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Publicado: Sábado, 17 de fevereiro de 2007

Dom

Admiro aqueles que têm o poder de fazer suas mãos expressarem sentimentos. Claro que não me refiro às indesejáveis pessoas que, gesticulando, dizem algo como “fale com minha mão”. Refiro-me aos artistas. Músicos, pintores. Uma dedilhada aqui, uma pincelada ali, e todos são capazes de entender o que de fato foi sentido no momento da criação.
 
Não foi por falta de incentivo dentro de casa que hoje não sou nem uma coisa, nem outra. Foram várias as vezes que vi meu pai tocar violão; são inúmeros os quadros pintados por minha mãe. E eu, o máximo que consigo nesse sentido são uns batuques nas costas do instrumento e algumas poucas pinturas “neo-alguma-coisa-ou-abstratas-sem-pé-nem-cabeça”.
 
Hoje mantenho em minha casa alguns quadros, muitos desenhos tipicamente infantis e as paredes de uma única parede pintadas de lilás. No quesito musicalidade, tenho um violão que foi de meu pai, um outro que se transformou meu por osmose e muitos CDs - além das diversas músicas baixadas da net. Canto no chuveiro e pinto o sete.
 
Uma de minhas terapias quando a Ciclotimia me seqüestra e me leva para o fundo de um poço escuro e profundo é cantar. Berro com gênios da nossa música e faço jus à primeira tatuagem que fiz: Renato Russo me inspira e grito com ele, no último volume. Os vizinhos talvez já saibam quando estou pra baixo. Canto, canto, canto e deixo minha voz à mostra quando o cd arranhado me obriga a cantar sozinha.
 
Numa dessas, descobri a essência de uma linda canção. Marisa Monte, apesar de tímida e retraída, tem um belo poema cantado. Entre várias outras músicas maravilhosas de sua autoria, descobri - e me viciei - recentemente por uma em especial.
 
“O Bonde do Dom” é incrivelmente contagiante. E inspirador também. E reflexivo, sem dúvida. Graças a essa música, tenho me perguntado insistentemente o porquê de eu não ter o dom da música ou da pintura - seguindo a tradição do “filho de peixe, peixinho é”. E então olho para minhas mãos que, geralmente, só dão o ar da graça quando converso empolgada, gesticulando.
 
“É o bonde do Dom que me leva”, diz Marisa Monte. “Os anjos que me carregam, os automóveis que me cercam, os santos que me projetam”.
 
Talvez por eu me recriminar tanto pela minha falta de talento, meus sábios dedos me forçaram a enxergar algo que minha ignorância deixava obscuro. “O Bonde do Dom” toca sempre por aqui. Geralmente toca no micro, pois o cd sapeca sumiu há algum tempo.       
 
Quando estou diante do meu amigo computador, estou escrevendo. Aventuro-me agora no meu quinto livro, o quarto romance, todos sem publicação. E o som das teclas se mistura à voz de Marisa Monte e à minha, é claro.
 
No momento, me delicio com o vigésimo primeiro capítulo, e a história, apesar de estar maior que o trabalho mais importante escrito até agora, não dá sinais de ter fim. Minhas personagens viraram minhas amigas e, quem me conhece, sabe que falo delas como se fossem reais. Surgiu, inclusive, a piada de se criar uma comunidade no orkut para uma delas.
 
Uma reviravolta em um relacionamento recém-surgido me atiça a escrever mais e mais e mais. E “O Bonde do Dom” toca repetidas vezes.
 
Então me veio a idéia de escrever um texto, não só homenageando, como também agradecendo ao meu Bonde. Não o que carrega a música, nem o das artes visuais. O bonde do dom que me leva adiante é aquele que me faz crer que toda história é uma boa história - inclusive aquelas inventadas.
 
Meus dedos são desengonçados para tocar e pintar. Mas têm uma sintonia incrível com o teclado, com a caneta e até mesmo com pedras que rabiscam o chão de cimento. Enquanto muitos gozam as férias em piscinas e debaixo do sol, passo meus dias de descanso diante de uma tela de computador, escrevendo histórias fantásticas sobre pessoas maravilhosamente companheiras que só existem dento de mim. O Dom não está em escrever, transcrever. O verdadeiro Dom aparece quando algum amigo confere meus escritos e nitidamente demonstra o que sente.
 

Minhas amigas mais que imaginárias, Carolina e Flávia - além das doces crianças Diego, Gabriel e Camila - são dignas de agradecimento. E enquanto me esforço pra dar um final feliz, na medida do possível, a música recomeça: “É o bonde do Dom que me leva”...

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