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O SUMIÇO DO MUNDO - Capítulo 8

Publicado: Terça-feira, 24 de novembro de 2015 por Jéssica Ferrari


O difícil recomeço

ACONTECEU NO CAPÍTULO 7:

Quem ganhou a eleição foi o bispo Doroteo Paz, que instalou a presidência no antigo prédio da prefeitura e a sua residência numa suntuosa mansão desapropriada. Não quis ser chamado de presidente e sim Sumo Pontífice. Nomeou seu irmão Teodoro Paz como ministro da fazenda e instituiu o imposto de 10% a 15% sobre qualquer tipo de trabalho ou produção, com confisco de 100% em caso de sonegação. Uma vez empossado, o sumo pontífice limitou-se a cobrar impostos e a oficiar cultos diários em praça pública. Postou vigilantes nos pontos mais elevados do perímetro da ilha com a missão de assinalar os primeiros sinais de reaparição do continente ou, pelo menos, o surgimento de algum barco estrangeiro, evidências de que suas orações foram ouvidas. Doroteo nunca engolira essa história do sumiço do mundo....

Nada mais foi feito, nenhuma ação nem providência em relação à saúde, segurança, educação etc. Nem mesmo o lixo foi recolhido. Mas Doroteo anunciou em praça pública um gesto de caridade cristã: resolvera soltar os bandidos presos. Eles estariam arrependidos. Entretanto os guardas não acataram a ordem de soltura e o Sumo Pontífice convocou o ministério às pressas para deliberar sobre essa insubordinação e reafirmar sua autoridade. A reunião foi frustrada pela inesperada chegada de Pedro Iroquês e seus homens, num golpe que destituiu aquele governo inepto.

Orientado por um conselho formado pelas cabeças mais lúcidas da terra, Iroquês passou a chefiar o novo governo. O consentimento popular era tão óbvio que uma nova eleição popular foi desnecessária. Assim mesmo, era um governo autocrático e seus membros tinham noção de que, naquele momento, essa era a única forma de administração pública exequível.


PARA LER A ÍNTEGRA DO CAPÍTULO 7, CLIQUE AQUI.

O difícil recomeço

Publicado dezesseis anos mais tarde para leitura nas classes de ensino médio, o livro Nossa Única Terra, assim descreve o golpe histórico:

Em 22 de fevereiro do Ano 1 da Nova Era (Nota: o calendário anterior terminou em 31 de dezembro de 2007, o ano do Fim do Mundo. No dia seguinte, os anos recomeçaram a ser contados a partir de um: 01 de janeiro de 01), o povo da terra, reunido em assembleia, elegeu para nosso primeiro governante o pastor Doroteo Paz. Obcecado por assuntos religiosos, ele deixou de tomar as esperadas medidas administrativas que o momento reclamava. Quatro meses depois, a 13 de junho, interpretando a profunda decepção popular, Pedro Iroquês de Araújo apeou-o do poder e desde então nos governa com eficiência, transparência e inatacável probidade. As primeiras intervenções de governo deram-se nas áreas prioritárias – abastecimento e distribuição de gêneros; saúde pública; educação, ordem pública – e conseguiram restabelecer, no essencial, a normalidade da vida social depois da ocorrência do Fim do Mundo.

É claro que um livro escolar, oficial, não poderia entrar em pormenores. Foi uma verdadeira epopeia montar aquele pequeno governo e fazer com que os serviços públicos passassem a funcionar. Apoiado no que remanescia da estrutura da prefeitura, Pedro Iroquês (que, ao contrário do predecessor, desdenhava títulos e só admitia ser chamado de chefe), contou com uma equipe de auxiliares dedicados e um Conselho de Sábios, constituído por pessoas de notório saber: o historiador Rodrigo Fragoso Telles (46), os juristas Nicolau Pacheco (62), Samuel McDonald (63), Marco Aurélio Barbosa (67) e Modesto de Souza Carvalho (65); o cientista político Laerte Mattos (48), a psicanalista Helena Galvão (52), o médico sanitarista Guy de Tamborin (47) e o engenheiro Marcos Samikov (44). Com os conhecimentos e a experiência acumulados na vida acadêmica e no exercício profissional antes do Fim do Mundo, essas cabeças puderam orientar o governo no planejamento e na implantação da legislação e das medidas administrativas fundamentais. Assim como o chefe Pedro Iroquês e seus auxiliares diretos, os membros do Conselho de Sábios tinham a consciência de exercer um poder autocrático que, dadas as circunstâncias e idealismos à parte, era a única forma de governo exequível. Como um navio à deriva, a antiga ilha transformada em último reduto da humanidade precisava de um comando firme. A breve experiência democrática demonstrara-se inepta para assegurar esse comando.

Iroquês não precisou criar fontes de recursos. O espinhoso problema de impor tributação tinha sido resolvido pelo malogrado governo do pastor Doroteo. Amenizado e despojado de seu caráter rapinante e confiscador, o sistema foi mantido pelo novo governo e possibilitou o funcionamento da administração pública.

Poucas pessoas tinham a noção de que jamais voltariam a estar disponíveis as fontes de energia, os recursos naturais ou artificiais, os produtos industrializados e os instrumentos de comunicação que tinham determinado o nível de bem-estar que a humanidade, pelo menos boa parte dela, tinha alcançado naquele começo de século XXI. Jamais se reuniriam as condições para restaurar o conhecimento científico e a capacidade tecnológica perdidos. Para esses poucos, era particularmente difícil ter ânimo e coragem para recomeçar.

Para termos uma noção dos estágios de desenvolvimento que aquele grupo de sobreviventes conseguiu alcançar, a leitura do já citado livro escolar, Nossa Única Terra é nossa preciosa fonte. Comecemos pelo próprio livro: como foi possível produzi-lo? Existia na Ilhabela pelo menos uma gráfica equipada com impressoras digitais ou offset – até mesmo uma velha Heidelberg foi encontrada; mas sem tinta nem papel nem operadores, não havia como utilizar as máquinas. Esse livro foi fabricado artesanalmente. Suas folhas foram obtidas pela paciente reciclagem de restos de papel das mais diversas procedências. Seu texto foi composto à mão, letra por letra, com tipos de antigas caixas de tipografia e suas páginas foram impressas, sabe-se lá com que tinta, numa máquina manual de prelo. A encadernação era costurada, grosseira se comparada com as publicações industriais, e as páginas estavam mal refiladas e desalinhadas. O trabalho fazia lembrar os alfarrábios manuscritos pelos monges na idade média. O volume que consultamos estava se desfazendo, de tanto que deve ter sido manuseado. Era certamente um dos poucos exemplares que foram produzidos.

Esse raríssimo livro não pretendia mais do que registrar os avanços logrados pelo governo de Pedro Iroquês nos seus vários campos de ação. Vamos resumi-los sem os complementos laudatórios do texto original.

Abastecimento
O governo entregou terras, mudas e sementes a quem quisesse plantar, estimulando os mutirões de plantio e colheita. Foram aproveitadas as áreas de todas as matas derrubadas para a produção de carvão. Aos poucos a escassez de mantimentos foi superada e o racionamento pode ser abolido. Algumas iguarias, como o pão e as massas de farinha de trigo, o pescado de água doce, certa frutas e o chocolate desapareceram. Mas a nova dieta baseada em peixe, mandioca, milho, batata, ovo e fruta era mais saudável do que a que prevalecia antes do Fim do Mundo.

Saúde pública
O grande desafio foi cuidar da saúde prescindindo de quase todos os recursos e avanços da medicina. Não havia aparelhos nem capacidade tecnológica para realizar exames por imagem como ressonância magnética e tomografia. Sem material sensível os aparelhos de radiologia ficaram inúteis. Para chegar ao diagnóstico os médicos tinham que se contentar com sinais e sintomas e se apoiar na própria intuição e experiência. Casos agudos de diabetes, hipertensão, câncer e outras doenças graves não podiam ser tratadas. Os doentes de AIDS também não podiam ser salvos, mas com a redução das condições de contágio a incidência dessa enfermidade diminuiu até desaparecer.

A medicina natural, os remédios caseiros, a acupuntura e a homeopatia ganharam relevância. Aliadas à generalização de uma vida mais saudável, na qual a atividade física tem papel central, essas e outras práticas não ortodoxas contribuíram para uma impressionante elevação dos índices de saúde pública.

Em 15 anos registrou-se um decréscimo de 23% na mortalidade infantil e uma diminuição de 18,5 % dos óbitos por enfarte, enquanto a expectativa média de vida aumentou 26%.

Uma inovação digna de registro foi a instituição do Banco de Óculos. Na impossibilidade de se fabricar lentes, esse banco pode melhorar a visão dos que sofriam de miopia, presbiopia, hipermetropia e astigmatismo, à medida que era enriquecido pela doação de óculos das pessoas falecidas.

O livro deixa de abordar a solução encontrada para o vício da droga. Nos primeiros dias depois do Fim do Mundo, toda a cocaína, a heroína e o crac já tinham sido consumidos. As crises de pessoas com síndrome de abstinência eram um espetáculo deprimente que podia ser visto por toda a parte. Restava a maconha, que é para onde os viciados fugiram. O governo liberou o plantio, o comércio e o consumo da maconha e, como resultado, o vício da droga deixou de ser um problema de saúde e segurança pública. O consumo, que se presume tenha sido inicialmente muito elevado (não há estatísticas), decresceu à medida que as pessoas – jovens forasteiros, na sua maioria – foram se integrando na nova vida e na comunidade. Já no ano 15, fumava-se menos “baseado” do que cigarros feitos de palha de milho, que eram os únicos cigarros disponíveis.

Energia
Desde o momento zero, o instante do Fim do Mundo, nós nos vimos desprovidos de energia elétrica. Os depósitos de combustível se esgotaram rapidamente e tivemos de recorrer à lenha e ao carvão. A lenha era proporcionada pela mata derrubada para dar lugar à agricultura e o carvão era produzido nas carvoarias localizadas nas zonas de desflorestamento.

Devemos à competência e à tenacidade do Dr. Marcos Samikov a recuperação da Usina Hidrelétrica da Água Branca, que estava desativada desde 1986, ano em que a nossa rede elétrica foi conectada por um cabo submarino ao continente desaparecido. Contra todos os prognósticos, uma vez que não havia material nem ferramental apropriado, o engenheiro Samikov conseguiu reparar as turbinas, os transformadores e as linhas de transmissão e no glorioso dia 2 de abril de 4 o fornecimento de energia elétrica foi restabelecido. Era um fornecimento precário, como o é ainda hoje: apenas durante algumas horas por dia, com prioridade para alimentar as câmaras frigoríficas, os estabelecimentos públicos, as casas de saúde, as escolas, as fábricas e oficinas que produzem utilidades necessárias. A iluminação pública só foi ligada no centro da Vila e no Perequê, sendo que as residências continuaram a usar a luz dos lampiões e candeeiros.

A verdade é que sobravam bem poucas lâmpadas, tanto para postes como para abajures, e não havia a possibilidade de fabricar novas.

Um triste episódio ocorrido durante os trabalhos de recuperação da Usina da Água Branca não tinha porque constar do livro Nossa Única Terra. Foi um caso de morte acidental. Zuleika, a mulher do engenheiro Marcos Samikov, era pessoa ciumenta, autoritária e prepotente. Ela interferia nas mínimas ocupações do marido:

— O que você está rabiscando aí nesse caderno, hein?

— São cálculos, querida.

— Cálculos pra quê? Você não precisa calcular nada. Você não quer é conversar comigo!

Zuleika tinha mania de limpeza e ordem e vivia azucrinando o marido:

— Você não aprende mesmo, não é? Usou, guardou! Não sou sua empregada para ir recolhendo as roupas, os livros e as xícaras que você fica largando por aí. E eu já repeti mil vezes, não use pires como cinzeiro! O quê?! Vai tomar banho agora? Nada disso, acabei de limpar o banheiro. E joguei no lixo a papelada que você deixou no chão, viu?

Na véspera da inauguração, Marcos estava no interior da usina em companhia de seus assistentes, testando conexões, quando apareceu Zuleika:

— Marcos, olha só o fio que você largou solto no chão, aqui na entrada – disse a mulher, abaixando-se para apanhá-lo.

— Não, não pegue esse cabo! – gritou Marcos.

Em 20 anos de convívio, foi o primeiro grito do marido que ela ouviu. Mas não chegou a ouvir inteiramente, o cabo era de alta tensão.

A volta da eletricidade animou os adeptos da informática. Mas por pouco tempo. Logo ficou evidente que, sem renovação nem manutenção, a vida dos computadores seria muito breve. Muitos tabletops, laptops, palmtops e notebooks foram parar no Museu. Os que sobraram viraram brinquedo de crianças. As poucas máquinas de escrever que ainda existiam foram recuperadas e passaram a ser usadas nos escritórios, apesar da escassez de papel e enquanto houve fitas. As repartições públicas, os cartórios e os contadores voltaram a adotar a escrituração manual, porém abreviada – também por causa da falta de papel.

A volta da energia elétrica possibilitou a restauração de comunicações telefônicas, graças a uma antiga central de PABX e alguns velhos telefones de discar que foram encontrados. As linhas foram atribuídas aos principais serviços públicos. Centenas de telefones celulares se transformaram em sucata definitiva.

Transporte
De alguns pés de cana ornamentais achados em jardins, saíram as mudas que deram origem aos extensos canaviais plantados nas terras que tinham sido o Parque Estadual de Ilhabela. O Engenho d’Água voltou à atividade, tal como no século XIX, e emulou a construção de outros engenhos, alambiques e usinas produzindo primeiro açúcar, aguardente e depois também o álcool que permitiu colocar em movimento alguns carros desativados por falta de combustível. O mérito neste caso particular é todo da engenhosidade das oficinas. Seus mecânicos, adaptando carburadores, alternadores e praticando o “canibalismo” de peças, imitaram em boa medida a proeza dos mecânicos cubanos que conseguiram manter andando, durante décadas, a velha frota de carros do país, a despeito do bloqueio norte-americano (Ler Os Últimos Anos da Pré-história). A falta de baterias não era problema porque a esquecida manivela de dar partida foi ressuscitada. Entretanto, no nosso Novo Mundo, bastante mais exíguo, o carro a motor de combustão não conseguiu prosperar e virou peça de museu. Não havia como substituir os pneumáticos gastos, as avarias se acumulavam sem possibilidade de reparação ou substituição de peças. Isto explica porque a montaria e as carroças de tração animal acabaram sendo o meio de transporte universal.

O livro não menciona a malograda tentativa do engenheiro Vitor Oliva Assunção (72) de reinventar o gasogênio, engenhoca que existiu quando o Brasil sofreu escassez de gasolina, durante a Segunda Guerra Mundial. Na traseira dos automóveis era montado um enorme aparelho composto de dois cilindros e uma fornalha em que se queimava carvão. Este era transformado em gás, o gasogênio que, graças a um carburador especial, fazia o motor funcionar. Os carros andavam com esse trambolho aceso, soltando muita fumaça e explosões fora do tempo.

Vitor Oliva foi bem sucedido na construção de um ônibus. Sobre um chassi de caminhão ele montou um estrado e, sobre este, cinco fileiras de bancos. Duas parelhas de animais eram necessárias para puxar o veículo, que ficou bastante popular fazendo o trajeto Perequê –Vila de duas em duas horas.

O SUMIÇO DO MUNDO
CONTINUA!

Na próxima terça-feira
Capítulo 9
A civilização reinventada

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Tags: cultura, literatura, ficção, carlos knapp, fenômenos naturais, osumicodomundo, ilhabela, literatura fictícia

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