Opinião

Publicado: Quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Claudiney Bravo: "Educação é questão de urgência"

Crédito: Arquivo pessoal Claudiney Bravo: "Educação é questão de urgência"
"Meninos, meninas e jovens fazem a parte que lhes cabe, vão à escola, executam as tarefas, submetem-se as provas, mas não aprendem nem o mínimo necessário para suas vidas"
O Brasil está chegando à quinta posição das economias mundiais. Não pode mais ser considerado país pobre. Pode ser desigual, como a Índia, Rússia e China, mas não pobre. Somos desiguais porque não temos uma educação de nível aceitável para essa posição. Com 97% das suas crianças matriculadas no ensino fundamental, o Brasil ainda permanece como nação periférica emergente. Numa primeira análise podemos até aplaudir esse número. Mas não deve ser assim.
 
Nenhum país ultrapassou a fronteira do atraso intelectual sem antes ter vencido os desafios de educar com qualidade sua população. Há menos de 40 anos, iniciou-se o processo de universalizar a escola, mas apesar disso não consegue dar um salto qualitativo capaz de incluí-lo no seleto clube do primeiro Mundo. A política de prioridades do governo privilegiou a quantidade sem dar a importância devida para a excelência. O resultado é de todos conhecido.
 
Meninos, meninas e jovens fazem a parte que lhes cabe, vão à escola, executam as tarefas, submetem-se as provas, mas não aprendem nem o mínimo necessário para suas vidas. Submetidos a testes desde a década de 1990, revelam um desempenho cada vez mais vexatório, se comparados aos países desenvolvidos ou emergentes. A cada dez brasileiros - entre 15 e 64 anos - só três desenvolveram a habilidade de ler, entender e fazer operações matemáticas. Muitos brasileiros conseguem juntar letras e sílabas, enunciar um vocábulo, articular a frase, mas não conseguem entender adequadamente o que lêem. São incapazes de absorver textos longos, diferenciar fatos de opiniões, resolver problemas matemáticos ou interpretar tabelas. Nada menos que 75% dessas pessoas encontram-se nessa trágica situação. Isso é o que diz o INAF - Indicador de Alfabetismo Nacional. Criado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Educativa, o índice vem mensurar os níveis de alfabetização dos brasileiros adultos.
 
Uma outra tragédia silenciosa está acontecendo no ensino médio brasileiro. A possibilidade de que o crescimento expressivo registrado na atividade econômica brasileira pré e pós-crise e, um conseqüente aumento na oferta de vagas no mercado formal, esteja contribuindo para uma redução nas matrículas do Ensino Médio. Em 2009, foram quase 30 mil alunos a menos que no ano anterior. Isso é o que diz o Censo da Educação Básica divulgado pelo Ministério da Educação no último 30 de novembro.
 
O mesmo fenômeno – se é que podemos chamar isso de fenômeno - vem acontecendo desde 2005 também no Ensino Fundamental. Essa é uma questão que precisa ser avaliada com o máximo de atenção. O momento de excepcional recuperação econômica vivenciado pelo país não pode contribuir para que jovens troquem a sala de aula por um emprego fixo. Ainda que possa assegurar ganhos imediatos, a alternativa tende a condenar adolescentes a um eterno sub-emprego, situação que só o poder público pode interferir.
 
Isso já acontece pelo terceiro ano consecutivo indicam as estatísticas. Aumenta a cada ano o número de brasileiros que não hesitam em abandonar a escola quando deparam com uma oportunidade de ocupação remunerada e, em muitos casos, essa é uma situação decorrente da necessidade de reforçar a renda familiar. Mas provoca danos irreversíveis, pois limita a capacidade de ascensão social de quem ingressa no mercado de trabalho sem formação adequada. Tais índices demonstram que o país tem ainda - em média - uma mão de obra com poucos anos de estudo.
 
Essa desvantagem contrasta mesmo quando a comparação é feita com países de menor potencial que o Brasil mesmo na América Latina. Por isso, é preciso que o processo seja contido e, ainda mais, que os brasileiros possam a trabalhar com uma melhor formação educacional.
 
Nas avaliações internacionais, o Brasil se manterá na rabeira do ranking da Educação se não investir urgentemente em mudanças de suas políticas públicas de Educação. Na busca de mão de obra com a sofisticação exigida pelo mundo globalizado, terá necessariamente de importar profissionais de outros países. E para os brasileiros vai restar o sub-emprego. Não haverá outro caminho. Em todos os países nos quais a economia deu um salto qualitativo nos anos recentes, o ensino foi de forma inconteste a mola propulsora dessa estratégia.
 
Não tem como querer se mostrar diferente dos demais, pois crescimento e educação precisam necessariamente caminhar de mãos dadas. Lamentavelmente, uma imensa maioria de políticos imediatos não pensa dessa forma. Os poucos que sobram não conseguem serem ao menos ouvidos.
 
Claudiney Bravo é Designer Gráfico, editor da Circuito on Line e secretário geral do Movimento Educacionista do Brasil, fundado pelo senador Cristovam Buarque.
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