Viver
Na fila de um hospital público japonês, Kanji Watanabe aguarda ser chamado para um raio-x. Ao seu lado, um dramático paciente o alerta para o real significado dos protocolares diagnósticos: o que é não é! Se disserem que está tudo bem, que o que você tem é só uma leve lesão no estômago, na verdade, lhe resta, no máximo, um ano de vida. Está sentenciado por “aquela coisa”, o câncer.
No encontro com o médico, o ritual anunciado na sala de espera se confirma. O velho Watanabe tem uma “leve úlcera”.
Watanabe é o gestor de uma burocrática repartição pública. Conduzia seu trabalho como um operário de processos que levava o nada a lugar nenhum. Viúvo, chafurdou-se em uma rotina limitada por labirintos construídos por pilhas de papéis para criar o filho que, agora adulto, lamenta a avareza do pai.
No início do fim, Watanabe não gosta do que fez. Na mesa de um bar, mergulha em saquê e lamúrias com o dinheiro que levou anos economizando. De porre e luto, decide, então, partir em busca dos prazeres. Os primeiros, efêmeros, o levou a se inspirar na ânsia de uma jovem menina. Depois, tratou de construir seu legado: uma árdua e deliciosa herança moral.
Viver (IKIRU, 1952). Este é o titulo desta história contada com destreza por Akira Kurosawa. Rotulado como “clássico”, “cult” ou “dramático”, também tem sua relevância julgada de várias formas. No entanto, dizer que este filme só fala sobre a clichê, mas importante reflexão sobre vida e morte é muito pouco. A obra não é um retrato de um moribundo frustrado e ansioso para viver o que não viveu, mas sim o expoente de escolhas individuais e seus reflexos no coletivo.
Kurosawa constrói este contexto expondo o ego do poder, o conforto do marasmo, a burocracia cega de incompetência e a constrangedora batalha entre o humilde e o soberbo. Tudo isso resultando o câncer de Watanabe e a frustração de uma comunidade.
Kurosawa fez seu Watanabe olhar para sua história. Esta obra pode fazer a gente olhar para a nossa. Mas não para sairmos por ai tentando reescrevê-la ou preencher as falhas dela com uma depressão sem sentido. Podemos sim descobrir que viver é tão intenso, complexo e coletivo como uma vida deve ser. A partir daí, olhar para o que temos e mudar algumas coisas agora.
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