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Marcelo Sguassábia
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Líricas Bulhufas

Humor, nonsense e sátira. Junte a isso algumas incursões no universo onírico. É esse mais ou menos meu estilo: o não-estilo definido. Sou redator publicitário e tenho coluna fixa em diversas publicações eletrônicas e um jornal impresso.

Keith Richards - A Regeneração

Publicado: Sábado, 19 de novembro de 2016


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O Keith Richards que o mundo conhece, ou imagina conhecer, é mais que uma celebridade que tem simpatia pelo capeta. Faz muito tempo que esse Keith, um modelo de perdição física e espiritual, já não existe mais. Acreditem: essa é a pura verdade. Mais pura que o pó branco que quase arruinou sua vida e por pouco não o levou, ainda nos anos 60, para os quintos dos infernos.

Há um novo homem vivendo dentro de uma carcaça carcomida, totalmente liberto do pecado, mas que é obrigado – por contrato – a fingir que é um coquetel ambulante de cocaína, álcool e barbitúricos. A sua libertação foi tão completa que hoje não suporta nem mesmo aquele cigarro no canto da boca, que é forçado a ostentar em todos os shows. Uma encenação mesquinha, uma blasfêmia aos olhos do Criador.

O que ele queria mesmo, para a glória dos céus, era transformar a “Satisfaction” em “Ressurrection”. Mudando, é claro, aquela letrinha tola e egoísta e fazendo dela um hino de louvor. Forte e poderoso, capaz de exorcizar tudo quanto é coisa ruim. Seria uma espécie de acerto de contas entre o novo e bem-aventurado Keith e aqueles excessos loucos do passado.

Quando eu falo em “novo Keith” é preciso deixar claro que ele não é tão novo assim. A grande mudança de vida aconteceu mais ou menos na época em que “Start me up” estourava nas paradas, lá no começo dos 80. Imaginem vocês o conflito entre o eu limpinho, regenerado, totalmente liberto do pecado e das drogas e aquela imagem de devassidão libertina que ele precisava manter para que os Stones continuassem sendo os Stones.

Deus sabe quantas foram as vezes em que tudo o que ele queria era passar horas ajoelhado em fervorosa oração, mas era coagido a subir em diabólicos palcos pelo mundo afora, fazendo turnês atrás de turnês e mostrando ao show-business uma imagem que não era mais a dele. Keith tentava convencer o Mick a transformar o grupo em uma superbanda Gospel, oh Senhor, como seria divino se isso um dia acontecesse... Mas aquele ateu incorrigível ria e debochava toda vez que ele tocava no assunto. Mostrava a língua, as nádegas e o maldito contrato que o obrigava a ir em frente com o teatrinho.

É claro que, ao assumir uma imagem de regeneração, os Stones perderiam grande parte dos fãs acumulados em mais de 50 anos. Mas ganhariam certamente uma legião de fiéis convertidos à causa da caridade cristã. E essa atitude talvez os redimisse do erro de terem tomado a estrada errada, onde quanto mais enchiam sua conta bancária mais se esvaziavam como seres humanos.

Lembro que uma vez, numa madrugada chuvosa, Keith ligou para o Mick falando da visão que acabava de ter, onde incorporavam em seus gigashows uma enorme piscina de 250x250m, cheia de água abençoada, na qual batizavam milhares de ovelhinhas a cada apresentação. Só que Mick mais uma vez não levou Keith a sério, dizendo que a sua visão devia ser efeito retardado de alguma viagem de heroína. Mandou um rouco “fuck you” e bateu o telefone na cara dele. Mas deixa estar. O Todo-Poderoso, em sua misericórdia, há de levá-lo um dia ao caminho da salvação.


Esta é uma obra de ficção. Por mais que o Keith jure ser verdade.


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