; sem Ingmar Bergman, Truffaut, Bertolucci, Ethel e Joel Cohen, Buster Keaton e Fernando Pessoa; sem Aldous Huxley, Felix Mendelssohn, José Saramago, Garcia Marques e Jean-Philippe Rameau; sem Veríssimo pai e filho, sem Machado de Assis, Chico Buarque e Monty Python, só para citar a esmo alguns gêneros de primeira necessidade.

O SUMIÇO DO MUNDO
CONTINUA!

Na próxima terça-feira
Capítulo 10
Sucessão por cansaço
A volta
 

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