Opinião

Publicado: Quarta-feira, 14 de julho de 2010

Élida Marques: LeITUra(s)

Crédito: Deborah Dubner/www.itu.com.br Élida Marques: LeITUra(s)
"Descobri uma coisa boba: a palavra ITU está no centro da palavra LEITURA"

Hoje, oito de Julho de dois mil e dez. Seis da tarde. Em casa.

Nessa modorra, comecei a lembrar-me das minhas idealizações com relação à mudança de São Paulo para Itu. “Eu quero uma casa no campo, onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros...” Estou com muito livro encaixotado, mas tenho alguns principais que carrego sempre à mão. E percebo que muitos dos livros que me acompanham são aqueles em que me encontrei. Aqueles que salvam de eu ser quem sou. Foi lendo que percebi que tenho uma alma modernista. Foi com Guimarães Rosa que descobri meu pai.

Com Adélia Prado, amei minha mãe. A Maria Moura, da Rachel de Queiroz me fez reencontrar minha sertaneja, antes de tudo, uma forte.

E pra dar oficinas, tive que reencontrar-me com Momo, Narizinho, Alice e redescobrir a magia das modorras. Os momentos de enlevo e contemplação; de silêncios e descansos.

E nessa brincadeira de pensar, na hora da modorra, me lembrei que minha amiga Amanda notou: a palavra ITU está no centro da palavra LEITURA. Coisa engraçada! Será que em Itu vou conseguir ler mais? Será que aqui vou ter mais momentos de modorra, como ensinam os sertanejos caipiras? Será que vou conseguir ler de perto meu pai e minha família que estão em Sorocaba? E percebo que estou escrevendo assim sem parar e percebo que posso. Já li um pouco de Saramago e um pouco mais de Guimarães Rosa.

Aliás, não li muita coisa. E depois que li os dez direitos do leitor, do Sr. Daniel Pennac, fico mais tranqüila com relação a isso. Pois o primeiro direito é o direito de não ler.

Bem, não li muita coisa e isso antes me angustiava. Mas nunca, ninguém no mundo, poderá conhecer tudo de tudo. Então passei a escolher minhas autoras e meus autores.

Quando eu puder desencaixotar meus livros e discos, quero tirar a poeira de tudo e relembrar um pouco quem eu sou; o que eu já li; o que está na fila para a próxima modorra.

Ah! comecei a ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, na sacada de um chalé, em Visconde de Mauá. E reli muitas outras vezes: em Andrequicé, Morro da Garça, Cordisburgo, embaixo de viaduto e em escola noturna pra adulto.

(Modorras combinam com quintanares.)

A Arte de Ler (Mário Quintana)

O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

Viajando por conta própria I: depois de tanto ler Guimarães, fui descobrir outros sertões em Cornélio Pires, Monteiro Lobato e Valdomiro Silveira. E descobri que, este último foi precursor do movimento modernista por trazer em seu texto a fala do caipira. Muito antes do tio Guima!

Viajando por conta própria II: quando vi o quadro A LEITURA, de Almeida Júnior, criei um projeto e pensei: nossa Itu tem tudo a ver com leitura. Tem? Nós que mudamos de São Paulo pra cá, conseguimos ler mais aqui; ou ouvir os discos; os pássaros? Que leitura fazemos do interior paulista quando escolhemos vir morar aqui? Interior? Anterior? Vamos nos tornar caipiras, sertanejos? O que é que estou buscando nesse novo modo de viver?

Ainda estou chegando em Itu, venho desbravando os sertões pelo avesso. Comecei pelos gerais; rodeei as beiras da capital; viajei cidades bandeirantes e agora moro na boca do sertão. Cheguei com fome e sede e quero ouvir histórias.

Nessas férias, vou aproveitar meu tempo livre para fazer algumas oficinas do festival; curtir uns shows de amigos da capital; passear com eles pelos lugares que mais gosto; ficar em casa lendo, conversando e brincando com meu filho; fazendo artesanato e dançando com minhas vizinhas e amigas. E vou trabalhar um pouquinho: dias dezoito e vinte e cinco de julho de dois mil e dez, dois domingos, às dez da manhã, estarei no Museu da Energia lendo histórias de modorras e cantando algumas leréias. Convidei algumas amigas pra ler comigo; alguns músicos com quem já trabalhei aqui e algumas artesãs com quem pretendo trabalhar. Se você estiver por aqui venha fazer uma leitura com a gente: Modorras e Leréias no Museu da Energia de Itu, nos dias 18 e 25 de Julho de 2010, domingos às 10h. Grátis.

Élida Marques criou o projeto “Ler é uma Viagem”  em 2003 e pratica a leitura pública em diversos contextos culturais há sete anos. Atualmente coordena
o Núcleo de Leitura, Literatura e Contação de Histórias, juntamente com Amanda Leal de Oliveira, na Secretaria Municipal de Cultura de Votorantim. 

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