Publicado: Segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
Quesquinhé
Estávamos todos eufóricos lá em Querengué. Muito mais do que quando o presidente da República foi visitar a cidade. Em poucas horas, nós que estávamos ansiosos na ferroviária, veríamos descer na estação Aluísio Querengué uma das estrelas mais importantes do cinema atual. Eloísa Scarlett Johanson Elena. Sem agá, ela costuma corrigir os jornalistas.
Chamaram a Maria Rita para cantar: “Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação. Tem gente que chega para ficar, tem gente que vai pra nunca mais...”. Na verdade era um radinho à pilha com o cd da cantora, mas tudo bem.
Dona Euália vendia coxinhas de peito de peru, inventadas especialmente para a ocasião. Mas mesmo quem estava ali a trabalho – cobradores, ambulantes, mendigos e prostitutas – queriam mesmo era ver a Grande Estrela, como o A Voz de Querengué a tinha chamado na manchete daquele sábado. Hoje Querengué recebe a Grande Estrela Eloísa Scarlett Johanson Elena.
Eu trabalhava de fotógrafo para esse jornal e fiquei responsável de captar a imagem que, segundo meu editor na época, o Sr. Móz, seria a capa de um encarte especial que o jornal faria sobre Scarlett Elena.
- Eu ouvi dizer que ela virá sem calcinha.
- Dizem que ela é virgem!
- Eu já ouvi o contrário. Que ela deu para aquele ator português, como é mesmo o nome dele? Eduardo não-sei-o-quê Joaquim.
- Parece que vai trazer o Oscar que ganhou por “Casapleta”, a refilmagem pós-modernista de “Casablanca”.
Dona Euália desmaiou quando o trem apontou lá longe, na linha saudosista do horizonte. As coxinhas de peito de peru se esparramaram pelo chão da estação em uma cena sensacionalista que tive de fotografar.
- É ela! E vem a nossa amada estrela!
O povo exagera. Se não exagerasse não seria povo. Houve outros desmaios conforme o trem se aproximava. Dona Gerusa. Mateo, o italiano. O garçom Tibério. E outro. E outros.
Quando o trem finalmente parou, todos estavam semi-mortos, jogados uns sobre os outros como naquelas cenas de filme sobre o nazismo. Apenas uma pessoa estava em pé, corajosamente em pé, embora com a cueca toda melada de nervosismo. Eu, Felipe, o bravo.
Eu vi primeiro o pé dela. Estava um pouco enlameado aquele par de pés brancos como o leito que Zeus derramou na terra. E eu tremia.
Depois apareceu o restante do corpo dela. Vinha com um vestido branco e preto e
um chapéu enorme, daqueles que se usavam em...bem, não me lembro de alguém já ter usado um chapéu daquele tamanho.
Quando finalmente saiu do trem, sob os diversos flashes de uma mesma câmera, ela viu aqueles corpos e exclamou:
- QUESQUINHÉ!
Scarlett correu freneticamente para dentro do trem e só saiu de lá quando seu assessor de imprensa explicou que o povo não tinha morrido.
No dia seguinte, saía no jornal uma bela foto, de uma bela mulher, com uma bela e estranha frase de capa: Quesquinhé!
Atualmente, um grupo de antropólogos de Querengué pesquisam entre os índios ianomâmis o sentido dessa expressão. A mais fonseqüense depois da palavra fonseqüense. Scarlett vive em Querengué e de vez em quando vai aos Estados Unidos receber um outro Oscar.
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