Cuidado, é azulejo!
A maioria das pessoas não se lembra nem do próprio parto. Eu me lembro do dia em que trombei acidentalmente com um óvulo e ele me engoliu. O resultado foi aquele menino gordo, liso e ensangüentado que saiu da vagina da minha mãe às 5h30 do dia 4 de novembro de 1984, pesando quase cinco quilos. Foi o primeiro e único dia da minha vida que madruguei.
Eu recordo nitidamente aquele ambiente pastoso onde eu e meus irmãos espermatozóides passávamos as horas fazendo nada. Aquilo era vida boa. Fazia pouco tempo que tínhamos formado nosso rabinho (modéstia à parte, eu tinha uma cauda linda, que infelizmente foi cortada quando entrei naquele ser grande e redondo). Eu tinha um irmão, o ESP 04785489 – Série Cândida 742, que era uma figura. Era o melhor contador de piadas daquele ambiente.
“O que um espermatozóide falou para o outro?”
Ninguém sabia.
“‘Putz, a viagem vai ser longa, acabamos de passar pelas amídalas!’”.
Todos riam. O ESP 04785489 – Série Cândida 742 era uma espécie de mascote do grupo. Todo mundo torcia por si mesmo em primeiro lugar (lógico, todos acreditam que a carta de alforria é a fecundação) e em segundo pelo ESP 04785489 – Série Cândida 742. Era uma espécie de irmão caçula do bando.
Um dia, ele se foi. Eu fiquei emocionado porque ele seria levado no próximo lote e, com a ajuda de Deus, encontraria um grande óvulo e se transformaria no mais competente humorista do País. Quando finalmente percebi que era alarme falso, gritei:
“Cuidado, é azulejo!”.
Era tarde demais. Toda aquela graça e aquele humor escoaram pelo ralo. Literalmente.
A vida é assim. Uns fecundam, outros batem com a haste no azulejo. Pior são os que ficam ensacados no látex por dias sofrendo com a falta de ar.
Os palestrantes de auto-ajuda deste mundo (Deus me livre!) vivem dizendo que somos vencedores porque fomos os espermatozóides escolhidos a dedo. Blá-blá-blá! Eu penso que nós somos os piores nadadores do grupo, aqueles que não conseguiram resistir à correnteza e acabaram se chocando com A Grande Bola Devoradora de Espermatozóides. Azar o nosso, que fecundamos e nascemos nove meses depois.
Há dias em que penso no ESP 04785489 – Série Cândida 742. Talvez deveria tê-lo abraçado e azulejado minha vida para sempre. Seria uma breve existência, mas eficaz.