Memórias
É difícil classificar Woody Allen como um diretor de gêneros. Mesmo fazendo filmes super-baratos e não ostentar seus filmes pela qualidade em planos super desenvolvidos nem nada disso. Woody Allen é um diretor que se sustenta pelos ótimos roteiros e atuações excêntricas e uma análise depressiva sobre a vida.
Allen começou sua vida no “show business” contando piadas que ele mesmo escrevia, também escreveu pequenos roteiros e explodiu como diretor e ator na década de 60. Uma marca registrada em suas obras é a direção, roteiro e atuação serem dele. E claro, o uso das mulheres, que em todos os filmes são muito bem exploradas, e sem contar também o uso frequente de temas como morte, relacionamentos, psicologia, religião o humor inteligente e, claro, o sarcasmo.
Seus primeiros filmes têm uma marca pessoal que é o humor pastelão, influência de diretores como Carlitos, Gordo e o Magro e os Irmãos Marx, que talvez sejam a maior influência de Allen. Buster Keaton também pode ser citado como influência, não pela sua dramaticidade, mas sim pelo título de “O comediante que nunca ri”.
Em “Memórias”, filme de 1980 em que Woody Allen também escreve e dirigi, ele vive Sandy Bates, um diretor e ator que acabou de rodar seu último filme, mas não é bem aceito pelos produtores executivos do seu estúdio. Querendo que ele volte às comédias em que foi consagrado, Allen usa esse filme como uma crítica a seu outro filme “Interiores”, de 1978, em que ele tentou fazer um filme mais sério, com ausência total do humor e com a permanência do drama pesado.
O engraçado de "Interiores" é como ele usa planos parecidos com “Persona”, de Bergman, e até a narratividade. Influências que ele usa também em "Memórias". Mas quando lançado, “Interiores” foi recebido como o pior filme de Woody Allen, saindo totalmente do tema de suas comedias. Talvez isso explique porque, em 1979, ele volta em alta com o ótimo “Manhattan”. Mas ainda cansado de todo a perseguição pelo seu estilo tanto de gravar ou de vida, Allen faz um desabafo com "Memórias".
Rodado todo em preto e branco, o filme é uma contradição do começo ao fim. Começando pelos créditos iniciais em que temos uma alegre banda de jazz tocando, logo depois temos Sandy em um vagão de trem. Ele está sentado, deprimido, e quando olha um outro vagão com pessoas alegres e felizes, ele entra em desespero. O tempo diegético em que Allen tenta sair do vagão pode ser traduzido como suas tentativas de sair da depressão ou solidão em que ele tanto grita no filme.
Mas depois que o trem começa a andar, temos um corte e tanto as pessoas que estavam no vagão com Sandy e as outras pessoas felizes vão parar no mesmo lugar, um lixão. Assim interpretamos que o vagão é a vida, não importa como ela seja; feliz e animada ou triste e depressiva, o destino é o mesmo: a morte.
Além de Bergman, outra influência clara no filme é “Oito e Meio”, de Federico Fellini. A cena do vagão é claramente uma homenagem quando Guido, vivido por Marcello Mastroianni, está preso em um engarrafamento e todas as pessoas estão tristes ou totalmente felizes. Guido as olha e entra em desespero.
Aliás, “Oito e Meio” é a maior influência de Allen em "Memórias". Se dissecarmos essa frase de Fellini “Prefiro o cinema mentira. A mentira é sempre mais interessante que a verdade”, pegamos o espírito do filme, primeiro porque ele não respeita uma ordem cronológica dos fatos contados, misturando o tempo com o final, começo e meio. E segundo é que temos duas histórias: a que está sendo contada e a que passa dentro da cabeça de Sandy.
Sandy (Allen) vai passar um fim de semana em um hotel onde vão homenagear seus filmes e ele vai responder à questões dos críticos e jornalistas. A contradição começa quando Allen está em seu apartamento, cercado de pessoas, e ele diz “não estou feliz” e o papel de parede do fundo da sua casa é uma foto de Eddie Adams, onde ele fotografou um general vietnamita do sul dando um tiro na cabeça de um soldado do Vietnã do norte.
Quando Sandy vai até o hotel ele não consegue ter um minuto de paz, sendo bombardeado com todos os tipos de elogios, favores e endeusamento. Coisa que ele ao mesmo tempo repudia, mas molda seu ego, exemplo quando um jornalista pergunta para ele que ele tem fama de ser narcisista ele diz: “Eu não me identifico com Narciso, e sim com uma outra pessoa da mitologia, Zeus”. O humor negro também está presente no filme quando um fã diz que ele tem uma ideia para uma comédia baseada no famoso suicídio em guina.
Sandy fica o tempo todo sem chão, e com a chegada de Isobel (Marie-Christine Barrault), sua amante, ele começa a ter um guia e não fica perdido todo o momento, mas as memórias do seu amor do passado, Dorrie (Charlotte Rampling), entram em conflito com a sua natureza momentânea. Se Isobel passa calma e tranquilidade para ele e uma futura segurança, Dorrie ainda mexe com os seus pensamentos e o faz tomar certas atitudes inconsequentes, tanto com o seu relacionamento presente e de outras pessoas ao seu redor.
Uma frase que Allen diz no filme é muito bem aplicada à arte de viver. Depois de uma nova discussão com os seus produtores, que tentam mudar o final do seu filme para deixar mais alegre e receptivo ao público, Allen diz: “Você não consegue controlar a vida. Você só consegue controlar duas coisas. A arte e a masturbação. Duas das quais sou um especialista absoluto”.
Voltando a influência de Fellini, vemos no final de "Memórias" um circo em que Sandy está com Daisy (Jessica Harper), uma violinista que está passando férias no hotel. Assim como Sandy, ela apresenta várias contradições e isso serve para eles terem um relacionamento. O circo na verdade são pessoas esperando por ovnis. E em uma cena em que temos uma ilusão de Sandy, ele está conversando com alguns alienígenas e pede conselho de vida. Eles dizem: “Nós temos uma Q.I. de 1600 e é obvio que Isobel é perfeita para você. Você é sentimentalmente falho, você não se relaciona, você só fica feliz com mulheres psicologicamente frágeis! Qual é o seu problema?”.
No final do filme também somos levados a pensar o que é real e ficção. Porque da mesma forma em que somos guiados o filme inteiro nessa divisão narrativa, o final fica em aberto. Disso podemos pensar de duas maneiras: a primeira é a mais simples e aceitar isso ou podemos simplesmente dissecar ela e pensar que assim como "Memórias" nossa vida é levada a caminhos que não podemos controlar. Como relacionamentos você pode ser rico, pobre, gordo ou magro.