Publicado: Quinta-feira, 26 de março de 2009
Um brinde à vida
Era bem de manhãzinha quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, Giuliana, uma grande amiga.
- Cê tá sabendo do Duca?
Naqueles milésimos de segundos, um incontável número de pensamentos passou pela cabeça. Desde coisas do tipo “bateu o carro”, até “arrumou um emprego super bom e vai embora da cidade”. Passou de tudo, menos a frase que ouviria na sequência:
- Ele morreu.
Aí, o pensamento era: “como assim, o Duca morreu? O Duca não pode morrer, não faz o menor sentido”.
Não fazia na época e continua não fazendo agora, anos depois. Jovem, saudável, não fumante, aproveitador das coisas boas da vida, ele tinha o estereótipo de quem ficaria na Terra até bem velhinho, contando histórias e fazendo os outros sorrirem. Coisas que um infarto fulminante não permitiu.
Escrevo isso motivado pela notícia que leio aqui no itu.com.br, de que a Câmara Municipal inaugurou uma sala para a imprensa com o nome de Duca Balás. Desnecessário dizer que a homenagem é justa e merecida, tanto quanto o fato da imprensa ser bem tratada no prédio do Legislativo ituano.
Com a criação desta sala, as novas gerações de jornalistas saberão quem foi este homem que tanta qualidade e ética tinha em seu ofício. Entre outros trabalhos, Duca criou e editou, até a morte, a revista Boa Vida, transformando-a em referência regional no que diz respeito à cobertura social e cultural. Quando se foi, ele estava preparando mais uma edição e deixou prontos textos, fotos e entrevistas.
Aliás, Duca sabia fazer como ninguém um jornalismo social de qualidade. Sua página “Candeias” era uma das mais lidas do jornal Periscópio e, não raro, trazia informações que nem mesmo a própria Redação do jornal havia conseguido apurar. Seu jornalismo social tinha as tradicionais fotos de baladas, com gente bonita sorrindo. Mas tinha também apuração, investigação e um texto aprimoradíssimo.
A ética de Duca, infelizmente, nem sempre foi respeitada à altura. Sua demissão e o final de “Candeias” aconteceram de forma desrespeitosa, que misturou um momento político da cidade com interesses pessoais.
A revista Boa Vida ainda chegou a ser publicada algumas vezes depois que seu criador se foi. Mas, sem ele, a criação não era mais a mesma. A venda foi o caminho encontrado e, infelizmente, os compradores não fizeram bom uso de tamanha credibilidade que Duca havia conquistado em mais de 15 anos.
Duca Balás era dessas pessoas tão bacanas que a gente se considera amigo, mesmo não sendo tão próximo. Para dar meu próprio exemplo, nunca tive uma grande amizade com ele, mas respeitava e admirava demais seu trabalho. Com amigos em comum, chegamos até a trabalhar juntos em alguns projetos, o que me é motivo de honra até hoje. Fazíamos aniversário no mesmo dia e não tínhamos o costume de nos cumprimentarmos. Mas por um desses caprichos do destino, nos falamos ao telefone – dando parabéns um ao outro – justamente no último aniversário que ele comemorou, meses antes da sua morte.
Para quem o conheceu, o pensamento daquela manhã de março de 2005 ainda persiste: “como assim, o Duca morreu? O Duca não pode morrer, não faz o menor sentido”. E para quem está chegando agora na profissão, a criação da sala de imprensa com seu nome na Câmara Municipal fará com que estes jovens profissionais aprendam que é possível sim, mesmo cercado de provincianismo, fazer um jornalismo de qualidade. Este é o legado que Duca deixou.
Em tempo: o título desta coluna remonta à capa da edição de Boa Vida publicada logo após a morte de Duca. Foi a primeira e única vez em que a foto de uma pessoa estampou toda a capa da revista. “Um Brinde à Vida” é também o título do livro que reúne crônicas escritas por ele e que pode ser encontrado na editora Ottoni.
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