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Katia Auvray
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História & Cotidiano

Historiadora e escritora. Autora dos livros "Cidade dos Esquecidos - A vida dos hansenianos num antigo leprosário do Brasil" e da coleção infanto-juvenil "Magia da História", sobre a história da cidade de Salto/SP. Também é Mestre Reiki.

A chatice da gravidez

Publicado: Segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016


Domínio público
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O MUNDO ANDA MUITO sem graça. Afirmar que uma mulher negra é antipática só pode ser racismo - é claro. Uniforme branco para babás? Altamente discriminatório. Disse recentemente um amigo que em breve, sorrir será considerado uma agressão a quem não tem dentes. Não duvido.

Cuidado! Fale baixo e, principalmente, não escreva. A patrulha ideológica do politicamente correto está à espreita para fazer justiça publicamente.

Não saia por aí dizendo, como a jovem mãe Juliana Reis, de 25 anos, que a maternidade é dolorosa e cansativa – nada parecida com o conto de fadas que a sociedade enfia pela goela feminina. Foi crucificada. Teve o perfil denunciado ao Facebook e excluído.

Lembrei de várias gravidezes – das minhas e de outras mulheres. Da barriga pesada dos últimos meses, das câimbras, inchaço e dor nas pernas; do aumento de peso, azia, dificuldade para dormir. Do “bolo” provocado pelo bebê junto ao estômago, dolorosamente empurrado para cima, além das agruras dos partos.

Da dor nos seios feridos, rachados e empedrados, e das bonitas campanhas sobre a importância do aleitamento materno, tão distantes da realidade de milhões de mulheres; da febre; noites mal dormidas; irritação; roupas molhadas de leite – lençóis, blusas e soutiens - acompanhados de amamentação a cada duas ou três horas, trocas de fraldas, pomadas, banhos difíceis e inábeis e choro frequente – e mútuo. Um pesadelo.

Para completar o pacote vem a culpa, carregada às vezes por toda a vida - escondida e trancada no baú do inconsciente, apodrecendo e contaminando tudo. Pobre mãe. Pobre mulher. De novo e sempre, ao longo da história, deve assumir o papel destinado a ela – ou se recusar a ele – o que não a liberta da reprovação.

“Ser mãe é padecer no paraíso”, diz o ditado popular. Fale a verdade: quem é que deseja ou gosta de padecer e, ainda mais, no Paraíso?

É preciso admitir sem culpa, que sentimos raiva, rejeitamos e odiamos – mesmo que por um instante e inúmeras vezes na vida - o que quer que seja. Ser mãe é apenas mais uma das inúmeras facetas da espécie humana feminina. Não santifica a mulher.

Como mãe, que também sou, me lembro agradecida do médico ponderado e generoso que me recebeu aos prantos, em seu consultório, e que me disse ser melhor oferecer uma mamadeira com amor, do que um peito com raiva.

Ofereci centenas de mamadeiras amorosas e alegres para os meus filhos. Nunca tive medo de dizer a eles o que sinto, e de admitir as necessidades reais do nosso relacionamento – como, por exemplo, que precisávamos de férias individuais, pois estávamos enjoados uns dos outros.

Gente enjoa – da mãe, pai, filho, marido, mulher. Só não fala e isso, necessariamente, não é amor. Os bons resultados - garanto - colho até hoje.

Tags: polêmica sobre gravidez, juliana reis, politicamente correto, liberdade feminina, condicionamento, patrulhamento ideológico

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