A Geração ISEB
As atividades começaram quando Juscelino Kubitschek assumiu.
Deborah DubnerPor Neusa Fernandes, Pós-doutora, historiadora e museóloga
O Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB- foi um centro de estudos criado pelo Decreto n. 37.608, de 14 de julho 1955, ainda no Governo de Café Filho, vinculado ao Ministério da Educação e Cultura. Foi inspirado em um projeto do professor Alberto Torres, do início do século, na época dos grandes diagnósticos do Brasil, e esboçado pelo Grupo Itatiaia, que reunia intelectuais do Estado do Rio de Janeiro e de São Paulo, defensores de um nacionalismo menos radical que o nele defendido. O Grupo Itatiaia era liderado pelo professor Hélio Jaguaribe que articulou uma instituição denominada Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP). Esta instituição foi responsável pela edição da Revista Cadernos de Nosso Tempo (1953 a 1956) e que viria a se constituir no núcleo do futuro ISEB.
O ISEB iniciou suas atividades quando Juscelino Kubitschek assumiu a presidência da República. Com plena liberdade de cátedra, caracterizou-se por promover o debate sobre os problemas nacionais.Constantes na pauta das discussões promovidas pelos intelectuais do Instituto estavam a filosofia, a história, a economia, a sociologia, a política e a cultura. O principal objetivo da instituição era servir de instrumento para o desenvolvimento de uma ação política na conjuntura econômica e social brasileira dos anos 50, formando quadros para o Estado e para a sociedade brasileira. Para tanto, apresentava-se como um órgão de vanguarda do pensamento desenvolvimentista , reunindo os mais conceituados intelectuais da esquerda, da direita ou do centro. Conviviam no ISEB liberais, socialistas, marxistas, democratas, nacionalistas e antinacionalistas, defensores do capital estrangeiro, como o economista Roberto Campos, enfim nomes como: Ignácio Rangel, Miguel Reale, Sérgio Buarque de Holanda, Hélio Jaguaribe, Guerreiro Ramos, Cândido Mendes de Almeida, Cândido Motta Filho, Josué de Castro, Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré, sob a direção do filósofo paulista Roland Cavalcanti de Albuquerque Corbisier.
Era o ISEB constituído de cinco departamentos: o de filosofia, chefiado pelo professor Álvaro Vieira Pinto; o de História, chefiado pelo professor Cândido Mendes, com coordenação no curso de História Brasileira do pensador marxista e militar Nelson Werneck Sodré; o de Sociologia, chefiado pelo sociólogo Alberto Guerreiro Ramos; o de Ciência Política, chefiado por Hélio Jaguaribe; o de Economia com Evaldo Correia Lima, cujo mais destacado colaborador foi Ignácio Rangel.
Apesar das diferentes convicções filosóficas, pode-se detectar que o nacionalismo e o desenvolvimentismo estavam no centro das metas isebianas. Esses pensadores acreditavam que poderiam formular um projeto ideológico comum para o País.
Afinados com a política desenvolvimentista de JK, os intelectuais do ISEB receberam apoio do presidente que, em declarações públicas, prestigiou a instituição, definindo-a, como um centro de estudos e pesquisas, que se diferenciava dos demais órgãos universitários por estar voltado para o estudo dos problemas brasileiros.. Entretanto, JK criou o Conselho de Desenvolvimento exatamente com essa tarefa e a ele não pertencia nenhum membro do ISEB.
O ISEB, além da publicação de livros e da realização de seminários de estudos e da promoção de pesquisas, oferecia cursos e outras atividades intelectuais.. Entre elas, empenho maior na organização dos debates políticos, cuja tônica era sempre o desenvolvimento nacional e a construção de uma ideologia do desenvolvimento, visando ao processo de transformação, à possibilidade de diminuir os abismos sociais, quando o estágio de uma sociedade industrialmente desenvolvida fosse atingido.
Ao longo de sua existência, podemos distinguir dois momentos na vida do Instituto. O primeiro (1955-1959) foi o da criação, que coincidiu com o período desenvolvimentista do governo JK. Nessa fase, o grupo de intelectuais aderiu à candidatura JK.
Vale lembrar que na década de 50, a ideologia do desenvolvimento nacional era o idioma político alavancado pelo presidente “bossa nova”, que deu a grande virada do capitalismo brasileiro, construindo a nova capital, favorecendo a entrada de tecnologia e capital estrangeiro, correndo à sombra do desejo da nação em superar o seu atraso.
O segundo e último momento do ISEB foi a fase que criticou as teses desenvolvimentistas. Decorridos cinco anos do governo, a realidade indicava que o país crescera economicamente, com a consolidação do capitalismo industrial, mas não tinha resolvido seus problemas sociais e as desigualdades tinham aumentado. Nessa fase houve uma maior politização e homogeinização ideológica do instituto norteado pelos filósofos Vieira Pinto e Roland Corbisier e pelo historiador Nelson Werneck Sodré, que privilegiavam as mudanças sociais, econômicas e as reformas de base defendidas pelo governo João Goulart, acompanhando a radicalização do país. Esses três intelectuais foram as referências dessa segunda fase..
O ISEB assumiu uma posição mais agressiva na crítica dos lucros das empresas estrangeiras, da remessa de lucros, da distribuição de renda e da transformação da estrutura agrária. A harmonia de idéias sofreu fissuras no ano de 1958, uma crise que provocou uma cisão, nas palavras de Nelson Werneck Sodré, “ inoportuna, inadequada, sectária”. De um lado, estavam os que defendiam maior participação do capital estrangeiro, isto é, apoio à plataforma do governo. De outro lado, ao contrário, os que desejavam radicalizar a posição nacionalista.
Após a crise, o ISEB reformulou suas atividades, ampliando os seus cursos, até então dirigido a alunos indicados pelo serviço público, a exemplo do que já fizera a Fundação Getúlio Vargas. A meta agora era atingir um público maior.Nesse sentido, passou a oferecer cursos regulares a militares, estudantes, sindicalistas, empresários, parlamentares, artistas, profissionais liberais, etc. Produziu, também, pequenos livros, de linguagem accessível e didaticamente elaborados, dirigidos às camadas menos privilegiadas e às classes trabalhadoras, denominados Cadernos do Povo.
Por intermédio do sociólogo do ISEB, Carlos Estevão Martins, o Instituto construiu um canal com a UNE, atuando junto ao CPC – Centro Popular de Cultura, criado em 1961, que reuniu artistas de diversas áreas, objetivando a construção de uma cultura popular e democrática. Segundo o seu criador e primeiro diretor, Carlos Estevão, o CPC nasceu inspirado no grupo paulista do Teatro de Arena que também atuou no Rio de Janeiro. Seguiu-se uma temporada de apresentações de peças políticas, elaboradas com hum