O que nasceu primeiro: o dinheiro ou o trabalho?
Dirijo um centro de formação profissional e sempre me surpreendo quanto à quantidade de pessoas que buscam um curso para atuar na profissão “que paga melhor”. Embora como educadora me preocupe com o fato de que as pessoas não tenham claros quais seus objetivos, nesses momentos posso fazer uma das coisas que mais gosto: conversar com cada uma delas e resgatar os seus sonhos de vida.
E uma das coisas que mais gosto de ponderar é: o que vem primeiro, o dinheiro ou o trabalho?
Parece uma pergunta sem muito sentido, afinal em um mundo capitalista, o trabalho é uma das formas para se obter dinheiro, fundamental para nossa manutenção. Mas sempre é importante aliar os sonhos ao trabalho, afinal, a maioria das pessoas trabalha pelo menos oito horas por dia durante trinta anos, ou seja, é a escolha entre ser feliz ou não durante a maior parte da nossa vida adulta.
Lembro que meus pais, apesar das dificuldades financeiras, sempre me estimularam a buscar ser a melhor no que gostasse e nunca me arrependi disso. E, apesar de ter passado por muitas barreiras profissionais por ser mulher em um tempo em que o mundo que eu desejava era de homens, ter enfrentado bandidos por três vezes voltando da escola sozinha, comprar um livro em vez de uma roupa e ter deixado muitas outras coisas de lado pelos meus sonhos, sempre fui feliz.
Quase todos nós, em vários momentos da vida, precisamos aceitar o que estiver disponível - e em alguns casos, “até o que paga mais” - mas se estamos pensando em nos preparar melhor para o futuro, se focarmos somente o dinheiro e não o trabalho que nos dê prazer, certamente estamos trabalhando para construir um futuro de infelicidade.
Dinheiro certamente é importante, mas não deve ser o único critério para nossas escolhas profissionais de longo prazo, mesmo que as pessoas de nosso relacionamento não compreendam o que buscamos. Durante minha carreira, por várias vezes decidi que tinha que precisava ampliar meus horizontes e buscar outros sonhos e pedi demissão mesmo depois de vários anos na mesma organização. Minha família, amigos e colegas de trabalho muitas vezes me questionaram por deixar empregos estáveis que eu gostava, com bom salário, onde era querida e admirada por todos. Mas valeu a pena: quando encontro as pessoas com as quais trabalhei e conto o que aconteceu depois, todas ficam admiradas e me olham com uma pontinha de inveja.
Quando estava cursando o mestrado em uma instituição de primeiríssima linha, ao comentar com um professor que pretendia me dedicar a estudar a sustentabilidade das instituições sem fins lucrativos (Terceiro Setor), ele se espantou e me perguntou: “Você tem certeza do que está fazendo? Você vai gastar todo esse tempo e dinheiro para lidar com pobres?” Na ocasião, expliquei que queria me dedicar minha vida a algo mais do que dinheiro e que tinha certeza de que um dia ele compreenderia sobre o que eu estava falando. Cerca de uns dois anos depois, quando o tema sustentabilidade estava em alta na mídia, nos encontramos na rua e então ele me disse: “Agora eu sei sobre o que você estava falando, você tinha razão: dinheiro não é o mais importante”.
Quem se dedica ao que gosta, além de ter prazer na maior parte do tempo, se aprimora mais do que os outros que fizeram a escolha com o dinheiro como prioridade. Não posso dizer que todas minhas decisões foram corretas nos momentos em que as tomei, mas elas me tornaram o que sou hoje e certamente a felicidade fez parte de minha jornada.
Em qualquer área de trabalho que escolhermos, se a opção for por fazer algo que gostamos, vamos trabalhar mais, com mais atenção, buscando sempre o aprimoramento. E no médio e longo prazos teremos melhor retorno financeiro, porque nos tornamos melhores do que os que priorizaram ganhar dinheiro.
E o melhor, com prazer durante o caminho.