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O SUMIÇO DO MUNDO - Capítulo 12

Publicado: Terça-feira, 5 de janeiro de 2016 por Jéssica Ferrari


Cegueira da justiça
Diabruras do Senhor

ACONTECEU NO CAPÍTULO 11:

A corveta só partiu na manhã seguinte, dia 10. Bordejou a margem oeste da ilha enquanto o comandante, usando alto-falante, comunicava ao povo que trazia o esperado socorro. Os ilhéus assistiram à sua passagem com alguma curiosidade, sem interromper seus afazeres. O barco atracou diante do píer da Praça da Bandeira, onde se formou um ajuntamento de gente meio ressabiada. Os primeiros a desembarcar, depois dos fuzileiros navais, foram os três oficiais das forças armadas. O comandante da expedição quis saber se entre os presentes havia alguma autoridade e Pedro Iroquês se apresentou como chefe da comunidade. Em poucas palavras relatou o que foi a luta pela sobrevivência daquela gente em 25 anos de absoluto isolamento. Entretanto, para os recém-chegados, tinham transcorrido apenas quatro meses... Iroquês explicou que, para os que viviam na Ilhabela, 2007 foi o ano do Fim do Mundo e a partir de então o tempo recomeçou a ser contado. 2008 passou a ser o ano 1 e assim por diante. “Aqui, hoje é 10 de dezembro de 2032”, concluiu.

Iroquês acompanhou os exploradores num passeio pelas redondezas enquanto o cinegrafista da Globo se atrevia a incursões mais profundas e suas imagens eram transmitidas em rede nacional. O mais chocante foi a visão de numerosos carros novos, entre eles alguns fabricados naquele mesmo ano de 2007, reduzidos à sucata: enferrujados, sem rodas nem estofamento, servindo de galinheiro ou brinquedo de crianças. Pouca gente nas ruas que, sem lojas, bares, hotéis, estavam vazias e pareciam tristes. Mas os mercados de comestíveis estavam animados, repletos de gente. Na escola estadual, todas as classes estavam em aula num dia que tinha tudo para ser feriado. Não houve o esperado “assalto” aos mantimentos e gêneros expostos na feirinha armada pelos marinheiros na praça. Os sacos de sal, açúcar, arroz e feijão sumiram rapidamente, mas o restante só despertou curiosidade, a maior parte dos produtos industrializados e mesmo os refrigerantes eram olhados com desconfiança. Essa primeira incursão foi seguida nos dias seguintes por numerosas outras, porém Ilhabela continuou em quarentena apesar da pressão de muita gente ansiosa para rever parentes, amigos e propriedades. Já na ilha, eram poucas as pessoas com pressa de voltar ao continente.


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Cegueira da justiça

Pedro Iroquês, convocado a comparecer perante a CEIFI, em São Sebastião, fez um minucioso depoimento sobre as ocorrências na ilha desde 9 de agosto de 2007. As interpelações a que foi submetido e as acaloradas discussões no plenário, às vezes suscitadas por pormenores de discutível significado, lembravam as sessões das CPI no Congresso Nacional. O depoimento se estendeu por três dias. Enquanto isso, Gesualdo e seus companheiros continuavam sendo “hóspedes” da polícia, que os alojou numa pensão da cidade, de onde só podiam sair de dois em dois, e sob escolta. Seria uma custódia provisória, até que tudo se esclarecesse. O promotor Protorosário e o delegado Flausino cotejavam atentamente as declarações de Iroquês na CEIFI com as declarações dos quinze registradas em ata.

Iroquês estava preso? Sua demora e a falta de notícias de Gesualdo e seus catorze companheiros provocavam uma crescente inquietação na ilha, devidamente observada pelas autoridades que lá realizavam suas investigações. Ao alvorecer do dia 16 de dezembro, o almirante Franchotone foi despertado pelo titilar do telefone reservado para emergências extremas. Do outro lado falou o capitão-de-corveta Nigel Neto:

— Perdão por incomodá-lo a esta hora imprópria, meu almirante.

— O que há?

— Uma situação deveras inusitada se configura aqui no porto.

— Diga.

— Esta madrugada uma flotilha de pequenos barcos dos mais variados calados, todos à vela, possivelmente procedentes da ilha, são ao todo 47 embarcações lotadas de gente...

— Desembuche logo, capitão!

— Elas se aproximaram sorrateiramente e se postaram à entrada do porto da cidade, bloqueando-o.

— Estão armados?

— Não me parece. Mas nós não poderemos zarpar sem o consentimento dessa gente. A não ser à galega, abalroando-os. Ou abrindo fogo. Peço suas instruções, almirante.

— Hummm... Procure saber o que pretendem e torne a me ligar.

Dali a 10 minutos o capitão liga de novo:

— Meu almirante, dizem que é um protesto pela detenção de seu líder Pedro Iroquês. Que só irão embora levando Iroquês e também Gesualdo e os quatorze outros que continuam presos.

— Isto é ultimato?

— É o que parece!

— Catorze.

— Como?

— O senhor disse quatorze. Está em desuso. É mais certo dizer catorze.

Naquela tarde Iroquês, Gesualdo e os catorze foram transladados à ilha depois de assinar um termo de conduta que os obrigava a permanecer confinados na ilha, à disposição das autoridades policiais e judiciais, enquanto durassem as investigações. Não permitiram que Gesuina acompanhasse Gesualdo, prometendo-lhe vagamente um salvo-conduto quando a quarentena fosse relaxada. Ao assinar o alvará de soltura, o delegado Flausino comentou:

— Essa mulher... “mãe” dele? Essa é boa...

Não foi só por causa do bloqueio do porto que Iroquês e os demais foram recambiados à Ilhabela. Por meio de Medida Provisória aprovada em regime de urgência urgentíssima, o governo federal instituiu a Superintendência de Reintegração da Ilhabela ao Brasil - Suribra, órgão que devia assumir imediatamente o governo da ilha. Era importante que Pedro Iroquês e seus colaboradores estivessem à disposição para realizar a transição. Os membros da CEIFI, extinta pelo mesmo ato, foram nomeados e empossados como primeira diretoria da Suribra, cuja missão era promover a reintegração do território e seus habitantes ao Brasil e (detalhe significativo) ao tempo presente. Tinha amplos poderes para, entre outros:

a) empregar todos os meios científicos ou paracientíficos conhecidos para apurar os acontecimentos físicos e metafísicos que pudessem ter provocado a desaparição da Ilhabela;

b) restaurar na ilha todos os direitos da cidadania, assim como a plena vigência da Constituição em todos os seus aspectos;

c) mediar e solucionar conflitos de interesse, decorrentes dos acontecimentos, com privilégio da via da arbitragem;

d) restabelecer a segurança pública, o pleno cumprimento das leis e a normalização da ordem econômica e social;

e) promover a reparação financeira das pessoas físicas ou jurídicas comprovadamente prejudicadas pelo infausto fenômeno.

f) estimular a retomada da atividade econômica.

Uma das primeiras deliberações da Suribra foi instalar-se na própria sede do governo da Ilha, na antiga Câmara Municipal. Contudo, a diretoria preferiu continuar funcionando em São Sebastião – não porque temia (como insinuaram as más línguas) um novo sumiço da ilha, e sim porque a localização facilitaria os contatos políticos e técnicos necessários ao desempenho da sua missão. Para a ilha foi enviado o primeiro escalão de servidores e seus auxiliares que, juntamente com Pedro Iroquês, seus secretários e os membros do Conselho de Governo, compuseram as comissões mistas da transição.

Pedro Iroquês e os integrantes do seu governo demonstravam uma sincera vontade de cooperar. Informavam, esclareciam, buscavam depoimentos, relatavam episódios, comprovavam números e informações. Era uma equipe solidária, empenhada em comunicar ao governo do Brasil tudo o que havia sido feito para possibilitar uma vida digna àquela comunidade, durante seus 25 anos de completo isolamento.

O clima de entendimento e concórdia que dominava os trabalhos da transmissão do governo da ilha para a Suribra se transformou em mal estar quando se instaurou oficialmente o inquérito policial para apurar as responsabilidades pelos crimes que teriam ocorrido em Ilhabela: sedição, usurpação de poderes constituídos, apropriação de bens públicos, dilapidação do erário municipal, desmatamento do Parque Estadual, estímulo ao consumo de drogas alucinógenas e estelionato da população pela extorsão de “impostos”. Os policiais federais encarregados do inquérito passaram a usar a estrutura da Suribra e lá interpelavam o pessoal de Iroquês, armavam diligências e apreendiam documentos. Era a “Operação Algonquin”, assim denominada porque algum entendido em história da América do Norte disse que os índios algonquins eram inimigos dos iroqueses. As intenções da Suribra e da polícia eram opostas e o conflito de autoridade logo se manifestou, exigindo uma intervenção enérgica de Brasília.

Aconteceu então um depoimento que teve o mérito de esvaziar boa parte das denúncias do inquérito. Convocado pela polícia, um assustado e envelhecido Doroteo Paz (63) contou que fora eleito governador por aclamação popular, num sistema de eleição americano, após o quê se havia auto-intitulado sumo pontífice do mundo. Confessou ter instituído um imposto “abusivo” para exclusivo benefício da sua igreja, do Deslumbramento Transcendental, o qual era cobrado por “um sistema mafioso”. Doroteo reconheceu ter recebido dinheiro de Franz Genovesi, o líder dos bandidos do ano 1, a fim de anular a pena de prisão a que este e seus capangas tinham sido condenados por júri popular. Admitiu que esses fatos precipitaram a sua destituição e substituição por Pedro Iroquês cuja administração, disse ainda Doroteo, sempre contou com a aprovação de toda a população, até mesmo a sua.

Diabruras do Senhor

Parte importante do inquérito policial era a investigação de eventuais irregularidades nos cartórios de Ilhabela. Fora a desapropriação de numerosos imóveis abandonados e a sua atribuição a moradores, nada de notável foi observado nos assentamentos do Registro de Imóveis. Mas o Registro Civil apresentava incoerências gritantes, que só seriam explicáveis se fosse admitida a hipótese de que o tempo transcorrido na ilha foi um e no resto do mundo foi outro. Impecavelmente manuscritos, os livros registravam todos os óbitos e nascimentos ocorridos até o fim de 2007, a partir de quando os anos passaram a ser os do calendário pós Fim do Mundo. Lá estavam assentados, por exemplo, os óbitos de algumas pessoas mencionadas neste relato:

Nicolau Pacheco, falecido em 9 fevereiro de 17, aos 79 anos;

Teodoro Paz, falecido em 13 de maio de 22, aos 63 anos;

Zuleika Samikov, falecida em 7 de julho do ano 4, aos 60 anos;

Max G. Fisher, falecido em 26 de janeiro de 21, aos 80 anos;

Juvêncio Azevedo, falecido em 18 de outubro de 12, aos 78 anos;

Franz Genovesi. falecido em 2 de agosto de 15, aos 87 anos;

Consuelo Suarez, falecida em 29 de março de 05, aos 88 anos;

O juiz de paz, Dr. Jesus Maria Rosenzweig, que chefiava a comissão de investigação sobre irregularidades do Registro Civil, observou que, a aceitar como válida a cronologia adotada na ilha, na qual o ano 1 equivalia a 2008, tais pessoas tinham morrido no futuro! Essas e todas as pessoas cujo falecimento estava assentado nas folhas correspondentes aos anos 1 a 25!

A possibilidade de alguém “já ter falecido em ano futuro” era corroborada pelo registro das crianças nascidas no mesmo período, dos anos 1 a 25. Segundo os livros, o nascimento de todos esses jovens, com idades entre 24 e 1 ano, não se dera até 2007 ou em qualquer ano anterior, quando os assentamentos ainda eram feitos pelo calendário antigo. Uma pessoa registrada no ano 4 tinha realmente a aparência e a compleição de um jovem de 21 anos, isto é, de um jovem nascido em 1986. Ora, no cartório havia o registro de centenas de pessoas nascidas entre os anos 1 e 25. Eram anos posteriores a 2007, mas nós estávamos ainda em 2007... Portanto o cartório registrara nascimentos que só ocorreriam no futuro. Mas as pessoas já existiam, boa parte delas já eram adultas!

Na investigação, o juiz Rosenzweig contou com a diligente assistência da escrivã Regina Matias, que era a própria autora de todos os assentamentos realizados naquele cartório nos últimos 25 anos. Sua competência e probidade estavam acima de qualquer suspeita. Pelo sim, pelo não, o juiz intimou algumas das pessoas nascidas entre os anos 1 e 25 a comparecer ao cartório portando suas certidões de nascimento.

Essas pessoas foram avaliadas por um clínico geral, dois assistentes sociais e um antropólogo. Enquanto isso, as respectivas certidões de nascimento eram conferidas. Não houve nenhuma dúvida quanto a autenticidade dos documentos e cada indivíduo exibia uma compleição física compatível com a idade alegada, devidamente atestada pelos doutores. A própria escrivã quis participar desse teste de “defasagem no tempo”. Apresentou certidão de nascimento, RG e holerite comprovando que era natural de São José dos Campos, nascida em 1954. Ela tinha, portanto, 53 anos. Mas sua aparência era de uma senhora idosa de 78 anos (ninguém discordou) e ela sabia que tinha vivido plenamente cada um desses 25 anos adicionais. Dona Regina tinha duas idades, uma no calendário gregoriano e outra no calendário pós fim do mundo. E este não cabia naquele!

Depois de penosas e demoradas tentativas, o juiz e a escrivã conseguiram redigir e emitir um certificado que foi também assinado pelo antropólogo, o clínico geral e as duas assistentes sociais. O certificado dizia:

Mediante o meticuloso cotejo entre as idades autênticas e as idades aparentes de diversos cidadãos, conduzido neste Registro Civil de Ilhabela, certificamos a ocorrência de um fenômeno inexplicável, segundo o qual toda uma população de mais de 23.000 (vinte e três) mil pessoas pode ter sofrido a passagem de 25 (vinte e cinco) anos no tempo de 4 (quatro) meses, precisamente entre 9 (nove) de agosto e 9 (nove) de dezembro de 2007 (Dois Mil e Sete). Como tais 25 (vinte e cinco) anos foram efetivamente vividos sem que tenham transcorrido no passado nem possam transcorrer no futuro, este cartório transfere a instâncias superiores da Ciência e da Justiça o problema de inserir no calendário o tempo de existência das referidas pessoas.

Esse documento foi decisivo para o esclarecimento de muitas contradições e não poucos conflitos. Mas era só um papel, não era capaz de comunicar a noção plena de uma realidade perversa, para alguns uma diabrura de Nosso Senhor que lembrava as maldades infligidas pelos deuses da mitologia grega aos seres humanos.

Os tão esperados reencontros de pessoas separadas pelo sumiço da ilha passaram a acontecer assim que a quarentena foi relaxada. As câmaras de TV registravam esses momentos, um mais penoso do que o outro. Maridos ansiosos por abraçar as esposas, depois de apenas quatro meses de separação forçada, não as reconheciam e as repudiavam usando expressões como:

“Você não se enxerga, velhota?”
“Por favor, suma da minha frente!”
“Tire as suas mãos de cima de mim.”
“Socorro! Esta bruxa não é minha mulher...”

Do mesmo modo, esposas não reconheciam maridos e pais não podiam crer que aqueles adultos de meia-idade fossem seus filhos. Foram momentos de desespero e choradeira geral. Lenta e penosamente, os protagonistas desses dramas eram forçados a perceber que não havia engano de pessoa, que aquela era mesmo a mulher, aquele era o marido, aquele era o filho ou a mãe procurados.

Não menos doloridos foram os encontros no cemitério. O ente querido já não vivia e lá estava enterrado com nome e datas gravados em tosca lápide. Era difícil de se conformar com essa brutal realidade e alguns de fato não se conformavam, acabavam requerendo exumação e teste de DNA.

As provas de que 25 anos tinham efetivamente transcorridos na Ilhabela se acumulavam. Entre elas, surgia a inquestionável evidência do crescimento demográfico. A população passara de 23.886 em agosto de 2007 para 30.000 no ano 25 (ou dezembro de 2007), um aumento de 32,5% impossível de acontecer em apenas quatro meses.

O Ministério da Justiça acabou baixando a portaria 782/07, definindo e regulamentando a questão. Ela foi cuidadosamente redigida nestes termos:

Considerando que em 9 de agosto de 2007 ocorreu no município de Ilhabela um fenômeno de natureza inexplicável, pelo qual um número de cidadãos avaliado entre 23 e 30 mil pessoas passou a existir dentro de um período fora da realidade temporal;

Considerando que esse período fora da realidade temporal teve a duração de 25 anos, enquanto na realidade temporal transcorreram apenas quatro meses;

Considerando que não há como inserir no calendário gregoriano, seja no tempo passado, seja no tempo futuro, esse período de 25 anos transcorrido fora da realidade temporal;

Considerando que as pessoas submetidas ao referido fenômeno inexplicável sofreram a ação do tempo e que durante esse período de 25 anos tais pessoas exerceram toda a sorte de atividades, das quais decorrem consequências legais, econômicas, políticas e pessoais;

O Ministro da Justiça, usando de suas atribuições, decreta:

Artigo 1. fica instituída uma cronologia extra-calendário composta de 25 anos enumerados de 1 a 25.

Parágrafo único, para distinguir-se dos anos do calendário gregoriano, os 25 anos extra-calendário serão identificados pelas letras DFM, maiúsculas, agregadas ao numeral do ano.

Artigo 2. Os 25 anos extra-calendário, para todos os efeitos legais, serão considerados como transcorridos entre 9 de agosto de 2007 e 9 de dezembro de 2007.

Artigo 3. Os 25 anos extra-calendário serão usados para datar todos os fatos ocorridos exclusivamente Ilhabela, durante o período em que o município esteve ausente da realidade temporal.

Artigo 4. Revogam-se as disposições em contrário.

Alguns dias após a instituição da Suribra, apresentou-se ao seu escritório em São Sebastião o Dr. Joano Strauss Neto, em cujo cartão de visita constava “Prefeito de Ilhabela”. Ele solicitava uma audiência com o presidente, almirante Franchotone Pereira Miranda. Foi recebido por seu secretário executivo, a quem informou que, atendendo a um apelo das bases, iria reassumir a prefeitura nos próximos dias.

— O senhor já foi visitar o município? – perguntou o secretário.

— Ainda não. Espero, obedientemente, o levantamento da quarentena.

— Mas o senhor tem notícias, não tem? Sabe das profundas mudanças, podemos dizer mutações, que a ilha sofreu nesses 25 anos?

— 25 anos?! – espantou-se Joano Strauss.

— O senhor conhece a portaria 782/07 do Ministério da Justiça?

— Não. Já foi publicada no Diário Oficial?

— Sim, e foi convertida em decreto-lei federal...

— Essa portaria ou lei trata de que matéria, exatamente?

— O senhor trate de ler. Se depois disso ainda achar que pode voltar a ser o prefeito de Ilhabela, volte aqui. Boa tarde e passar bem – disse o secretário, abrindo a porta para o ex-prefeito sair.

A Suribra lamentou ter de responder negativamente a um pedido de informação recebido da Itália por via diplomática: nada sabia do paradeiro do Costa Chimera. A única informação era que dois dias depois do “fim do mundo” isto é, havia quatro meses (ou 25 anos), o transatlântico zarpara da Ilhabela com destino a Gênova, levando pelo menos 900 passageiros. Estes, mais a tripulação, constituíam cerca de 95% do total de vítimas do sumiço da Ilhabela. Não podiam ser considerados vítimas fatais, na opinião dos otimistas, porque poderiam reaparecer, sãos e salvos, tal como os habitantes da própria ilha. No entanto, os pessimistas lembravam que as provisões e a água a bordo do transatlântico eram apenas suficientes para duas semanas, não para 25 anos.

Outro pedido recebido pela Suribra procedia da Espanha e solicitava informação sobre o estado do veleiro Ariana, que se encontraria fundeado no Iate Clube Ilhabela. Seu proprietário desejava recuperá-lo. A resposta, nesse caso, teve de ser longa, relatando a iniciativa do navegador Almir Clicquet que, em 24 de agosto de 2007, partira com três embarcações, sendo uma delas o veleiro Ariana, com o objetivo de redescobrir o mundo. A resposta mencionava também a garantia bancária de reposição do valor de mercado do barco, no caso de sua perda, eventualidade que infelizmente parecia configurada. Assim, iniciou-se uma tensa correspondência entre os advogados de Santiago Beaulieu, o dono do barco, as autoridades da Suribra e o banco MFHB, que deveria reconhecer e honrar um cheque de elevado valor, a favor do Sr. Beaulieu, emitido por seu presidente, Max G. Fisher, já falecido.

Uma pequena notícia do Chile interrompeu inesperadamente essas tratativas. Ela dava conta do salvamento de um veleiro Amel 54 encontrado à deriva, ao largo de Isla Negra. A bordo havia uma única pessoa, uma mulher desfalecida, desidratada, quase agonizante. A revelação de que se tratava do barco Ariana procurado na Ilhabela levou o assunto para as primeiras páginas dos jornais. Como, tendo desaparecido juntamente com a Ilhabela, no litoral brasileiro, o veleiro reaparece na costa do Chile, quatro meses depois? Sem tripulação, nem mesmo o seu skipper? Foi preciso esperar que a jovem mulher, internada na UTI do hospital de Viña del Mar, estivesse em condições de responder às perguntas da polícia e, depois, dos jornalistas. Aqui está um resumo da gravação do seu depoimento.

A mulher declarou chamar-se Carmen Debizet Rocha, natural de São Paulo. Disse que se escondera como clandestina no Ariane, quando o navegador Almir Clicquet se preparava para partir de Ilhabela em busca do mundo desaparecido. Não, não havia outras pessoas a bordo. Contou que juntamente com dois outros veleiros, maiores, o Ariane viajou para o norte, sem nunca avistar a costa do Brasil. Depois navegou durante semanas e semanas, sempre para o oriente, sempre buscando terra sem nunca encontrar.

— Onde ficou o navegador Clicquet? – quiseram saber os jornalistas. — Ele passou para um dos outros barcos?

— Não, os outros barcos se desgarraram durante uma tempestade e nós nos vimos sós. À medida que a viagem continuava e os dias passavam, fomos perdendo toda a esperança. Almir fez cálculos e traçou um rumo que, na pior das hipóteses, nos conduziria de volta à Ilhabela.

— Mas o que aconteceu com ele? – insistiram.
Neste ponto, Carmen começou a se emocionar:

— No começo ele me odiava. Eu era uma intrusa e ele me tratava como empregada doméstica. Eu, que nunca tinha mexido uma palha, tive de aprender a cozinhar, lavar, arrumar. Depois ele foi me aceitando... também, o que fazer? Não podia me jogar no mar, não é? Tornamo-nos amigos e ele me ensinou a navegar. Acabei tendo que manobrar o barco sozinha porque ele foi ficando doente, muito doente. Não sabíamos o que podia ser; Almir definhava a olhos vistos, cada dia estava visivelmente mais velho. Ele mesmo se olhava no espelho e não acreditava no que via. Nem eu acreditava. Não era só a aparência, ele estava enfraquecendo, ficou fraquíssimo. Caía com facilidade, não era mais capaz de andar pelo barco com mar grosso... Há uns quinze dias, sofreu um tombo feio, rolou a escada e fraturou uma perna. Improvisamos uma tala que pouco adiantou. A perna inchou, doía muito e ele passava os dias deitado, pouco comia. Uma manhã... não encontrei Almir na cama, nem no banheiro, nem em nenhum lugar do barco. Ele resolveu ir embora, terminar o sofrimento. Ele pensou também que o pouco de água e comida que restava não ia dar para nós dois chegarmos vivos à ilha...

O último lançamento no diário de bordo do Ariane, meticulosamente preenchido por Almir Clicquet desde 24 de agosto de 2007, diz o seguinte:

8 de dezembro, 2007:
Não tenho mais forças para prosseguir. Desisto, na esperança de que Carmen consiga levar o barco a seu destino final, a volta ao ponto de partida. Infelizmente, parece que Ilhabela é mesmo a única terra que resta no mundo.

Mário Duarte Rocha, foi buscar a mulher, Carmen, no Chile. Ele foi disposto a perdoar todas as loucuras da menina, e perdoou. Num encontro íntimo, longe das câmeras, ele abraçou e beijou com amor uma pessoa adulta, equilibrada, em nada parecida com a cabeçinha de vento que tinha sumido. Magérrima, com os cabelos mal tratados e a pele estragada pelo sol, ela continuava uma garota linda no esplendor dos seus 21 anos. Talvez cansado da brincadeira, o Todo Poderoso se esquecera dela e só cobrara de Almir o preço cruel da longa viagem no tempo...

Carmen e Mário se comportaram discretamente e tentaram voltar incógnitos a São Paulo. Não conseguiram. Foram descobertos pela mídia e a odisseia da moça e do célebre navegador foi mais um episódio dessa história fantástica que emocionava a opinião pública mundial. Todos os dias, multidões de olhos e ouvidos ansiosos buscavam na imprensa, na televisão ou na internet a revelação de um novo pormenor dessa fábula real, em que uma comunidade de 24 mil pessoas é transportada para um outro espaço-tempo e lá sobrevive por 25 anos.
 

O SUMIÇO DO MUNDO
CONTINUA!

Na próxima terça-feira
Capítulo 13
Nem tudo vai bem no melhor dos mundos
Como sempre, erro dos economistas


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