Cultura

Publicado: Quinta-feira, 5 de junho de 2014

Itu e Japão: uma relação que vai muito além das quatro linhas

Cidade foi uma das primeiras a receber imigrantes japoneses.

Crédito: André Roedel/Itu.com.br Itu e Japão: uma relação que vai muito além das quatro linhas
Festa Japonesa em Itu mantém a tradição culinária e cultural de uma das maiores colônias da cidade

Por André Roedel

A relação de Itu com o Japão é antiga – e não se restringe ao fato de nossa cidade receber, durante a Copa do Mundo, a seleção de futebol do país oriental. Os primeiros registros desse relacionamento datam de 1908, ano em que começou a imigração japonesa para o Brasil. Foi em terras ituanas que parte do primeiro grupo de isseis (como são chamados os imigrantes japoneses) iniciou essa longa e forte ligação entre países com culturas tão distintas.

Hoje, Itu é casa de diversas empresas multinacionais do Japão e de muitos e muitos nisseis, sanseis e yonseis – respectivamente filhos, netos e bisnetos de japoneses. A afinidade entre a terra dos Exageros e a do Sol Nascente definitivamente não se resume apenas ao futebol. Por isso, o Itu.com.br foi atrás de histórias e personagens que colaboraram na solidificação dessa relação de mais de 100 anos. Confira tudo isso em nossa matéria especial!

O início

O ano era 1908. O cenário, a Fazenda Floresta. Foi lá que cerca de 170 imigrantes japoneses, vindos em sua maioria da província de Okinawa através do legendário navio Kasato Maru, iniciaram essa centenária relação entre Itu e o Japão. Composto praticamente apenas por agricultores, o grupo ficou pouco tempo na cidade, mas o suficiente para fincar suas raízes em solo ituano.

“Itu recebe em 1908 essa primeira leva de imigrantes japoneses, que vai se instalar na Fazenda Floresta, que na época era de propriedade de Godofredo da Fonseca”, explica Anicleide Zequini, especialista do Centro de Estudos do Museu Republicano de Itu. Anicleide também relata que a saída precoce dos imigrantes da cidade se deve ao fato de eles não terem se adaptado à agricultura cafeeira, por isso foram para outras cidades.

Mas há outra explicação: de acordo com o livro “O Imigrante Japonês: História de sua vida no Brasil”, de Tomoo Handa, um dos principais motivos da debanda se deve ao fato de que os imigrantes “foram levados pelo sonho de ganho fácil e fugiram”, já que muitos deixaram dívidas de viagem no Japão. Mais para frente na história, Itu volta a receber imigrantes japoneses, porém não de maneira oficial como ocorreu em 1908.

Os detalhes sobre a vinda dos primeiros japoneses para Itu você confere no artigo intitulado “A Imigração Japonesa em Itu”, assinado pela própria Anicleide Zequini e também por Aline Antunes Zanatta, ambas do Museu Republicano. Confira aqui!

Tradição

Maeda, Katahira, Inoki... Você certamente já deve ter lido estes nomes em propagandas e placas comerciais pela cidade. Mas eles não surgiram do nada: são os sobrenomes de famílias que vieram do Japão ganhar a vida em Itu. Uma delas, a Katahira, por anos manteve na cidade uma das principais lojas de fotografia da região. Seu Yoshihiro, filho de Ryochi Katahira – fundador da tradicional Foto Katahira – contou sobre a vinda de seus pais para o Brasil.

“Meu pai veio a convite do meu tio. Naquela época os imigrantes tinham que formar família com pelo menos quatro adultos para trabalhar. Meus tios convidaram meus pais e eles vieram”, comenta seu Yoshihiro. Apaixonado por fotografia, seu Ryochi registrou todos os seus passos desde o Japão, passando pela África, até chegar ao Brasil.

Seu acervo foi usado em uma exposição feita pelo Museu Paulista da USP em 2008, ano que a imigração japonesa completou 100 anos. Essa mostra fotográfica será realizada novamente no período da Copa do Mundo, em data a ser definida, no Museu Republicano “Convenção de Itu”. Para saber mais sobre a família Katahira, clique aqui. Você também pode conferir a saga da família Maeda clicando aqui.

Cultura

Hoje a cultura nipônica é mantida na cidade através da Associação Cultural Esportiva Nikkey de Itu, a ACENDI. Inaugurada oficialmente em fevereiro de 1987, a entidade realiza diversas atividades voltadas para as famílias de origem nipônica que hoje residem no município. Há quatro anos, a ACENDI também promove, em parceria com a Prefeitura de Itu, uma festa japonesa no Centro.

A Festa Japonesa de Itu deste ano terá um gosto especial. E não falamos apenas das delícias da culinária nipônica, mas sim por conta do fato de Itu receber a seleção de futebol do país oriental no mesmo período em que a festa acontece (dias 14 e 15 de junho). Para celebrar, o governo municipal deverá exibir a partida entre o Japão e Costa do Marfim, que acontece no dia 14 na Arena Pernambuco, em um telão.

O futebol nas duas terras

Apesar de todos os outros pontos em comum entre Itu e o Japão, um dos que se destacam é mesmo o futebol. A relação das duas terras no esporte mais popular do mundo não é tão antiga, mas é forte. Tanto é que hoje existe um campeonato que reúne equipes locais e japonesas para um intercambio cultural e esportivo na cidade: é o Torneio Brasil/Japão, que em 2014 chegou a sua terceira edição.

Para Carlinhos Bertagnolli, secretário de Esportes de Itu, essa troca de experiências entre brasileiros e japoneses é muito positiva. “Eu tenho acompanhado nas últimas edições a disciplina, o respeito que eles (japoneses) têm no local onde estão alojados, isso é uma coisa que os brasileiros também têm que aprender. A gente percebe que essa troca de experiência é válida”, disse ele durante a abertura da edição 2014.

E existem também casos de jogadores da cidade que se aventuram do outro lado do mundo. É o caso de Pereira, que jogou no Ituano FC e foi defender as cores do Verdy Kawasaki (hoje Verdy Tokyo) no início da década de 1990. O ex-zagueiro até hoje é lembrado pelos torcedores japoneses pela sua excelente passagem pela J-League (a liga de futebol do Japão), onde chegou a receber o prêmio de “jogador mais valioso”.

“Posso chegar hoje lá com quase 15 anos que parei e eles lembram, sou reconhecido na rua. É um respeito muito grande”, conta o ex-jogador. “O respeito que tem o povo japonês pelos ídolos é pra sempre”, diz Pereira, que hoje trabalha nas escolinhas de futebol da Secretaria Municipal de Esportes. Para saber mais sobre a carreira deste craque do futebol japonês, clique aqui.

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