Francisca Moraes
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Vida e Trabalho

Graduada, mestre e doutoranda em Administração, e especialista em gestão de pessoas. Fundadora da Tangram Social, é Diretora do Centro de Qualificação Profissional de Itu e região. Com mais de 20 anos de experiência no mercado, é professora universitária.

Sustentabilidade na prática

Publicado: Segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Rio +20 teve o objetivo de analisar o que mudou no planeta a partir da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), realizada em 1992, quando mais de 100 representantes de nações de todo o mundo abordaram o desenvolvimento sustentável e como reverter o processo de degradação ambiental e assinaram compromissos para a mudança socioambiental. Este artigo traz uma reflexão sobre o que estamos fazendo para construir um futuro melhor para todos de forma sustentável em nossa vida pessoal e profissional.

A sustentabilidade tem sido alardeada como a solução dos problemas atuais, sendo escolhida como tema de redação nas seleções de profissionais, utilizada no material de marketing das empresas e de várias outras formas, mas afinal, o que ela realmente representa? E como se aplica em nossa vida pessoal e profissional?

Algumas ações são óbvias, como diminuir nosso padrão de consumo, agir com ética, evitar o uso excessivo de recursos naturais, contribuir com entidades sociais, fazer coleta seletiva, respeitar direitos trabalhistas e muitas outros. Mas apenas isso não basta, é preciso uma mudança radical em nossa forma de viver. Vamos analisar alguns exemplos que demonstram o impacto da prática da sustentabilidade nos enfoques econômico, social e ambiental.

O diretor de uma empresa é responsável por vários serviços e um deles,  embora estratégico para os negócios, não está dando o lucro esperado e os proprietários lhe cobram uma solução. Os funcionários envolvidos no serviço sempre se dedicaram ao seu sucesso e o diretor sabe que a empresa não investiu adequadamente no seu marketing, mas não assume diante dos proprietários que esse foi o grande problema, pois  teme perder sua posição, pela qual sonhou durante muitos anos. No aguardo da visita da consultoria para certificação do serviço, durante meses solicita aos funcionários envolvidos que se dediquem mais do que o normal e sutilmente sugere que confirmem as condições de infraestrutura artificialmente criadas para que a avaliação  seja máxima. Acreditando na importância do serviço para a empresa e para os clientes, os envolvidos aceitam a mentira e o serviço tem a certificação máxima possível na sua categoria. Menos de quinze dias depois, os funcionários com maiores salários são demitidos, sob alegação de que, por sugestão dos consultores, o produto seria executado por profissionais com menor qualificação, mesmo provocando um padrão de qualidade inferior para que se tornasse viável financeiramente, pois continuaria dentro dos parâmetros legais mínimos exigidos para a certificação.

O segundo caso é de um operário que almejou durante toda a vida ser gerente de produção em sua empresa e para isso se dedicou muito: fez vários cursos de especialização em sua área, trabalhou horas extras durante toda sua carreira, deixando sua família, amigos e vida pessoal sempre em segundo plano. Foi conquistando posições mais altas na empresa e depois de 18 anos conseguiu seu objetivo: tornou-se gerente de produção e depois de passado o encantamento, descobriu que teria que tomar decisões que contrariavam seus valores. Em uma determinada época, sendo exigido por resultados, recebeu dos superiores a incumbência de demitir parte dos funcionários e buscar fornecedores que, além de fornecerem produtos com qualidade duvidosa, não emitissem nota fiscal. Ao discutir o assunto com sua esposa e filhos, descobriu que o que importava para eles é que ele não perdesse o emprego, para que a família continuasse com o mesmo padrão de vida.

O terceiro exemplo é de uma mulher que depois de dedicar-se muitos anos a causas nobres, fundou uma organização sem fins lucrativos e passou a executar projetos sociais. Ao buscar patrocinadores para as ações da entidade, foi procurada por um político que lhe ofereceu os recursos financeiros necessários para todos os projetos, com a condição de fazer campanha para o mesmo quando das eleições. Continuando a busca, encontrou uma empresa que também desejava apoiar os projetos, mas desde que com desconto das doações nos impostos e devolução extra-oficial de um percentual do valor recebido. Outra exigência seria a vinculação da marca da instituição em suas ações de marketing para criar uma imagem de empresa responsável, mesmo despejando resíduos nos rios da região.

Muitas análises podem ser feitas sobre esses casos, mas o que eles nos mostram em relação ao tema do artigo?

Sustentabilidade foi definida por Fritjof Capra como o resultado de um padrão de organização observado em sistemas vivos complexos, ou seja, não é uma varinha mágica, é uma nova forma de funcionamento de organismos dinâmicos. Por ter complexidade muito alta, o sistema social precisa incluir questões mais amplas nessa potencial reorganização:

- Ética - o equilíbrio desejado exige não apenas um novo padrão de organização da sociedade atual, mas que garanta o destino das gerações futuras;

- Temporal – é preciso agir com precaução e planejar no longo prazo;

- Social - somente uma sociedade com diversidade e menos desigualdade poderá atingir o desenvolvimento sustentável;

- Prática - é necessário romper com hábitos anteriores.

Se analisarmos os casos apresentados com foco na sustentabilidade, é preciso primeiro considerar que esse termo pressupõe equilíbrio econômico, social e ambiental de forma ética e prestigiar qualquer um deles em detrimento dos demais automaticamente torna insustentável uma decisão.

No primeiro caso, a decisão do diretor pelo aspecto econômico criou o desequilíbrio social, pois além da demissão dos funcionários envolvidos ter sido realizada sem nenhuma ética, criou um problema de natureza social para os colaboradores demitidos, que foram usados e descartados sem nenhum respeito humano ou reconhecimento pelos serviços prestados, tiveram que buscar outra recolocação sem antecipação do problema. Por outro lado, embora possa, em um primeiro momento trazer maior resultado financeiro, no médio e longo prazos provavelmente resultarão em problemas maiores, considerando que a menor qualidade do serviço será percebida pelos clientes atuais e futuros, que buscarão os concorrentes que ofereçam  melhor custo x benefício.

O caso seguinte demonstra que embora a busca de uma carreira de sucesso seja desejável e possível, deve ser feita com equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, na medida em que o ser humano precisa de muito mais do que apenas dinheiro e sucesso para ser feliz. É preciso que o trabalho seja uma fonte de realização pessoal e que possa ser realizado de forma compatível com o que acreditamos e com respeito aos demais integrantes de nosso círculo pessoal e social, contribuindo para nosso desenvolvimento de forma integral e contribuindo para uma sociedade melhor, inclusive em nossa própria casa.

O caso final apresenta uma situação infelizmente muito comum nos dias atuais: o custo da postura honesta, digna e desinteressada para defender uma causa de interesse público pode ser alto. Ao não aceitar as propostas, a dirigente da entidade percebeu que os termos cidadania, responsabilidade socioambiental e sustentabilidade ainda não são corretamente compreendidos e que manter uma instituição séria exige muitas vezes contrariar o pensamento capitalista de que as pessoas e as causas nobres podem ser usadas para fins pessoais (ou institucionais).

Esses relatos demonstram que realmente um novo modelo de desenvolvimento  precisa ser adotado e é importante lembrar que as organizações públicas ou privadas, com ou sem fins lucrativos não existem por si mesmas. São constituídas por pessoas com livre arbítrio e o que acontece em cada uma delas é responsabilidade única e exclusiva de seus integrantes.

Para que se possa construir um futuro equilibrado para todos e para o planeta, é preciso adotar, em nosso dia-a-dia na vida pessoal e profissional, atitudes éticas, equilibradas e planejadas para o futuro, assim como mudar a forma como agimos e os critérios que usamos em nossas decisões.

Você está disposto(a) a mudar para contribuir para um mundo melhor?

Tags: sustentabilidade, responsabilidade socioambiental, ética, desenvolvimento sustentável, francisca moraes