ponto-turístico-estradaparque

O SUMIÇO DO MUNDO - Capítulo 7

Publicado: Terça-feira, 17 de novembro de 2015 por Jéssica Ferrari


A velha história se repete

ACONTECEU NO CAPÍTULO 6:

O instinto de sobrevivência levou aqueles 24 mil herdeiros de todo o conhecimento acumulado em milênios de civilização, a subverter os valores pré-existentes e a reordenar a escala social. No alto colocaram-se os pescadores, plantadores, criadores e coletadores, logo seguidos pelos mercadores. Abaixo estavam os artesãos e na base aqueles cuja produção não era material, como os professores, administradores e artistas. Iroquês previra que o dinheiro seria substituído pelo escambo, mas o real voltou a circular, era mais prático negociar com ele. Seu valor nada tinha a ver com o passado. Não havia emissão de dinheiro novo e não existia inflação. Os preços só variavam de acordo com a velha lei da oferta e da procura. Os cidadãos que tinham sido abastados viram-se despojados de todo o poder e compelidos a trabalhar para poder comer. Alguns não se conformaram e recorreram à força. Organizaram-se em bandos que cobravam “direito de passagem” em certas vias e depois se converteram numa máfia que cobrava dos produtores uma “proteção” contra depredadores que eram instruídos por eles mesmos. A primeira assembleia geral dos habitantes daquele resto do mundo aprovou a proposta de Pedro Iroquês para a formação de uma milícia de cidadãos armados que prendesse os bandidos e patrulhasse as ruas. Dois dias depois a máfia estava desfeita, seu chefe e capangas encarcerados.

O episódio deixou claro que aquela sociedade precisava evitar a anarquia e se organizar sob um governo democrático. Uma nova assembleia dos cidadãos foi convocada para eleger seu novo chefe, governador ou o que fosse. Dois candidatos se apresentaram: Pedro Iroquês, com um programa de ações práticas nas áreas de abastecimento, trabalho, saúde, educação, energia e limpeza pública. E Doroteo Paz, pastor evangélico, cujo programa convocava o povo a se arrepender dos seus pecados para apaziguar a ira do Senhor.


PARA LER A ÍNTEGRA DO CAPÍTULO 6, CLIQUE AQUI.

A velha história se repete

Surpreendentemente, ganhou o pastor Doroteo, e por significativa maioria. Ele imediatamente tomou posse do prédio onde antes funcionara a Câmara Municipal e decretou a desapropriação de uma das mansões abandonadas da avenida Dona Germana, entre a Vila e o Hotel Itapemar, onde se instalou com sua família. Em seguida determinou que o seu título não seria Governador ou Presidente da República e sim Sumo Pontífice, sendo Sua Santidade o tratamento que lhe era devido. Suas primeiras medidas administrativas foram três: 1) nomeou o irmão Teodoro Paz (41) como sumo ministro; 2) mudou para Tabernáculo da Oração o nome da praça Coronel Julião e transferiu para esse logradouro (menos nos dias de chuva) os cultos até então celebrados em sessão contínua no interior do Templo do Deslumbramento Transcendental. As árvores da praça foram cortadas para melhorar a visibilidade; 3) instituiu o imposto divino compulsório (IDC), calculado em 10% sobre todo o rendimento auferido com trabalho ou qualquer tipo de produção, sendo que a porcentagem subiria a 15% caso o pagamento fosse feito em gêneros: 15% do peixe pescado, 15% do leite de cabra ordenhado, 15% da mandioca colhida etc.

O sumo ministro organizou imediatamente o aparelho de fiscalização e arrecadação, constituído por rapazes que se assemelhavam pelo corte escovinha dos cabelos e por andarem vestidos de terno e gravata. Eles passaram a percorrer os “estabelecimentos de produção” para cobrar o IDC e buscavam de modo truculento indícios de sonegação, casos em que aplicavam a multa no ato, confiscando 100% dos produtos encontrados.

Recrutando colaboradores entre os fiéis mais chegados, Doroteo e Teodoro montaram o Primeiro Governo do Mundo, distribuindo assim os ministérios: Enódino Miranda (31) para a Saúde; Robertyson Gomes (28) para a Justiça; Ladiley dos Santos (36) para a Educação; Guardete Conceição (34) para o Saneamento e Pantalebre dos Anjos (47) para o Transporte. O ministério da Polícia foi confiado a Giugitso Lopes (51) e o importante Ministério da Religião ficou com Erivaldo do Vale (27). O próprio sumo ministro acumulou o cargo de ministro da Fazenda. Cada um dos ministros, por sua vez, nomeou os funcionários de que necessitava e que coubessem nas suas dependências, uma sala para cada ministério na antiga prefeitura (que o povo logo passou a chamar de Vaticano), enquanto não fossem desapropriadas mansões para que cada ministério pudesse ter uma sede condigna. Apenas o ministério da Justiça já dispunha de um palácio natural, que era o edifício do Fórum, no Perequê.

A posse solene do governo deu-se na praça do Tabernáculo da Oração, seguida de preces, cânticos e queima do estoque de fogos de artifício descoberto no almoxarifado do Vaticano. Depois, foi a inação. Fora a diligente atividade de arrecadar impostos, nada mais aconteceu. O lixo continuou sem ser recolhido, as escolas sem aulas, os enfermos sem atendimento, a administração pública ausente. O ministério dos Transportes se limitava a mandar recolher em carroças os produtos confiscados pelos fiscais do IDC.

A gota d’água pingou quatro meses depois, quando o sumo pontífice mandou soltar Franz Genovesi e os seus capangas. Doroteo Paz revelou a decisão em praça pública. Era seu hábito dirigir-se ao povo, após as preces celebradas ao cair da tarde, para falar das resoluções de governo. Até então elas tinham sido irrelevantes, como, por exemplo, designar fiéis para revezar-se nos postos de observação permanente montados nas elevações com vista panorâmica do mar, em todo o perímetro da ilha, isto é, da terra: sua missão era avisar o governo assim que notassem a aproximação de alguma embarcação ou, a notícia mais esperada, a volta do continente sumido. A Igreja do Deslumbramento Transcendental não engolira inteiramente a hipótese do desaparecimento do resto do mundo.

Doroteo Paz justificou a libertação dos delinquentes como um ato de caridade cristã, dizendo que eles estavam arrependidos dos “gestos de desatino” e mereciam voltar para o rebanho do Senhor que tudo perdoa. Ao terminar, ouviu um surdo murmúrio de desaprovação. Ainda não tinha se recobrado da surpresa dessa leve manifestação de rebeldia do seu rebanho quando o sumo ministro Teodoro Paz, subindo ao estrado, aproximou-se reverentemente e lhe cochichou no ouvido a informação de que a guarda dos prisioneiros se recusara a libertar os condenados.

Doroteo teve de optar entre procurar naquele instante o apoio da massa (mas esta acabara de sinalizar que não o acompanharia) ou procurar impor a sua autoridade. Preferiu esta via e dirigiu-se na velocidade possível à sede do governo, embarcando na carroça conduzida pelo irmão. Na reunião dos ministros que se seguiu, todos já sabiam da crise em pormenores. Ao receber no condomínio Royal Residence a ordem de soltura, levada pessoalmente pelo chefe de gabinete do ministro Giugitso Lopes, o comandante do destacamento declarou que precisava consultar o seu superior imediato. Mandou que o chefe de gabinete esperasse e foi falar com Pedro Iroquês. A espera foi de quase uma hora, tempo que demorou a ida e volta à casa de Iroquês em bicicleta. Quando voltou, o comandante disse simplesmente: não vamos soltar ninguém. E fechou o portão.

Doroteo qualificou de muito grave esse ato de insubordinação da tropa e disse:

— A única explicação é que a oposição, isto é, esse tal de Iroquês, tenha sabido do nosso acordo secreto.

Doroteo interpelou então cada ministro, queria saber se algum deles tinha contado para alguém – mesmo de boa fé, sem querer, por exemplo para a mulher, naquela conversinha boba na cama, antes de dormir... – que Sua Santidade acolhera com benevolência a proposta de Franz Genovesi: um pacto prevendo substancial doação para as obras pias da Igreja do Deslumbramento Transcendental em troca da libertação dos condenados, já arrependidos e convertidos em devotos. Todos os ministros negaram a inconfidência. Alguns, como as ministras Guardete Conceição e Ladiley dos Santos, até ignoravam a existência do pacto.

— Está certo, não foi nenhum de nós quem falou, mas o fato é que só nós sabíamos – desabafou ironicamente Teodoro.

— O senhor ministro está se esquecendo do próprio Genovesi e seu pessoal – observou Sua Santidade. — Eles podem ter falado. De qualquer modo, não adianta chorar o leite derramado. Senhores ministros, respondam-me: com que forças podemos contar para sufocar a rebelião?

Seguiu-se uma discussão nervosa porém breve, uma vez que a reunião foi subitamente interrompida pela irrupção no plenário do próprio Pedro Iroquês, à frente de um pelotão de milicianos. Eles simplesmente empurraram para fora do edifício (que naquele instante deixava de ser o Vaticano) e para fora do poder aquele governo eleito pelo povo.

O golpe deu-se tão sem protestos, foi tão consentido, que Iroquês achou desnecessária a convocação de uma nova assembleia geral para legitimar-se. O alívio foi geral, especialmente quando Iroquês mandou reabrir todas as igrejas católicas e evangélicas, assim como as tendas espíritas e os terreiros de umbanda que tinham sido fechados por Doroteo Paz.

O SUMIÇO DO MUNDO
CONTINUA!

Na próxima terça-feira
Capítulo 8
O difícil recomeço

OS CAPÍTULOS SÃO PUBLICADOS SEMANALMENTE E PERMANECEM ON-LINE.

Tags: cultura, literatura, ficção, carlos knapp, fenômenos naturais, osumicodomundo, ilhabela, literatura fictícia

  • Comentários