Publicado: Quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
Traumas
Uma vez, quando eu trabalhava em um escritório com outras vinte pessoas, entrei numa batalha sem palavras com um colega. O objetivo era estúpido. Todas as batalhas são estúpidas. Saber quem era o melhor no nosso departamento de contabilidade, que abrigava cinco pessoas. A única arma: uma camisa.
Tudo começou quando usei uma camisa que tinha ganhado de Natal da minha avó Irene. Era uma dessas camisas semi-floridas, tipo que a gente só usa em bailes do Havaí. As flores vinham em marca-d’água e por isso topei usá-la em dias normais. Para minha desagradável surpresa, o Everivelton estava com uma camisa idêntica quando cheguei naquela segunda-feira. Éramos amigos. Uma camisa não deveria estragar aquele belo relacionamento.
“Bonita sua camisa”. Eu disse.
“A sua também”.
Rimos amareladamente.
A partir daquele dia, eu esperava que ele usasse a camisa novamente para poder usar no dia seguinte. E ele fazia o mesmo. Não queríamos parecer uniformizados ou As Marcianas (aquelas da música “vou te amarrar na minha cama só pra fazer amor comigo”).
Sempre que eu ia com a camisa, fazia questão de chegar primeiro no serviço. Se ele também usasse a roupa, eu ia parecer o original e ele, a cópia. O Eri foi mais esperto e nunca mais usou aquela coisa.
Eu me tornei uma espécie de líder daquele setor e um mês depois fui despedido. Uma colega disse que eu passei a mão na bunda dela (o que foi uma grande mentira, pois eu fui tirar um gafanhoto que tinha ficado preso na saia-camurça dela). Até hoje, tantos anos mais tarde, quase morro ao imaginar o Erivelton fumando um charuto numa sexta-feira à noite, após o expediente com o pessoal do escritório.
“Vocês se lembram daquele datlônicozinho que tinha uma camisa igual a minha? Coitado do imbecil, derrotado por um gafanhoto preso na bunda! Pusft...”
Nessas reuniões, óbvio, ele usa a nossa camisa florida.
Por falar em traumas, sonhei outra vez como jabuti nessa noite. Eu explico. Eu morava em Avaré, no interior de São Paulo, quando fui com meus primos passear no Horto Florestal (um dos lugares mais bonitos da cidade). Resolvemos andar de pedalinho e, entre o marreco, o ganso e tubarão, sobrou o marreco para mim. Ignorei a mensagem implícita ali e tentei me divertir.
Ora, eu tinha doze anos, aquele poderia ter sido um importante dia para minha formação ético-moral-religiosa. E seria, se eu não tivesse atropelado um jabuti com o pedalinho de marreco. Fiquei em choque, parado com o marreco no meio do lago, e meus primos gritaram do tubarão e do ganso que não era culpa minha, o jabuti que era um suicida, a vida sempre continua, essas coisas.
Mas a visão do jabuti sem cabeça ficou cravada na minha cabeça. E por isso até hoje eu sonho que um jabuti enorme tenta me comer, mesmo sem cabeça. Sabe, é terrível, eu acordo suado, sempre tenho de olhar debaixo da cama à procura de jabutis assassinos ou coisa parecida. Talvez isso só passe quando o finado jabuti finalmente reencarnar. Reencarna, jabuti!
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