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Publicado: Sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Estereótipos

O melhor candidato da semana ao título de Notícia Bizarra é, provavelmente, o anúncio de que uma associação de cegos dos Estados Unidos quer processar o diretor Fernando Meirelles pela adaptação do livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, do José Saramago. Não vou nem entrar no óbvio dito à imprensa pelo escritor português (“trata-se de uma associação de cegos que decide ter uma opinião sobre um filme que não viu”), nem vou gastar tempo falando sobre o fato de muita gente não ter compreendido que a história é uma metáfora sobre uma cegueira muito mais perigosa que a da falta de visão. O livro e o filme tratam da falta de humanidade, da escolha de ignorância e pincela brilhantemente questões políticas como o anarquismo e autoritarismo. O que mais me chama a atenção nesta história toda é a identificação das pessoas com os estereótipos. Talvez seja por isso que muita gente se ofenda com tanta facilidade.
 
Outro exemplo recente foi a chuva de reclamações que a Rede Globo recebeu por causa do “otário eleitoral gratuito” do Casseta Planeta. Muita gente se zangou com candidatos fictícios como Homem-Toco e personagens homossexuais.
 
Embora algumas piadas sejam sem graça, ainda sou a favor da tentativa de humor. Mesmo porque, a piada lida com um estereótipo e não com pessoas de nome e sobrenome. Não acho que Casseta e Planeta seja o programa mais engraçado do mundo (prefiro A Grande Família, Friends, CQC), mas eles estão apenas brincando com situações e não com portadores de RG.
 
Vou dar outro exemplo. Se, por descuido ou milagre, surgir uma série de televisão que trate da vida de um daltônico, que more em São Paulo, que tenha poucos amigos, que fuja dos roteiros badalados, que beba tequila sozinho, que leia Saramago, que torça para o Palmeiras, que seja ateu, enfim, que tenha um monte de afinidades comigo, ainda assim, não será um seriado sobre minha pessoa ou algum amigo meu. Será sobre um tipo diferente de pessoa, com particularidades que podem chamar a atenção de telespectadores. Faça drama ou comédia, aquilo lá não pessoas que eu conheça. São personagens e por isso mesmo são interessantes.
 
Na dúvida, eu continuo a favor do humor. Concordo que a onda de politicamente correto trouxe alguns ganhos para nós, mas acho que passamos os limites ao criar tantos limites. Lembra da cartilha do Lula? Corremos o risco de ficar ainda mais parecidos com os Estados Unidos onde um grupo de cegos quer processar alguém por causa de um filme de ficção. De um livro de ficção, não importa.
 
Outra coisa. Não aceito chamar minha avó ou qualquer outra pessoa com mais seis décadas de “membro da melhor idade”. Este termo esconde um preconceito terrível, desumano, uma vontade de criar casas onde os idosos não dêem trabalho. Parece que tentamos amenizar algo que é extremamente natural (todo mundo envelhece!).
 
Minha avó, uma querida mulher que está entre as mais sábias que eu conheço, é uma senhora idosa que tem limitações e superações que muita gente tem ou terá. Eu quero ser velho, um dia. Será um capítulo importante da minha vida. Minha avó não quer se chamada por “da melhor idade”, ela quer apenas ser quem é. Deixa esses títulos todos de lado e aproveita melhor o que o ser humano (de verdade) pode te oferecer.
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