Maria Helena Masquetti: Planeta consumo

Publicado: Quinta-feira, 29 de julho de 2010 por Deborah Dubner
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"O bombardeio de mensagens ao qual as crianças estão atualmente expostas desde o berço vem determinando para elas um conceito vazio de felicidade"

Dia desses, pedi um almoço chinês. E, conforme a tradição dessa cozinha, enviaram junto um biscoitinho da sorte, cujo charme (ou magia?) é a mensagem que vem dentro condensada em um micro bilhete. Ok, confesso, estava curiosa, movida talvez pelas lembranças do tempo distante em que corria atrás do velho realejo ávida por ler a mensagem que o periquito da sorte bicaria na caixinha para mim. Não que não fosse, também, uma modalidade de marketing, porém, ninguém me dizia que, caso não tirasse o bilhete, não seria aceita em meu grupo de amigos.

Em razão da surpresa do tal almoço, guardo ainda o bilhete: “Lembre-se de compartilhar os bons e maus momentos com os amigos”. O bom momento certamente foi me permitir aquela experiência lúdica de abrir a mensagem, cooperando para a perpetuação de uma tradição, seja qual for sua verdadeira origem. O mau momento, porém, foi quando olhei o verso do bilhetinho e dei com a marca de um sabão em pó seguida da assinatura: “Remove até manchas secas”. “Até tu, biscoitinho?”, foi o que me veio à mente na hora. E logo, outro mau momento se somou àquele quando me dei conta de que, sendo adulta, podia ao menos me surpreender, me contrapor, refletir, questionar. Mas, e quanto às crianças? Por estarem em desenvolvimento, sem o juízo crítico formado portanto, elas não podem entender de onde vem a autorização de que se utiliza o marketing para penetrar em espaços tão reservados sem, sequer, pedir licença. Da mesma forma que, sob o nariz dos pais, ele dirige suas mensagens diretamente aos pequenos.

Onde houver um caderno, um lápis, um brinquedo, uma roupa, um calçado, uma mochila, um acessório, um lanche, um doce, o marketing chegou primeiro. Onde houver uma manifestação cultural ou mesmo um fenômeno natural, seja lá o que possa deter a atenção do público, o marketing finca rapidamente sua presença na posição de dono do fato, atrelando o sentido das mínimas ações humanas a um motivo para o consumo ou decorrência dele.

As ruas se tornam cada vez mais réplicas umas das outras pelo visual padronizado de tantas e tantas lojas. As cidades se confundem. Até mesmo os países conforme observa o psicólogo Yves de La Taille: “Se você vai a uma cidade tipo Roma, Paris, tem que olhar para cima para descobrir o que é Roma e Paris. Se você olhar neste nível (do rosto), vai ter as mesmas coisas que você encontra em São Paulo, no Rio de Janeiro, Belo Horizonte...”. Em sua ambiguidade habitual, a comunicação mercadológica praticamente se diverte: enquanto confere a milhares de consumidores de um mesmo produto o certificado de pessoas socialmente incluídas, simultaneamente lhes promete se diferenciarem de todos os demais pelo uso de tal produto: “Só você pode!”. Nunca se menosprezou tanto a inteligência adulta e nunca se desrespeitou tanto a fragilidade infantil.

Pode-se imaginar o quanto seria aflitivo para uma criança constatar, caso pudesse, que adultos estariam se servindo de sua ingenuidade a fim lucrar com isso. No entanto, faz parte da publicidade o mapeamento, por meio de pesquisas minuciosas, dos gostos, anseios e hábitos das crianças a fim de melhor adequarem suas mensagens de modo a persuadi-las a compreender a aquisição dos produtos como uma condição para a sobrevivência.

E assim caminha hoje a infância, bombardeada minuto a minuto por mensagens – dirigidas estrategicamente à emoção – que convidam as crianças a comprar excessivamente e sem necessidade. A lancheira do super herói, a mochila do personagem do seriado, a sandalinha da apresentadora de TV, o tênis da celebridade, tudo tem a marca de alguém, menos da própria criança. Tudo se converte em anúncios que os pequenos veiculam gratuitamente, acreditando ser isso certo e longe de entenderem ainda o sentido de abuso.

O bombardeio de mensagens ao qual as crianças estão atualmente expostas desde o berço vem determinando para elas um conceito vazio de felicidade, influenciando seus desejos e deslocando sua atenção dos valores essenciais para os superficiais. Exemplo disso está no relatório da Compass, Commercialisation of Childhood, Reino Unido, de dezembro de 2006:Aos 10 anos, as crianças já reconhecem de 300 a 400 marcas, vinte vezes o número de nomes de pássaros que podem nomear. E 70% das crianças de três anos reconhecem o símbolo do McDonalds, mas somente metade delas sabem seu próprio sobrenome”. É um mundo que se apresenta para elas sob uma lógica oca, porém enaltecido de tal forma que chega a parecer que jamais existiu outro modo mais sensato de vida.

E o mais alarmante no mundo do consumismo é que, aos olhos ingênuos e naturalmente crédulos das crianças, os produtos realmente cumprem a tal felicidade que prometem: a criança que usa a roupa da grife famosa realmente acaba sendo elogiada pelos amigos. A que leva o celular último tipo para a escola é realmente cercada da admiração dos colegas. A que chega a um restaurante no carro importado do pai realmente observa que o manobrista os trata com maior deferência. Como explicar, então, aos pequenos, que todo esse “carinho” não passa de uma convenção comercial sem dar-lhes uma informação tão difícil de processar? No entanto, como os primeiros anos de vida são decisivos para o resto da vida, provavelmente este tipo de relação será incorporado por elas como um modo válido de expressar afeto quando forem adultas. Quem sabe foi para esse tempo que Milton Nascimento dirigiu verso tão sábio: “O que foi feito da vida, o que foi feito do amor?”

Quando, vindo de vários segmentos da sociedade, cidadãos preocupados protestam, a resposta do marketing beira o sarcasmo: “Cabe aos pais exercer o controle sobre os hábitos de compras dos filhos”. Isto depois de terem se apropriado de todos os espaços onde respire uma criança. Depois de tê-las convencido, por meio de saraivadas ininterruptas de anúncios sedutores, de que se não aderirem à moda anunciada estarão excluídas de seus grupos. Depois de, estrategicamente, fazê-las crer que o mundo inteiro aderiu: “Só falta você!”, “Todo mundo está usando!”

De fachadas iguais a biscoitinhos da sorte, o mundo parece caminhar para ser um centro universal de compras e só. Não se trata de um prognóstico meramente ficcional, quem dera fosse. Os produtos se multiplicam, as inaugurações de megashoppings não param e, de todos os lados, atores, locutores, personagens animados e celebridades diversas estão garantindo à criança – que tanto os admira - que o produto que anunciam foi feito “Exclusivamente para crianças especiais como você!”.

Olhar reflexivamente as saídas das escolas, dos cinemas, dos shoppings, dos restaurantes, das festas infantis, das danceterias, de qualquer lugar onde crianças e adolescentes se agrupem, chega a assustar. Consumir é o assunto, é a razão do encontro, é a sensação (momentânea) de se estar preenchido afetivamente e de sentir-se feliz. Mais do que nunca, é importante insistir, alertar e debater com todos os segmentos da sociedade para que a consciência triunfe sobre o lucro e a criatividade do marketing passe a se balisar por um verdadeiro conceito de economia saudável. Antes que os relacionamentos humanos se padronizem em meia dúzia de expressões premeditadas. E antes que, até mesmo ao morrer, tenhamos que pagar o desafortunado mico (último!), de ouvir uma gravação nos dizer: “Ao partir, pague seu ticket em um de nossos caixas” e, passando a cancela da vida, a mesma gravação completar: “O shopping Planeta agradece a sua visita!”

Maria Helena Masquetti , é Psicóloga Clínica atuante no Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana.  

Tags: opinião, consumismo infantil

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